Uma família de discípulos de Jesus

O testemunho cristão dentro da perspectiva sal e luz [Mt 5. 13-16]

13 Vós sois o sal da terra; ora, se o sal vier a ser insípido, como lhe restaurar o sabor? Para nada mais presta senão para, lançado fora, ser pisado pelos homens. 14 Vós sois a luz do mundo. Não se pode esconder a cidade edificada sobre um monte; 15 nem se acende uma candeia para colocá-la debaixo do alqueire, mas no velador, e alumia a todos os que se encontram na casa. 16 Assim brilhe também a vossa luz diante dos homens, para que vejam as vossas boas obras e glorifiquem a vosso Pai que está nos céus. Mateus 5.13-16.

Sermão do Pastor Edmar Leandro. Pregado na Igreja Presbiteriana de São José do Rio Preto, no culto da manhã, em 15/03/2026.

Introdução

Há muitas igrejas espalhadas por todo o Brasil, mas podemos dizer que há também muitas igrejas que perderam a clareza quanto à sua própria identidade e missão. Encontramos congregações com muitos departamentos e muitas atividades, porém com pouca intencionalidade e pouca fidelidade no testemunho público. Existem grandes movimentos, mas pouca efetividade no cumprimento da missão que o Senhor Jesus Cristo confiou à sua igreja.

Alguns cristãos acreditam que, para manter a pureza espiritual, os fiéis devem se isolar e evitar contato com o mundo. Quando vão para um novo trabalho, querem saber quem são os crentes; quando entram na faculdade, procuram os crentes na sala de aula; quando se mudam de bairro, buscam os vizinhos crentes. Estão sempre atrás de crentes e evitam relacionamentos com os incrédulos — é o sal preso dentro do saleiro. Outros cristãos, por sua vez, acreditam que a igreja deve se envolver profundamente com o mundo, chegando ao absurdo de sugerir que ela deve até se parecer com o mundo para poder alcançá-lo. Nesse caso, o sal se torna insípido e a igreja se torna mundana.

A igreja do Senhor Jesus Cristo precisa conhecer melhor a essência de sua identidade para descobrir efetivamente qual é a sua missão neste mundo. Nesta passagem, o nosso Redentor havia acabado de expor as normas do reino de Deus por meio das bem-aventuranças. Agora, Cristo mostra que é impossível viver e praticar essas normas apenas na vida privada. As abençoadas normas do reino devem refletir em nossa vida pública, em nosso testemunho social, em todos os lugares e em todo o tempo.

Jesus utiliza duas metáforas bem conhecidas para falar sobre a identidade da igreja. E por meio delas revela não apenas a identidade, mas a essência da missão da igreja. Se pudéssemos escolher uma palavra para definir essa essência, a palavra seria:

Influência — tudo o que somos e fazemos neste mundo, de forma consciente ou inconsciente, afeta a vida das pessoas que estão ao nosso redor.

A questão não é se estamos ou não influenciando as pessoas — certamente estamos. A verdadeira questão apresentada pelo Senhor Jesus Cristo é: que tipo de influência estamos transmitindo?

As duas metáforas apresentadas por Cristo têm um pressuposto muito significativo. Quando Jesus diz “Vós sois o sal da terra”, a necessidade do sal — que preserva e conserva — pressupõe a realidade de um mundo em decadência, em decomposição, corrompendo-se em todas as esferas. Quando diz “Vós sois a luz do mundo”, a necessidade da luz pressupõe a realidade de um mundo coberto pelas trevas, imerso na escuridão da cegueira espiritual. O mundo em que vivemos não está em ascensão; está se desintegrando nas trevas do pecado. E a igreja é a única esperança, porque a igreja é o plano de Deus, a agenda de Deus para este mundo perdido.

I. O propósito do sal

Vós sois o sal da terra; ora, se o sal vier a ser insípido, como lhe restaurar o sabor? Para nada mais presta senão para, lançado fora, ser pisado pelos homens. (v. 13).

