16 Honra a teu pai e a tua mãe, como o Senhor, teu Deus, te ordenou, para que se prolonguem os teus dias e para que te vá bem na terra que o Senhor, teu Deus, te dá.
17 Não matarás. 18 Não adulterarás.
19 Não furtarás. 20 Não dirás falso testemunho contra o teu próximo. 21 Não cobiçarás a mulher do teu próximo. Não desejarás a casa do teu próximo, nem o seu campo, nem o seu servo, nem a sua serva, nem o seu boi, nem o seu jumento, nem coisa alguma do teu próximo. Deuteronômio 5.16-21.
Sermão do Pastor Misael Batista do Nascimento. Pregado na Igreja Presbiteriana de São José do Rio Preto, no culto da manhã com Ceia, em 08/02/2026.
Introdução
A vida na aliança requer que honremos a Deus.
Quem diz isso é Moisés nesta mensagem pregada para a nova geração de israelitas, cujos pés ainda estão marcados pelo deserto, mas os olhos podem vislumbrar o Jordão. É para essa nova geração que o Decálogo é reapresentado.
Nos v. 6-15, Moisés falou sobre os primeiros quatro mandamentos, “relativos ao relacionamento da humanidade com Deus”[1] — quem ele é, como deve ser adorado, como seu nome deve ser tratado e como o tempo deve ser santificado. Agora, nos v. 16-21, ele aborda os mandamentos “relativos ao relacionamento da humanidade com os outros”[2] — ao nosso trato com o próximo.
A vida na aliança requer tanto a honra a Deus quanto o amor ao próximo.
Isso é assim porque quem ama o Senhor de verdade aprende a amar gente de verdade. A aliança com Deus, originada no céu, cria raízes na vida comum.
Essas duas coisas — honra ao Senhor e amor ao próximo — constituem o tecido conjuntivo da aliança.
Na passagem lida Moisés apresenta um [1] amor que começa em casa (v. 16), que [2] valoriza o outro (v. 17-18) e [3] respeita o que é do outro (v. 19-21).
Aprendamos, em primeiro lugar, sobre o…
I. Amor que começa em casa
Moisés fala sobre isso, no v. 16, como segue:
[5º mandamento] Honra a teu pai e a tua mãe, como o Senhor, teu Deus, te ordenou, para que se prolonguem os teus dias e para que te vá bem na terra que o Senhor, teu Deus, te dá.
O primeiro detalhe a observar é que este é o primeiro mandamento relativo ao nosso dever para com os homens. Se queremos de fato honrar a Deus e amar ao próximo, é preciso dar honra a nossos pais.
Isso pode parecer estranho para nós, uma vez que nossa cultura, como explica Michael Horton, valoriza “o culto à juventude” (velhice é obsolescência), “o culto ao agora” (não temos nada a aprender com o passado), “a pretensão” (eu me basto; não preciso da opinião de meus pais) e “o culto ao eu” (eu me adoro; eu sou muito importante e ocupado; não tenho tempo para meus pais).[3] Horton informa que:
Apenas metade do público norte-americano acredita que é responsabilidade dos filhos cuidar de seus pais. Não é de se estranhar que metade da população acima de 45 anos de idade tenha dito não pensarem que seus filhos irão cuidar deles na velhice.[4]
Então Horton nos desafia:
Mas nós somos cristãos. Isso significa que se supõe que nós tratemos nossos idosos – não só nossos próprios pais, mas nossos idosos em geral – com respeito e dignidade, como os tutores honrados do lar, da academia e da cultura.[5]
O quinto mandamento é atualizado no Novo Testamento. Em Marcos 7.5-13, Jesus se refere a ele criticando os fariseus e escribas, que sugeriam que um filho podia deixar de ajudar seus pais financeiramente, a fim de dar o dinheiro como oferta no templo.
Em Efésios 6.1-3, Paulo convoca os filhos a demonstrarem vida governada pelo Espírito Santo argumentando que eles devem obedecer a seus pais no Senhor, citando o quinto mandamento e sublinhando que este “é o primeiro mandamento com promessa”.
