Uma família de discípulos de Jesus
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A fé dentro de casa [Dt 6.6-9]

Estas palavras que, hoje, te ordeno estarão no teu coração; tu as inculcarás a teus filhos, e delas falarás assentado em tua casa, e andando pelo caminho, e ao deitar-te, e ao levantar-te. 8 Também as atarás como sinal na tua mão, e te serão por frontal entre os olhos. 9 E as escreverás nos umbrais de tua casa e nas tuas portas. Deuteronômio 6.6-9.

Sermão do Pastor Misael Batista do Nascimento. Pregado na Igreja Presbiteriana de São José do Rio Preto, no culto da noite, com Ceia do Senhor, em 03/05/2026.

Introdução

Pela graça de Deus, reiniciamos nossas meditações no livro de Deuteronômio. Antes aprendemos sobre o Shemá, o grande chamado de Deus para que o ouçamos, conheçamos, amemos e sirvamos como único e suficiente: “Ouve, Israel, o SENHOR, nosso Deus, é o único SENHOR. Amarás, pois, o SENHOR, teu Deus, de todo o teu coração, de toda a tua alma e de toda a tua força” (Dt 6.4-5).

Trata-se do chamado da aliança, da vida pela fé ativada por graça que deflui do amor de Deus, pois só podemos amá-lo porque ele nos amou primeiro (1Jo 4.16-19). Porque fomos alcançados pelo amor de Deus, é possível responder a ele com amor, afirmando como Davi, em Salmos 18.1: “Eu te amo, ó SENHOR, força minha”.

Deuteronômio 6.6-9, nos ajuda a responder a este chamado de forma prática. A passagem se ajusta perfeitamente a este primeiro Domingo de maio, que abre o Mês da Família Presbiteriana, reforçando que a fé em Deus deve ser conhecida e praticada, antes de tudo, dentro de casa.

O texto lido insiste nisso mencionando uma fé gravada no coração (v. 6) e ensinada na vida comum (v. 7) — fé que nos identifica e protege (v. 8-9).

Vejamos, em primeiro lugar, a…

Fé gravada no coração

A passagem inicia com: “Estas palavras que, hoje, te ordeno estarão no teu coração”. “Estas palavras” incluem “os mandamentos, os estatutos e os juízos” — tudo o que Deus está dizendo, por meio de Moisés, desde o v. 1 deste capítulo. Elas são proferidas “hoje”, quer dizer, Deus não se calou; continua falando. Tem se mantém interessado na presente geração. Deus não é uma força impessoal. Deus se revela. Deus fala. E fala hoje. Além disso, elas não são meros “conselhos” ou “sugestões” e sim ordenanças — são “palavras que, hoje, te ordeno”. Como povo da aliança nós precisamos ouvi-las, considerá-las e obedecê-las. Estamos diante de uma convocação mui solene, do próprio Deus, para que entendamos a utilidade e atualidade destas “palavras” e as levemos a sério.

Tais “palavras” devem ser infundidas em nosso “coração” (o mesmo vocábulo no v. 5, lēb, que aponta o intelecto e a racionalidade humana). Como explica P. C. Craigie:

Os mandamentos, que fornecem a estrutura na qual os israelitas podiam expressar seu amor a Deus, deviam estar em seu coração — isto é, as pessoas deviam pensar sobre eles e meditar neles de maneira que a obediência não fosse uma questão de legalismo formal, mas uma resposta baseada em entendimento. Refletindo sobre os mandamentos, elas estariam refletindo sobre as palavras de Deus (6.1) e, entendendo o caminho de vida colocado pelos mandamentos, elas, ao mesmo tempo, descobririam a maneira como o amor de Deus era expresso.1

Este fé que evidencia o amor a Deus, requer que as estipulações da aliança sejam continuamente relembradas e pensadas. Usando a terminologia paulina de Filipenses 4.8, a palavra de Deus deve “ocupar o nosso pensamento”. Isso é assim porque a fé em Deus, que deve ser conhecida e praticada dentro de casa, precisa se fazer presente e operante no coração dos pais. Eis o primeiro princípio postulado em Deuteronômio 6.6-9. A fé deve estar gravada no coração.