Naquela época, obviamente, não havia geladeira. O conservante mais poderoso e mais valioso era o sal. Esfregava-se o sal na carne — como ainda se faz em algumas regiões do Brasil até hoje —, e esse processo retirava a umidade, evitava a proliferação de bactérias e, consequentemente, a decomposição do alimento. Nas longas viagens marítimas realizadas, por exemplo, pelo apóstolo Paulo, o sal era essencial, pois a proteína animal transportada nos navios era conservada dentro de barris de sal.

Quando os discípulos ouviram essa metáfora, compreenderam muito bem o que Jesus queria dizer. Nessa pequena declaração de Cristo se encontra a identidade da igreja, bem como a sua missão no mundo dos homens. Somos discípulos do Senhor Jesus Cristo, enviados ao mundo para proclamar os valores do reino com o propósito de preservar, restringir e coibir o apodrecimento da sociedade.

Não temos poder para santificar o coração dos pecadores que convivem conosco, mas podemos, sim, como sal, influenciar a vida das pessoas ao nosso redor. De maneira bem prática: as pessoas que convivem conosco no trabalho, na família, na faculdade ou em qualquer outro lugar serão necessariamente afetadas pelo nosso testemunho. A podridão deste mundo resiste e, de certa forma, rejeita a verdade do evangelho. Contudo, a podridão deste mundo certamente irá experimentar o efeito de um discípulo que vive os valores do reino — um discípulo cheio de Deus, cheio da Palavra de Deus, cheio do Espírito Santo de Deus. O mundo experimenta e sente a presença da igreja.

Alguém poderia pensar: “Sou uma pessoa limitada, tenho dificuldade para falar, para expor a minha fé, não conheço com profundidade as Escrituras.” Mas Jesus Cristo não fez uma sugestão — ele fez uma declaração:

Vós sois o sal da terra. (v. 13a).

Deus quer usar a sua igreja — e de fato usa — e quer usar cada crente, pecador salvo pela graça, para ser sal na vida das pessoas ao redor. Ser sal é sair pelo mundo refletindo o Senhor e Salvador Jesus Cristo por meio de atitudes, palavras, ações, escolhas e conselhos.

Há, porém, um risco no cumprimento da missão. Esta cultura mundana e anticristã resiste, afronta e quer remover a influência da igreja. O mundo maligno quer nos manter dentro do saleiro. Infelizmente, alguns cristãos acabam cedendo e se contaminando com o pecado, deixando de influenciar efetivamente os que estão ao seu redor.

Daí vem a advertência de Cristo. Naquela cultura, o sal não era refinado como o nosso: era extraído das lagoas do Mar Morto, às vezes contaminado por impurezas, tornava-se muito alcalino e perdia seu poder conservante. Por isso, era jogado nas estradas para ser pisado pelos homens. A igreja do Senhor Jesus Cristo nunca deixará de ser sal, mas, por negligência e por pecado, alguns cristãos são contaminados pelas impurezas do mundo e parecem perder o poder de salinidade. Quando isso acontece, a igreja perde a sua identidade e deixa de cumprir a sua missão; é ignorada, desprezada, ridicularizada e até pisada pelo mundo.

O sal, para cumprir a sua função, precisa ser diferente daquilo que ele tempera. O cristão cumpre a sua função se for diferente do mundo. Carregamos a imagem do Senhor Jesus Cristo e devemos espelhá-lo por meio do nosso exemplo, seguindo nos passos do nosso Redentor. Vivemos num mundo de relacionamentos superficiais e virtuais. Para sermos sal e cumprirmos essa missão, precisamos aprofundar os nossos relacionamentos. Quando estamos reunidos, somos sal juntos; mas durante a semana, cada pitada de sal será espalhada pela cidade. Precisamos ser inseridos na vida das pessoas que não conhecem o Senhor Jesus Cristo.

II. O propósito da luz

Vós sois a luz do mundo. Não se pode esconder a cidade edificada sobre um monte; nem se acende uma candeia para colocá-la debaixo do alqueire, mas no velador, e alumia a todos os que se encontram na casa. (v. 14-15).