O verbo no imperativo aqui (em Dt 5.16), kǎbbēḏ, carrega o sentido de “honrar com palavras, gestos e ações concretas”, quer dizer, “o mandamento de honrar é […] para demonstrar de formas tangíveis e empíricas o respeito que as pessoas devem ter pelos seus pais”.[6]
O Catecismo de Heidelberg (CH) propõe ainda que o mandamento tem relação com o propósito de Deus de reinar sobre nós, de modo que a obrigação do mandamento é estendida para as relações com nossos superiores, como segue:
O que Deus exige no quinto mandamento? Devo prestar toda honra, amor e fidelidade a meu pai, a minha mãe e a todos os meus superiores; devo submeter-me à sua boa instrução e disciplina com a devida obediência, e também ter paciência com seus defeitos, porque Deus nos quer governar pelas mãos deles.[7]
Moisés insiste com a nova geração de israelitas, prestes a conquistar Canaã, que o amor ao próximo não começa na praça pública, nem nas grandes causas. Começa na sala de casa. No quarto. À mesa.
Honrar pai e mãe é reconhecer que Deus trabalha por meio de autoridade, de cuidado, de transmissão. É admitir que ninguém nasce do nada. Há uma história antes de nós. Há mãos que nos sustentaram quando éramos pequenos demais para nos sustentar.
Entendamos que honrar não é idolatrar, e sim tratar com peso, com dignidade, com respeito. Mesmo quando há falhas — e sempre há — a honra preserva a ordem que Deus estabeleceu.
E vale a pena focar na promessa: “para que se prolonguem os teus dias e para que te vá bem na terra que o Senhor, teu Deus, te dá.”
Não é mágica. É sabedoria bíblica. Famílias que aprendem honra geram sociedades estáveis. Onde a casa desmorona, a cidade não demora a cair. O amor ao próximo começa aprendendo a amar quem nos ensinou a andar.
O tecido conjuntivo da aliança é constituído de amor que começa em casa.
Além disso, em segundo lugar, Moisés se refere ao…
II. Amor que valoriza o outro
As exigências desse amor podem ser conferidas nos v. 17-18:
[6º mandamento] 17 Não matarás. [7º mandamento] 18 Não adulterarás.
Notemos que o texto vai direto ao ponto. Amor não é sentimento vago e sim, compromisso com a vida e com a fidelidade.
Quanto ao sexto mandamento, “a violência contra uma pessoa a ponto de morte é uma afronta à soberania de Deus, um ataque ao seu representante terreno ( cf. Gn 9.6).[8] O CH explica primeiro a exigência do mandamento, como lemos:
O que Deus exige no sexto mandamento? Não devo desonrar, odiar, ofender ou matar meu próximo, por mim mesmo ou por meio de outros. Isso não posso fazer por pensamentos, palavras ou gestos, e muito menos por atos. Mas devo abandonar todo desejo de vingança, não fazer mal a mim mesmo ou, de propósito, colocar-me em perigo. Por isso as autoridades dispõem das armas para impedir homicídios.[9]
Em seguida o CH aprofunda a questão, perguntando e respondendo:
É suficiente não matar nosso próximo? Não, porque Deus, condenando a inveja, o ódio e a ira, manda que amemos nosso próximo como a nós mesmos e mostremos paciência, paz, mansidão, misericórdia e gentileza para com ele. Devemos evitar seu prejuízo, tanto quanto possível, e fazer bem até aos nossos inimigos.[10]
“Não matarás” não fala apenas de tirar a vida com as mãos. Fala de preservar a dignidade do outro. É não tratar pessoas como descartáveis. É não reduzir gente a obstáculo, número ou problema.
Quanto ao sétimo mandamento, de acordo com Merrill:
O adultério é uma violação da […] relação humana mais importante e sagrada, a do casamento. […] O adultério […] implica infidelidade, quebra de aliança, portanto é um análogo adequado à infidelidade de aliança num plano superior — o divino-humano.[11]
O mesmo autor explica que “tanto no Antigo Testamento (Gn 20.9; cf. Êx 32.21,30-31; 2Rs 17.21) quanto no Oriente Médio ele é chamado de ‘o grande pecado’”.[12] E o CH complementa:
O que o sétimo mandamento nos ensina? Toda impureza sexual é amaldiçoada por Deus. Por isso, devemos detestá-la profundamente e viver de maneira pura e disciplinada, sejamos casados ou solteiros.[13]
“Não adulterarás” protege algo igualmente precioso: a confiança. O casamento é o espaço onde a fidelidade a Deus ganha forma concreta. Traí-lo é ferir pessoas, famílias e o próprio tecido da comunidade.
