Uma família de discípulos de Jesus
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A aliança é atual [Dt 5.1-5]

1 Chamou Moisés a todo o Israel e disse-lhe: Ouvi, ó Israel, os estatutos e juízos que hoje vos falo aos ouvidos, para que os aprendais e cuideis em os cumprirdes. 2 O Senhor, nosso Deus, fez aliança conosco em Horebe. 3 Não foi com nossos pais que fez o Senhor esta aliança, e sim conosco, todos os que, hoje, aqui estamos vivos. 4 Face a face falou o Senhor conosco, no monte, do meio do fogo 5 (Nesse tempo, eu estava em pé entre o Senhor e vós, para vos notificar a palavra do Senhor, porque temestes o fogo e não subistes ao monte.), dizendo […]. Deuteronômio 5.1-5.

Sermão do Pastor Misael Batista do Nascimento. Pregado na Igreja Presbiteriana de São José do Rio Preto, no culto da manhã com batismo infantil, em 01/02/2026.

Introdução

É super frustrante quando a gente tenta conversar com alguém e percebe que a pessoa “não está nem aí”. É quase impossível convencer alguém a fazer alguma coisa se ela reage com aquela atitude de “isso não é comigo”. A gente insiste em nosso argumento, mas a pessoa continua apática, insensível, impassível, como se falássemos com uma parede. E há os que transferem responsabilidade, atualizando a fala de Adão, em Gênesis 3.12: “[…] A mulher que me deste por esposa, ela me deu da árvore, e eu comi”. Não é raro isso acontecer conosco, enquanto ouvimos um sermão: “Que palavra abençoadora; minha sogra tinha de ouvir isso!”.

Um dos convites de Deuteronômio é para entendermos que:

Deus se dirige a mim e a você hoje.

Na passagem que lemos: [1] Deus nos chama hoje (v. 1). [2] Deus nos responsabiliza hoje (v. 2-3). E [3] Deus atualiza a aliança hoje (v. 4-5).

Vejamos, em primeiro lugar, que…

I. Deus nos chama hoje

Como lemos no v. 1:

Chamou Moisés a todo o Israel e disse-lhe: Ouvi, ó Israel, os estatutos e juízos que hoje vos falo aos ouvidos, para que os aprendais e cuideis em os cumprirdes.

Moisés convoca com veemência: “Ouça, ó Israel” (NVI). Deus insiste no chamado para que o ouçamos, porque temos dificuldade nisso. Ouvir para, como se diz popularmente, “entrar por um ouvido e sair pelo outro”, é fácil, mas ouvir e ser transformado para obedecer é bênção e milagre de Deus.[1]

Nós temos de ouvir “os estatutos e juízos” (e você pode conferir mais detalhes sobre tais palavras nos sermões sobre Dt 4.1-8,44-49).[2] Moisés se refere aos decretos, leis, ordenanças e costumes prescritos por Deus. Ele trata das verdades e princípios da aliança, das orientações miúdas para a vida prática.

É interessante que, de acordo com Deuteronômio 5.1, o Cristianismo bíblico observa decretos, leis, ordenanças e costumes — estatutos e juízos. Regras divinamente reveladas e estabelecidas. Orientações práticas que “dão corpo” e forma ao discipulado.

O Rev. Paulo Brasil em um sermão sobre Deuteronômio 4.44—5.5, pregado na Igreja Presbiteriana da Aliança de Recife, diz que “é da natureza do homem estar debaixo de leis e é da natureza de Deus legislar; quando ele cria, ele estabelece leis; quando ele recria, ele estabelece leis”.[3]

Por isso, como diz Moisés em Deuteronômio 5.1, “os estatutos e juízos” são falados “aos ouvidos” (quer dizer, intimamente, na “miúda”, “ao pé da orelha”) e devemos aprendê-los e cuidar em cumpri-los.

Isso nos ajuda a compreender que:

Deus se dirige a mim e a você hoje com uma finalidade. Ele faz isso para firmar e renovar aliança conosco, hoje.

É para isso que Deus nos chama hoje.

Em segundo lugar, desdobrando isso, saibamos que…

II. Deus nos responsabiliza hoje

Pois Moisés prossegue anunciando:

2 O Senhor, nosso Deus, fez aliança conosco em Horebe. 3 Não foi com nossos pais que fez o Senhor esta aliança, e sim conosco, todos os que, hoje, aqui estamos vivos.