É notável observar a quem essa declaração foi dirigida. O Senhor Jesus Cristo estava no Sermão do Monte, rodeado por pessoas simples, sem educação formal, sem expressão política, pobres, sem influência na sociedade e subjugadas pelo Império Romano. Porém, aos olhos de Cristo, aquele pequeno grupo sem importância, sem influência e sem expressão é chamado de luz do mundo. Que identificação maravilhosa!

É óbvio que a igreja não tem luz própria. A origem da nossa luz é o próprio Cristo:

Eu sou a luz do mundo; quem me segue de modo algum andará em trevas, mas terá a luz da vida. (Jo 8.12).

A nossa luz é um reflexo da luz de Cristo. Sem a presença de Cristo em nós, só há trevas, só há escuridão. Assim como uma lâmpada não tem luz em si mesma e precisa estar conectada à corrente de energia para brilhar, nós precisamos estar em Cristo, conectados ao Senhor Jesus pela fé, ligados à fonte de poder para que a nossa luz brilhe diante dos homens.

Há um aspecto interessante que distingue a função da luz da função do sal. O sal atua de forma oculta, muitas vezes silenciosa, porém profunda. A luz, no entanto, precisa estar acesa, no alto, visível para cumprir sua função, que é iluminar.

A nossa missão é glorificar o nosso Deus, fazendo brilhar a luz do Senhor Jesus Cristo em todas as esferas e em todas as áreas da sociedade. Por onde passarmos — numa loja, numa consulta, na casa de familiares, no elevador do prédio, em qualquer lugar —, a luz do Senhor Jesus Cristo deve brilhar por meio do nosso exemplo, da nossa conduta, das nossas palavras e, principalmente, por meio da proclamação do evangelho.

1. A cidade edificada sobre o monte

Jesus utiliza a imagem de uma cidade edificada sobre um monte que não pode ser escondida. Essa ideia significa que o Senhor Jesus Cristo colocou a sua igreja numa posição privilegiada e extremamente estratégica. As pessoas olham para a nossa vida, para a nossa família, para a nossa conduta. As pessoas olham para a nossa igreja e devem perceber que somos diferentes. E todos os dias estamos nessa mesma posição estratégica.

Alguém poderia pensar: “Minha realidade é muito complicada. Moro num lugar difícil, com vizinhos difíceis; no trabalho, sou perseguido; estou num ambiente de trevas e ignorância espiritual.” Contudo, por mais densas que sejam as trevas ao nosso redor, elas não poderão encobrir o brilho da luz de Cristo que emerge da nossa vida.

2. A candeia no velador

Jesus acrescenta a ilustração da candeia: por qual razão alguém acenderia uma lamparina e a colocaria debaixo de um cesto? Isso seria uma grande tolice, um contrassenso, uma atitude incoerente. A luz precisa estar acesa no local estratégico para cumprir a sua função, que é iluminar.

Um cristão que tenta esconder a sua luz por vergonha ou por temor é uma contradição. Cristãos iluminados pela graça de Deus e pelo Espírito Santo precisam iluminar, brilhar e espalhar a glória de Deus, e não ocultar a sua fé. Deus nos chamou para estarmos no velador.

É significativo que Jesus diz que a candeia alumia “todos os que se encontram na casa”. A nossa luz deve brilhar em primeiro lugar na vida daqueles que estão perto de nós, dentro da nossa casa. Não podemos querer iluminar o mundo inteiro enquanto somos trevas no lar. Visibilidade é a marca da identidade cristã. A luz ilumina tanto os de dentro quanto os de fora, e nós precisamos ser como essa luz aberta no centro.

O apóstolo Paulo, escrevendo aos filipenses, expressa essa mesma verdade:

Para que vos torneis irrepreensíveis e sinceros, filhos de Deus inculpáveis no meio de uma geração pervertida e corrupta, na qual resplandeceis como luzeiros no mundo, preservando a palavra da vida. (Fp 2.15-16a).