Em segundo lugar, Moisés nos apresenta a…

1 CRAIGIE, P. C. Deuteronômio. São Paulo: Cultura Cristã, 2013, p. 167 (Comentários do Antigo Testamento).

Fé ensinada na vida comum

É o que encontramos no v. 7, onde consta: “Tu as inculcarás a teus filhos, e delas falarás assentado em tua casa, e andando pelo caminho, e ao deitar-te, e ao levantar-te”. Chama atenção o verbo “inculcar”, traduzindo um vocábulo hebraico (shinnantām) cujo sentido é o de “afiar”; “aguçar”; “ensinar incisivamente” ou “repetir”;2 daí a ARC: “e as intimarás”; a NVI: “ensine-as com persistência” e a TEB: “tu os repetirás”. Como sugere um servo de Deus, “a devoção de Israel a Javé deveria ser expressa em amor, constante observância e recordação de seus mandamentos”.3

Moisés não é o único responsável pelo ensino das “palavras” (v. 6). A fim de assegurar que os benefícios da aliança alcancem a nova geração, a educação religiosa da família é responsabilidade dois pais, que devem falar sobre “as palavras” de Deus, conforme este v. 7: “e delas falarás”. Isso atualiza Deuteronômio 4.9:

Tão-somente guarda-te a ti mesmo e guarda bem a tua alma, que te não esqueças daquelas coisas que os teus olhos têm visto, e se não apartem do teu coração todos os dias da tua vida, e as farás saber a teus filhos e aos filhos de teus filhos.

2 Cf. CRAIGIE, op. cit., loc. cit., nota 17.

3 PINTO, C. O. C. Foco & desenvolvimento no Antigo Testamento. 2ª ed. revisada e atualizada. São Paulo: Hagnos, 2014, p. 184.

Ora, para que a fé em Deus seja conhecida e praticada dentro de casa, os pais têm de assumir a tarefa árdua de insistir em repeti-las aos filhos, do início até o fim das vidas deles. Deus informa como fazer isso, no restante no v. 7: “e delas falarás assentado em tua casa, e andando pelo caminho, e ao deitar-te, e ao levantar-te”. Os verbos “assentar” e “andar” abrangem todo o esforço humano. As ocasiões “ao deitar-te, e ao levantar-se” abarcam noite e manhã, a totalidade do tempo. “A verdade pactual é tão importante que […] deve estar no centro de todo o trabalho e vida da pessoa”.4

A fé em Deus conhecida e praticada dentro de casa é entremeada no cotidiano, todos os dias, do início ao fim do dia. Este é o segundo princípio apresentado em Deuteronômio 6.6-9: a fé precisa ser ensinada e vivenciada na vida comum.

Em terceiro lugar, a passagem apresenta a…

4 A citação completa é retirada de MERRILL, Eugene H. Deuteronômio. São Paulo: Vida Nova, 2025, p. 184 (Comentário exegético): “O emparelhamento desses conjuntos de lugares e posturas contrastantes forma um duplo merisma (utilizando termos opostos para expressar um conceito abrangente). Sentar sugere inatividade; e caminhar, claro, atividade. Juntos, eles abrangem todo esforço humano. Da mesma forma, retirar-se à noite e levantar-se pela manhã fala da totalidade do tempo. A verdade pactual é tão importante que ela deve estar no centro de todo o trabalho e vida da pessoa”.

Fé que nos identifica e protege

Como lemos nos v. 8-9: “Também as atarás como sinal na tua mão, e te serão por frontal entre os olhos. E as escreverás nos umbrais de tua casa e nas tuas portas”.

As “palavras” devem ser “atadas como sinal” na “mão” e “entre os olhos”. Algumas traduções trazem “testa” (NVI, NVT), mas “o hebraico é, literalmente, ‘entre os olhos’”.5 FL traduz “e serão inabaláveis diante dos teus olhos”.6 Ainda que a maioria dos intérpretes entenda isso como metafórico, a instrução é entendida por alguns como literal. Por conta disso:

No judaísmo pós-bíblico e até os dias atuais, usa-se uma caixa em miniatura contendo versículos da Torá (Êx 13.1-10, 11-16; Dt 6.4-9; 11.13-21), que são colocados dentro das quatro câmaras da caixa, sendo o conjunto conhecido como těpillîn (“orações) ou filactério (cf. Mt 23.5). Uma caixa semelhante com apenas uma câmara, mas contendo os mesmos textos, era usada no antebraço como um “filactério de mão”.7

As “palavras” devem também ser “escritas nos umbrais” e “nas portas” (v. 8-9), e de acordo com Merrill:

5 CRAIGIE, op. cit., p. 167.

6 Observando que a tradução de Frederico Lourenço é baseada na Septuaginta; cf. LOURENÇO, Frederico. Bíblia volume VI: Antigo Testamento: O Pentateuco. Lisboa: Quetzal Editores, 2025, p. 521. 7 MERRILL, op. cit., p. 184-185.