Depois de tirar Israel do Egito, quarenta anos antes, Deus se revelou à geração anterior no monte Horebe, que é o Sinai. Os ouvintes atuais do sermão tinham menos de vinte anos na época (cf. Nm 14.29). Mesmo assim, Moisés insiste em dizer que a aliança é para hoje, para a geração que, agora, ouve a Palavra de Deus — “não foi com nossos pais que fez o Senhor esta aliança, e sim conosco, todos os que, hoje, aqui estamos vivos” (v. 3).

Não dá para ser indiferente, nem para transferir responsabilidade. Deus vivo hoje (e sempre) pactua conosco hoje (e para sempre).

Cristianismo não é mera coletânea de histórias edificantes. É vida com Deus aqui e neste instante. A aliança de Deus com indivíduos, famílias e um povo foi estabelecida no passado, mas permanece atual.

Quando Deus fala com Adão ou Noé ou Abraão, ele diz algo a nós, hoje. As interações da aliança, em que Deus ministrou a servos e a seu povo no passado, têm a ver conosco. São atualizadas em Cristo, plausíveis e necessárias hoje.

É nesse sentido que Deus fala na Escritura. Um quadro em meu gabinete diz que “a Bíblia é o único livro lido na presença do autor”. Nós lemos as histórias bíblicas e nos identificamos com elas. Nos vemos nelas e somos instruídos e transformados. No hino 352, “Leitura bendita”, o poeta pede a Deus que o ajude a ver, na Bíblia, mais do que a “mera letra”.[4]

A nova geração de israelitas tinha de entender que era alcançada, no tempo presente, pela aliança promulgada no Horebe, tempos atrás.

Também nós, ouvintes atuais da palavra, somos feitos participantes da aliança hoje, atualizada em e por Cristo.

Deus se dirige a mim e a você hoje, para firmar e renovar aliança.

A aliança não tem a ver apenas com os patriarcas, profetas e apóstolos, ou com os crentes do passado. Deus nos responsabiliza hoje.

Em terceiro lugar, é importante observar que…

III. Deus atualiza a aliança hoje

A aliança é atual. É o que encontramos nos v. 4-5.

4 Face a face falou o Senhor conosco, no monte, do meio do fogo 5 (Nesse tempo, eu estava em pé entre o Senhor e vós, para vos notificar a palavra do Senhor, porque temestes o fogo e não subistes ao monte.), dizendo […].

A atualidade da aliança é constatada na inclusão da nova geração no relato. Deus falou com a nova geração — “falou o Senhor conosco” (v. 4). Deus notificou a nova geração — “eu estava em pé entre o Senhor e vós, para vos notificar a palavra do Senhor, porque temestes” (v. 5). A nova geração de Israelitas podia se enxergar na cena do estabelecimento da aliança do Sinai e entender: “Isso é comigo”.

Moisés retoma o que disse antes, em Deuteronômio 4.11-12,36: O Deus da aliança, “o Senhor”, falou com Israel “face a face […] no monte, do meio do fogo” (v. 4-5). Deus revelou Glória e Palavra.

Além disso, a aliança requer um mediador. Deus falou (“notificou” sua “palavra”) por intermédio de Moisés, que se colocou “em pé entre o Senhor” e o povo (v. 5). “[…] Moisés estava no monte, rodeado da glória teofânica de Deus, a fim de servir como um canal de revelação divina, a “palavra do Senhor” entregue naquela ocasião e prestes a ser repetida agora”.[5]

Glória e Palavra foram mediadas na aliança.

Então transcorrem 1400 anos e, no 1º século, João informa que Jesus é tanto a Glória, quanto a Palavra encarnada de Deus (Jo 1.1,14). E diz ainda o mesmo apóstolo que “a lei foi dada por intermédio de Moisés; a graça e a verdade vieram por meio de Jesus Cristo” (Jo 1.17). Em 2Coríntios 3.6, Paulo fala sobre o ministério “de uma nova aliança” e, escrevendo a Timóteo, declara que agora “há um só Deus e um só Mediador entre Deus e os homens, Cristo Jesus, homem” (1Tm 2.5). Se isso não bastasse, o autor de Hebreus apresenta Jesus como “fiador de superior aliança” (Hb 7.22). E para completar, o próprio Senhor Jesus afirma, na instituição da Ceia, em Lucas 22.20: “Este é o cálice da nova aliança no meu sangue derramado em favor de vós”.