III. O propósito final da missão

Assim brilhe também a vossa luz diante dos homens, para que vejam as vossas boas obras e glorifiquem a vosso Pai que está nos céus. (v. 16).

Alguém poderia pensar que o propósito final da missão é ter uma igreja numericamente maior. O crescimento certamente acontecerá como consequência natural. Porém, o propósito final da missão é a glória de Deus.

Quando a luz de Cristo brilha por meio da nossa compaixão, do nosso amor, da nossa misericórdia, da nossa justiça, da piedade, da generosidade, da mansidão e do domínio próprio, algumas pessoas serão de fato repelidas — se afastarão e talvez levantem falsas acusações contra nós, como advertem as bem-aventuranças (Mt 5.10-12). Mas outras pessoas serão atraídas, ficarão impressionadas, verão algo diferente, compreenderão quem somos, e isso trará glória ao nome do Senhor.

As normas do reino de Deus, quando colocadas em prática pelos discípulos, são as boas obras de que Jesus fala. É viver as normas do reino e testemunhá-las neste mundo de forma prática:

As boas obras refletem diante dos homens quando expressamos fé e confiança mesmo no tempo das provações. A nossa tranquilidade aos olhos daqueles que estão ao redor funciona como uma espécie de farol, chamando a atenção das pessoas e mostrando que Cristo é a nossa rocha. As boas obras refletem quando, sendo provocados e estando sob pressão no trabalho ou nos estudos, reagimos com paciência e domínio próprio, entregando toda injustiça nas mãos do Senhor. As boas obras refletem quando amamos, cuidamos e respeitamos a nossa família — quando o marido ama a esposa e a lidera com amor sacrificial, quando a esposa se dedica ao zelo pelo lar e ao cuidado dos filhos. A família cristã é um farol de boas obras para todos ao redor. As boas obras refletem quando demonstramos disposição de sacrificar ou perder algo por causa do nome do Senhor Jesus Cristo. Alguns observarão e chamarão isso de loucura; outros dirão: “Esta pessoa está disposta a abrir mão de algo valioso por causa do nome do Senhor.”

Fazemos todas essas coisas vivendo o evangelho como sal e luz — não por exibicionismo nem por ostentação, mas com o propósito de levar as pessoas a glorificarem o nome do Senhor Jesus.

Conclusão

O Senhor Jesus Cristo revela, por meio de duas metáforas, a identidade e a missão da sua igreja: [1] como sal da terra, somos chamados a preservar, restringir e coibir a decomposição moral e espiritual da sociedade, penetrando de modo profundo e silencioso na vida das pessoas; [2] como luz do mundo, somos chamados a brilhar visivelmente em todas as esferas da vida, iluminando a escuridão pela nossa conduta e pela proclamação do evangelho; e [3] o propósito final de toda essa missão não é o crescimento numérico em si, mas a glória de Deus — que os homens vejam as nossas boas obras e glorifiquem o nosso Pai que está nos céus.

Quando estamos reunidos como igreja, somos uma cidade edificada sobre o monte. Mas durante a semana, seremos como pequenos luzeiros espalhados por toda a cidade, atuando e irradiando a luz de Cristo, influenciando pessoas com o evangelho de Jesus.

Uma doméstica presbiteriana, numa pequena cidade chamada Biritiba Mirim, entendeu qual era a sua identidade e a sua missão. Foi trabalhar na casa do médico da cidade e, com toda a sua limitação, começou a ensinar os filhos dele as histórias bíblicas. Com o tempo, o próprio médico se interessou. Convidou mais pessoas. O grupo cresceu, alugou-se um salão, depois comprou-se um terreno no alto do morro, na entrada da cidade. Hoje, há uma igreja naquela cidade porque uma irmã simples foi sal e luz na vida de crianças e de uma família.

Deus nos usa onde estamos. Às vezes queremos procurar lugares, mas Deus providencialmente está conduzindo os nossos passos. Essa é a agenda de Deus para a nossa vida.

Assim brilhe também a vossa luz diante dos homens, para que vejam as vossas boas obras e glorifiquem a vosso Pai que está nos céus. (v. 16).