Mais uma vez […] na prática pós-bíblica, judeus praticantes colocaram um mĕzûzāh (a mesma palavra para “batente, ombreira de porta”), um pequeno receptáculo de metal contendo Deuteronômio 6.4-9 e 11.12-21 em 22 linhas, à direita da porta, em obediência às instruções de Moisés aqui.8

É possível depreender, destes versículos, que a memória piedosa pode e deve ser auxiliada utilizando recursos visuais. Sendo assim, crentes de diferentes confissões, inspirados nesta passagem, escrevem textos bíblicos em cartazes e cartões fixados em casas, quadros de escritórios, escolas e igrejas ou são colocados em bolsos, estojos e até em telas de descanso de dispositivos eletrônicos.

Eu concordo com MacDonald, quando argumenta que “o desejo de Deus era que a lei controlasse os atos (mão) e desejos (olhos) de seu povo”,9 mas o texto parece dizer mais do que isso, pois o termo traduzido como “sinal” (ʾôṯ, no v. 8) tem o sentido de “marca distinta”, quer dizer, a Palavra no coração produz marcação ou identificação; o povo de Deus passa a ser identificado pelas palavras de Deus. Se isso não bastasse, “estas palavras […] no coração” produzem delimitação e proteção, uma vez que “mãos” indicam a conduta e “olhos”, a mente. “Umbrais” identificam a

8 Ibid., p. 185.

9 MACDONALD, W. Comentário bíblico popular: Antigo Testamento. 2ª ed. São Paulo: Mundo Cristão, 2011, p. 139.

residência e “portas”, a entrada da cidade.10 De acordo com Schröeder:

Usamos a mão em nossos atos e, portanto, “atá-las em tua mão” é mantê-las como um sinal para tua conduta, como sempre deve ser considerada, e que deve determinar minha maneira de agir. A testa, “entre teus olhos”, representa a câmara do pensamento, é como a porta para a natureza intelectual do homem (daí a fácil transição para “tuas portas”, v. 9).11

A instrução firma estacas de proteção em redor de Israel, delimitando círculos concêntricos de influência. Estabelece fronteiras ao que entra na cidade, na casa e na mente. O que ganha espaço na mente — crenças e devoções profundas — afeta a casa e a cidade. Essas duas coisas, identificação e delimitação ou proteção, são atualizadas no Apocalipse.12 Tanto os crentes quanto os seguidores da besta são marcados nas mãos e na testa (Ap 3.12; 13.16,17; 14.9-11; 20.4. Não apenas os crentes são purificados e resguardados, mas também a Nova Jerusalém, pois nela não entra nada mau ou

10 Cf. CRAIGIE, op. cit., p. 168: O sinal devia ficar nos umbrais da casa (representando a família) e das portas (representando a comunidade: a vila ou a cidade)”.

11 SCHRÖEDER, Wilhelm Julius. “Deuteronomy”. In: LANGE, J. P.; SCHAFF, P. Deuteronomy or, the fifth book of Moses. Bellingham, WA: Logos Bible Software, 2008, p. 95 (A commentary on the Holy Scriptures).

12 Louvei a Deus quando vi isso identificado por este estudioso do século XIX; cf. SCHRÖEDER, op. cit., loc. cit.

impuro (Ap 14.1-5; 21.27; 22.15). Deuteronômio 6.6-9 fala sobre uma fé que identifica e protege.

Dito isto, podemos começar a concluir…

Conclusão

Reafirmamos que a fé proposta em Deuteronômio 6.6-9 é gravada no coração, ensinada na vida comum e tanto nos identifica, quanto nos protege. Tem de ser assim porque a fé em Deus deve ser conhecida e praticada, antes de tudo, dentro de casa.

Assumir este fé bíblica equivale a ter as palavras de Deus gravadas no coração. A fé preconiza lugar e ritos de adoração, bem como atos verificáveis ajustados às estipulações da aliança. Guardamos dias, lemos, estudamos e carregamos uma Bíblia e nos encontramos regularmente para prestar culto a Deus. Ajustamos linguagem e comportamentos. Nos dedicamos a testemunho e boas obras. Tudo isso, porém, pode ser assumido apenas exteriormente, como obrigação rotineira e protocolar, nutrindo justiça própria ou com finalidade de obter aprovação ou admiração dos homens (cf. Mt 6.1).