Esses mandamentos dizem, sem rodeios, que o próximo não é coisa, não é meio, não é objeto do meu desejo. Ele é portador de vida. Ele é alguém diante de Deus. Amar o próximo é escolher preservar, não consumir. Guardar, não usar.
Isso é assim porque o tecido conjuntivo da aliança é constituído de amor que valoriza o outro.
Para completar, em terceiro lugar, Moisés aponta para o…
III. Amor que respeita o que é do outro
Os imperativos para esse tipo de respeito constam do oitavo ao décimo mandamento.
[8º mandamento] 19 Não furtarás. [9º mandamento] 20 Não dirás falso testemunho contra o teu próximo. [10º mandamento] 21 Não cobiçarás a mulher do teu próximo. Não desejarás a casa do teu próximo, nem o seu campo, nem o seu servo, nem a sua serva, nem o seu boi, nem o seu jumento, nem coisa alguma do teu próximo.
Quanto ao oitavo mandamento, “não furtarás” (v. 19), Merrill diz que:
Assim como o adultério é a violação da família de alguém, o roubo é a violação da propriedade de alguém. […] Obviamente, há um mal inerente à apropriação ilegítima da propriedade de outrem. Mas, num nível pactual e teológico ainda mais elevado, o roubo revela uma insatisfação com o seu destino na vida e um desejo aquisitivo de obter mais do que o Senhor, o Soberano que dispensa aos seus vassalos o que lhe parece melhor, já concedeu.[14]
Não furtar é respeitar limites. É reconhecer que Deus distribui dons e provisões de formas diferentes — e que tomar o que não é nosso é declarar guerra à confiança.
Quanto ao nono mandamento, “não dirás falso testemunho contra o teu próximo” (v. 20), o vocábulo, “falso” traduz׃ šāw, “vazio”; “sem substância”, ou seja, “se alguém é acusado sem fundamentos válidos ou substanciais, está sendo acusado falsamente”.[15] Eis como o mandamento é esclarecido, no CH:
O que Deus exige no nono mandamento? Jamais posso dar falso testemunho contra meu próximo, nem torcer suas palavras, ou ser mexeriqueiro ou caluniador. Também não posso ajudar a condenar alguém levianamente sem o ter ouvido.
Mas devo evitar toda mentira e engano, obras próprias do diabo, para Deus não ficar aborrecido comigo.
Em julgamentos e em qualquer outra ocasião, devo amar a verdade, falar a verdade e confessá-la francamente. Também devo defender a promover tanto quanto puder, a honra e a boa reputação de meu próximo.[16]
Não dar falso testemunho é cuidar da verdade. Palavras também ferem. Uma mentira pode matar reputações, destruir relações e incendiar comunidades inteiras.
Quanto ao décimo mandamento, “não cobiçarás […]” (v. 21), de acordo com o CH:
O que Deus exige no décimo mandamento? Jamais pode surgir em nosso coração o menor desejo ou pensamento contra qualquer mandamento de Deus. Pelo contrário, devemos sempre, de todo coração, odiar todos os pecados e amar toda justiça.[17]
Merrill nos faz lembrar de que:
Como tem sido observado repetidamente pelos estudiosos, o décimo mandamento difere muito dos outros nove por estar mais relacionado com uma disposição interna do que com um ato externo. Ou seja, está relacionado com os desejos, não com os passos práticos para satisfazer esses desejos.[18]
E ainda, “embora a cobiça, sem dúvida, frequentemente se expresse em ações, isso não é obrigatório. Mas isso não diminui a sua pecaminosidade”.[19]
O Senhor Jesus reforça isso em Mateus 5.27-28:
27 Ouvistes que foi dito: Não adulterarás. 28 Eu, porém, vos digo: qualquer que olhar para uma mulher com intenção impura, no coração, já adulterou com ela.
E Merril conclui que:
Nosso Senhor enfatiza que a cobiça, embora seja a última na lista de mandamentos, na verdade pode englobar todos eles. Ao mesmo tempo que é o menos abertamente violento e prejudicial, é o mandamento que está mais na raiz da desobediência à aliança, visto que precede logicamente os restantes.[20]
De fato, o nono mandamento desfere o golpe final. Porque Deus sabe que o pecado começa antes da ação. Começa no coração inquieto, insatisfeito, que olha para o que o outro tem e diz: “eu merecia isso”. A cobiça é a raiz invisível de muitos pecados visíveis. Ela nunca se satisfaz. Sempre quer mais. Sempre quer o que é do outro. Nesses termos, amar o próximo é aprender a dizer: “o que Deus me deu basta”.