Organizando a doutrina, Deus atualiza a aliança, por meio de Jesus. E Jesus faz mais do que meramente evocar a lembrança da aliança mosaica. Jesus cumpre a aliança. Jesus a transcende, expande, aprofunda, assegura e atualiza. Isso é assim porque:

Deus se dirige a mim e a você hoje, para firmar e renovar aliança.

Deus atualiza a aliança hoje. Quando eu e você passamos a desfrutar dos benefícios da aliança — quando a aliança faz sentido para nós e começamos a viver baseados nela, Deus está atualizando a aliança.

A partir daqui, começamos a concluir…

Conclusão

Recapitulando, em Deuteronômio 5.1-5, [1] Deus nos chama, [2] nos responsabiliza e [3] atualiza a aliança hoje.

Isso quer dizer que não dá para se colocar diante de Deus, com atitude de quem “não está nem aí”. Não dá para ouvir as instruções da aliança e pensar que “isso não é comigo”. Não podemos permanecer insensíveis e apáticos diante de Deus. Muito menos sugerir que esta palavra é para os outros, mas não para nós.

Deus se dirige a nós, hoje. Ele faz isso para firmar e renovar aliança. Para nos ajudar a entender que a aliança é atual.

Sendo assim, pensemos juntos no seguinte…

[1] Deus nos chama para aprender e cumprir ou praticar seus estatutos e juízos, suas orientações miúdas para a vida. Ele quer que o conheçamos, que o amemos e o sirvamos na prática.

É gostoso filosofar e “viajar na maionese” discorrendo sobre grandes princípios e doutrinas. O difícil é fazer o que Deus requer de nós nas pequenas coisas cotidianas.

A aliança não é apenas lembrança do que passou. A aliança possui atualidade e relevância.

É claro que, mencionando orientações miúdas para a vida, pensamos no risco do legalismo, de imaginarmos que a obediência a regras assegura nossa salvação. Isso é, de fato, errado e perigoso, pois a Bíblia diz que nós somos salvos “pela graça mediante a fé” em Cristo e que a própria fé é um “dom de Deus” (Ef 2.8-9). Ninguém é capaz de comprar a salvação; ninguém dá conta de cumprir a lei perfeitamente. Somos marcados indelevelmente pela Queda. Nesse sentido, o Cristianismo bíblico não é religião de regras, muito menos de exercício de tirania.

O Cristianismo da Bíblia não cerceia a liberdade de consciência do crente. Nenhum apóstolo, pastor ou instituição tem autoridade para manipular uma pessoa em nome de Deus. A Igreja Cristã não pode replicar o erro dos fariseus que, de acordo com Mateus 23.4:

Atam fardos pesados [e difíceis de carregar] e os põem sobre os ombros dos homens; entretanto, eles mesmos nem com o dedo querem movê-los.

A Igreja não pode exigir obediência ameaçando, nem fomentando esperança falsa de obtenção de crédito espiritual por justiça própria. O evangelho não oprime. O “jugo” de Jesus “é suave” e seu “fardo é leve” (Mt 11.30). O “reino de Deus” consiste em “justiça, e paz, e alegria no Espírito Santo” (Rm 14.17). O resultado do governo de Jesus sobre nós é a vida cheia “de todo o gozo e paz” em nosso “crer”, e riqueza “de esperança no poder do Espírito Santo” (Rm 15.12-13). Jesus nos concede “descanso” nele; a fé bíblica em Jesus nos livra de temor insalubre e ansiedade (Mt 11.29).

Mas entendamos que isso não nos exime de conhecer, amar e observar a lei, como o servo de Deus, em Salmos 119.97: “Quanto amo a tua lei! É a minha meditação, todo o dia!” Como dissemos, o discipulado cristão possui corpo e forma.

Tem de ser assim porque corremos perigo em anomia, que é a “ausência de leis, de normas ou regras”.[6] Lutero criou uma palavra, “antinomia”, aludindo à ideia de alguns que sugeriam que a lei não é importante para o cristão. Um documento intitulado Fórmula de Concórdia organizou a doutrina da Igreja Luterana, declarando “que a lei tem três usos: mostrar-nos nossos pecados; governar a vida da sociedade; guiar as vidas daqueles que Deus salvou mediante a graça”.[7]

Por um lado, temos de pedir a Deus que disponha nosso coração, para ouvir de modo a sermos transformados, e assim, obedecer. Temos de sair do limbo prático. Começar a aprender para cumprir.