Deuteronômio 6.6 se refere a uma devoção sincera, de dentro para fora. Primeiro a Palavra de Deus opera no homem interior. Somente depois ela é externalizada. Deuteronômio convoca para um relacionamento pessoal com Deus que implica saborear, na alma, suas “palavras”, quais sejam, seus

mandamentos, estatutos e juízos (6.1,6). Se imaginávamos que a religião interior é enfatizada somente por Jesus, no Novo Testamento (e.g., no sermão do monte), saibamos que a Bíblia inteira revela que aquilo que externamos informa sobre no que pensamos, o que sentimos e, acima de tudo, no que de fato cremos.

A Palavra de Deus está em nosso coração? Nós podemos afirmar, como Davi, em Salmos 40.8, “agrada-me fazer a tua vontade, ó Deus meu; dentro do meu coração, está a tua lei”? Esta é uma boa ocasião para pedirmos que Deus se revele salvificamente a nós, libertando-nos do mero formalismo religioso. Que Deus nos visite com graça e poder e assim desfrutemos de sua Palavra viva instruindo, nutrindo, queimando, purificando, transformando e consolando nosso coração!

É preciso dizer ainda que, nos termos desta passagem de Deuteronômio, andar com Deus neste mundo e servi-lo como povo da aliança requer articular, viver e praticar a na vida comum que começa dentro de casa. Os que criticam a hipocrisia do cristianismo estão certos neste ponto: não dá para abraçar uma fé que performa lindamente no Domingo, mas é miseravelmente contraditada nas rotinas e vivências de segunda a sábado, entre as quatro paredes do lar. Narcisistas, egoístas, avarentos, viciados, violentos e abusadores de toda ordem esmagam seus familiares, enquanto ganham lugar e reputação em igrejas.

Os profissionais de saúde estão certos também, quando defendem que, admitamos ou não, somos afetados por

abusos, traumas e decepções ocorridos no âmbito privativo, do lar e da família. Isso pode imbricar em patologias, resistência aos convites do evangelho ou prejuízo em nosso desfrute das promessas e privilégios da aliança em Jesus.

Peçamos ao Senhor que nos cure. Pensemos no que podemos e devemos fazer, para que o evangelho encontre espaço e expressão em nossa vida comum — quando estamos descansando ou em atividade, no início ou no fim do dia — a começar de nossa casa.

Refletindo nesta fé que tanto identifica, quanto protege, entendamos que “identidade” significa o que define nosso “compromisso”, “aporte central” e “lealdade para [com] Jesus”.13

No Batismo, como discípulos de Jesus, somos marcados com o selo da Trindade — “batizando-os em nome do Pai, e do Filho, e do Espírito Santo” (Mt 28.19). Isso nos insere no povo de Deus e nos posiciona junto ao Redentor, como lemos em Apocalipse 14.1: “Olhei, e eis o Cordeiro em pé sobre o monte Sião, e com ele cento e quarenta e quatro mil, tendo na fronte escrito o seu nome e o nome de seu Pai”. Por conta disso somos chamados de “cristãos”. Agora nossa identidade reside em Cristo e nosso compromisso primário é com Cristo.

Nosso comportamento tem de ser regido por Cristo — as palavras de Jesus são atadas “como sinal” em nossa “mão”. Isso é assim porque nossa mente (crenças, pensamentos,

13 CARTER, Warren. O Evangelho de São Mateus comentário sociopolítico e religioso a partir das margens. 2ª ed. São Paulo: Paulus, 2021, p. 25 (Coleção grande comentário bíblico).

sentimentos e vontade) é reconfigurada por Cristo — as palavras de Jesus nos são “por frontal entre os olhos” (Dt 6.8). Como consequência, a fé em Cristo serve de muro de proteção em torno de nossa casa e cidade — as palavras de Jesus são escritas “nos umbrais de tua casa e nas tuas portas” (Dt 6.9).

Será que, de fato, nós estamos em Cristo e com Cristo? A fé cristã nos identifica? Regula e define nossas crenças, discernimentos e comportamentos? A fé em Jesus de fato estabelece, em torno de nossa mente, em torno de nosso corpo e em torno de nosso lar, um perímetro de segurança, uma barreira necessária e saudável contra os ataques deletérios de Satanás e deste mundo decaído?

Que oportunidade temos agora, de pedir a Deus que nos ajude nisso! Que ele reine sobre nosso pensar e agir. Que ele se faça presente, reinando em nossa casa e na igreja, em nossa vizinhança e cidade! Que os que nos conhecem se sintam intrigados e curiosos, ao verificar que vivemos como quem tem as “palavras” de Deus em nosso coração, lar e vida.

Vamos orar sobre isso.