Tem de ser assim, porque o tecido conjuntivo da aliança é constituído de amor que respeita o que é o do outro.
A partir daqui, podemos começar a concluir…
Conclusão
Recapitulando, Deuteronômio 5.16-21 nos apresenta o [1] amor que começa em casa, que [2] valoriza o outro e [3] respeita o que é do outro.
Esses mandamentos não são uma lista fria de proibições. São um retrato do que acontece quando a aliança com Deus pulsa no meio do povo. Eles nos perguntam, hoje, sem rodeios: “Como tenho tratado aqueles que Deus colocou mais perto de mim?” Infelizmente, talvez tenhamos de trazer para nós aquilo que Horton afirma sobre a sociedade norte-americana:
Quando adquirimos esta noção de que nossos idosos têm pouco a oferecer à sociedade? Os anos de experiência prática, o conhecimento de acontecimentos passados para registros históricos de primeira mão e a sabedoria por ter lidado com problemas que encararam antes de nós, deram aos idosos o papel de Sábios ou Filósofos em muitas culturas ao redor do mundo. Mas em nossa agora orientada cultura egocêntrica, individualista, podemos deixar nossas obrigações do passado numa casa de repouso e nossas obrigações para o futuro para nossos filhos. […].
O cantor de reggae Ziggy Marley escreveu uma canção alguns anos atrás sobre os norte-americanos, a quem ele chamava de “povo do amanhã”. Os norte-americanos, ele disse, jogaram fora o seu passado e, consequentemente, não têm futuro.[21]
Que possamos reconsiderar nossa relação e trato com as pessoas, a começar de nossos pais, responsáveis e autoridades sobre nós constituídas.
Outras questões dignas de nossa atenção são as seguintes: Minhas escolhas preservam ou ferem a vida do outro? Minhas palavras constroem ou corroem? Meu coração descansa na provisão de Deus ou vive cobiçando o que não é meu?
É preciso reaprender a honra dentro de casa, mesmo quando é difícil. Escolher proteger a vida, a fidelidade e a dignidade das pessoas ao nosso redor. Vigiar nossos desejos antes que eles governem nossas ações. Usar nossas palavras como instrumentos de verdade, não de destruição.
A vida na aliança requer tanto a honra a Deus quanto o amor ao próximo.
A aliança com Deus não se prova no que dizemos no culto, mas no modo como tratamos as pessoas na segunda-feira.
Onde há amor ao próximo, a aliança respira. Onde a aliança é viva, o povo permanece de pé.
Vamos orar sobre isso.
Notas
[1] MERRILL, Eugene H. Deuteronômio. São Paulo: Vida Nova, 2025, p. 153 (Comentário exegético).
[2] MERRILL, op. cit., p. 164.
[3] HORTON, M. A lei da perfeita liberdade: a ética bíblica a partir dos Dez Mandamentos. São Paulo: Cultura Cristã, 2000, p. 119-125. Logos software.
[4] HORTON, op. cit., p. 114.
[5] Ibid., loc. cit.
[6] MERRILL, op. cit., p. 165.
[7] “Catecismo de Heidelberg, [CH] pergunta 104”. In: A BÍBLIA DE ESTUDO DE GENEBRA. 3ª ed. [BEG3]. São Paulo: Barueri: Cultura Cristã; Sociedade Bíblica do Brasil, 2023, p. 2292. Grifo nosso.
[8] MERRILL, op. cit., p. 165.
[9] CH, pergunta 105”. In: BEG3, p. 2292.
[10] Ibid., pergunta 107”, loc. cit.
[11] MERRILL, op. cit., p. 166.
[12] Ibid., loc. cit.
[13] CH, pergunta 108”. In: BEG3, p. 2292.
[14] MERRILL, op. cit., p. 166-167.
[15] Ibid., p. 167.
[16] CH, pergunta 112”. In: BEG3, p. 2292.
[17] Ibid., pergunta 113”. In: BEG3, p. 2293.
[18] MERRILL, op. cit., p. 167.
[19] Ibid., p. 168.
[20] Ibid., p. 169.
[21] HORTON, op. cit., p. 113.