Além disso, se formos honestos, também é hora para admitir nossa infidelidade, nossa contumácia no pecado, nossa indiferença para com Deus e seus decretos, leis, ordenanças e costumes. Nossa idolatria profunda, nosso ateísmo prático, nossa leniência com os ditames de Satanás e costumes deste mundo. Nossa dificuldade em rejeitar o pecado em nós. Nosso assanhamento para o mal e timidez para o bem.

Vamos orar sobre isso? Vamos apresentar a Deus nosso coração e sincera confissão? Vamos pedir a ele que nos ajude em nossa vergonha e fracasso?

[2] Tem de ser assim porque Deus me responsabiliza. E Deus responsabiliza você. E a “todos os que, hoje, aqui estamos vivos” (v. 3). Ele firmou aliança conosco.

Chega de lidar com Deus como aquele aluno desatento da sala de aula. O professor faz uma pergunta e ele nem ouve, pensando “na morte da bezerra”. Daí o professor diz em voz alta: “Ei, Joãozinho, estou falando com você!”

Será que entendemos? Que Deus está falando conosco?

[3] Finalmente, a aliança é atual. Tem a ver com Cristo e conosco. E deve ser firmada ou renovada ainda hoje, sem mais delongas.

O pessoal do marketing e do desenvolvimento fala sobre chamado para a ação (call to action). O pessoal da comunicação fala sobre o “próximo passo”. Os teólogos cristãos enfatizam a resposta a Deus que nos convida, esclarece e transforma na pregação.

E daí? De que lado você está? E de que lado você pretende ficar? Será que você nunca se assumiu como cristão? Ou será que você abandonou ou perdeu sua identidade e integridade cristã? Volte agora. Renove a aliança agora.

É possível firmar ou renovar aliança com Deus através de Jesus. Por causa de Jesus. O sangue foi vertido e a tumba, aberta. A vida está em Jesus e a vida é “a luz dos homens” (Jo 1.4). “A luz [que é Jesus] resplandece nas trevas, e as trevas não prevaleceram contra ela” (Jo 1.5).

Você precisa de Jesus. Sua casa precisa de Jesus. Nós precisamos de Jesus. Ele é compassivo, de modo que podemos nos aproximar dele suplicando como o poeta no Hino Jornada do crente (NC nº 140):

Guia, ó Deus, a minha sorte nesta peregrinação.

Frágil sou, mas tu és forte, não me largue a tua mão!

Jesus é poderoso e suficiente Redentor. Está acima de forças, poderes e reis. Jesus é Deus, início, meio e fim. Quando Jesus morreu, ele pensou em mim e em você. Em Jesus a aliança é atual. Baixemos nossas cabeças agora. Peçamos a Jesus para firmar e renovar aliança em nosso coração.

Vamos orar sobre isso.


Notas

[1] “O verbo ouvir (šemǎʿ) traz o sentido de ‘obedecer’: é requerido do povo que ouça para obedecer”; cf. CRAIGIE, P. C. Deuteronômio. São Paulo: Cultura Cristã, 2013, p. 144 (Comentários do Antigo Testamento).

[2] NASCIMENTO, Misael Batista do. Além dos feitos, os preceitos: exposição de Deuteronômio 4.1-8. Disponível em: . Acesso em: 31 jan. 2026; NASCIMENTO, Misael Batista do. A palavra regula a vida: exposição de Deuteronômio 4.44-49. Disponível em: . Acesso em: 31 jan. 2026.

[3] BRASIL, Paulo. Pregação em Deuteronômio 4.44—5.5. Disponível em: . Fala localizada em 7:00. Acesso em: 31 jan. 2026.

[4] “Enquanto, ó Salvador, teu livro ler, // De auxílio necessito para ver // Da mera letra, além, a ti, Senhor, // E meditar no teu excelso amor”; cf. LATHBURY, M. A.; WRIGHT, H. M.. “Hino 352 Leitura bendita”. In: MARRA, Cláudio. (Org.). Novo cântico. 16ª ed. Reimp. 2017. São Paulo: Cultura Cristã, 2013. ePub.

[5] MERRILL, Eugene H. Deuteronômio. São Paulo: Vida Nova, 2025, p. 150 (Comentário exegético).

[6] “Anomia”. In: FERREIRA, Aurélio Buarque de Holanda. Dicionário Aurélio eletrônico 7.0. Curitiba: Editora Positivo, 2009. CD-ROM.

[7] “Antinomianismo”. In: GONZÁLEZ, Justo L. Breve dicionário de teologia. São Paulo: Hagnos, 2009. Logos software.