Tem chinelo para tudo: o de dentro de casa, o que vai à praia e volta com areia e até o para sair à noite. Barato, democrático, sem cerimônia. Talvez por isso a Escritura fale tanto de pés e sandálias.
No deserto de Midiã, Moisés se aproxima da sarça e ouve: “Não te chegues para cá; tira as sandálias dos pés, porque o lugar em que estás é terra santa” (Êx 3.5). Diante do Deus santo ninguém chega de qualquer jeito: sua santidade nos descalça e expõe nossa pequenez.
Mas o evangelho guarda outro gesto. Quando o filho perdido volta arrastando os pés e a vergonha, o pai manda que lhe ponham “sandálias nos pés” (Lc 15.22). Escravo andava descalço; filho, calçado. A graça não nos deixa no chão da vergonha.
Cristo tornou possível esse encontro. Aquele de quem João não se julgou digno de desatar as correias das sandálias (Mc 1.7) ajoelhou-se para lavar pés sujos. Nele somos descalçados pela santidade e calçados pela graça, prontos para andar “com a preparação do evangelho da paz” (Ef 6.15).
Não finja grandeza diante de Deus nem fuja dele. Em Cristo, a terra santa tornou-se a casa do Pai.
Abner Santana