Povo santo: exposição de Deuteronômio 7.1-6
1 Quando o SENHOR, teu Deus, te introduzir na terra a qual passas a possuir, e tiver lançado muitas nações de diante de ti, os heteus, e os girgaseus, e os amorreus, e os cananeus, e os ferezeus, e os heveus, e os jebuseus, sete nações mais numerosas e mais poderosas do que tu; 2a e o SENHOR, teu Deus, as tiver dado diante de ti, para as ferir, totalmente as destruirás […].
2b Não farás com elas aliança, nem terás piedade delas. 3 Nem contrairás matrimônio com os filhos dessas nações; não darás tuas filhas a seus filhos, nem tomarás suas filhas para teus filhos; 4 pois elas fariam desviar teus filhos de mim, para que servissem a outros deuses; e a ira do SENHOR se acenderia contra vós outros e depressa vos destruiria. 5 Porém assim lhes fareis: derribareis os seus altares, quebrareis as suas colunas, cortareis os seus postes-ídolos e queimareis as suas imagens de escultura.
6 Porque tu és povo santo ao SENHOR, teu Deus; o SENHOR, teu Deus, te escolheu, para que lhe fosses o seu povo próprio, de todos os povos que há sobre a terra. Deuteronômio 7.1-6.
Sermão do Pastor Misael Batista do Nascimento. Pregado na Igreja Presbiteriana de São José do Rio Preto, no culto matutino de 07/06/2026.
Introdução
Chegou a hora de olharmos para Deuteronômio 7, um dos textos mais desconfortáveis da antiguidade bíblica, que
registra uma ordem de expulsão de sete nações de Canaã.1 Deus usa Moisés para orientar a nova geração de Israel, às portas de uma terra repleta de povos, costumes, deuses e tentações.
A conquista vai além da mera ação militar. A cultura de Canaã é mais perigosa que seus exércitos, e ameaça corromper o coração de Israel. O povo da aliança deve saber que pertence somente ao Senhor. Hoje dissecaremos a arquitetura lógica por trás da ideia de um povo santo.
Nos versos lidos, [1] Israel deve lutar a guerra santa (v. 1-2a), [2] afastar-se das nações e práticas perversas (v. 2b-5) e
[3] identificar-se como povo santo e escolhido (v. 6).
Vamos entender o primeiro ponto…
Israel deve lutar a guerra santa
1 Quando o SENHOR, teu Deus, te introduzir na terra a qual passas a possuir, e tiver lançado muitas nações de diante de ti, os heteus, e os girgaseus, e os amorreus, e os
1 Para Merrill, a passagem integra um quadro mais amplo, de revelação dos princípios da aliança (5.1—11.32) e o capítulo 7 discorre sobre a “expulsão dos não vassalos”; cf. MERRILL, Eugene H. Deuteronômio. São Paulo: Vida Nova, 2025, p. 196 (Comentário exegético); MERRILL, Eugene H.; ROOKER, Mark F.; GRISANTI, Michael A. Introdução ao Antigo Testamento: o mundo e a Palavra. São Paulo: Vida Nova, 2025, p. 396. O esboço proposto pela Bíblia de Genebra lê 5.1—11.32 como “a orientação acerca das condições” [para conquista da terra e desfrute das bênçãos do pacto]; cf. BÍBLIA DE ESTUDO DE GENEBRA. 3ª ed. [BEG3]. São Paulo: Barueri: Cultura Cristã; Sociedade Bíblica do Brasil, 2023, p. 297. Deuteronômio 7 pode ser lido como “instruções para derrotar os cananitas”; cf. RYKEN, Leland. A Bíblia como você nunca leu: introdução literária aos livros da Bíblia. São Paulo: Cultura Cristã, 2025, p. 69.
cananeus, e os ferezeus, e os heveus, e os jebuseus, sete nações mais numerosas e mais poderosas do que tu; 2a e o SENHOR, teu Deus, as tiver dado diante de ti, para as ferir, totalmente as destruirás […].
No v. 1, lemos que o SENHOR é Deus de Israel: “Quando o SENHOR, teu Deus”. As ações mencionadas no v. 1 e início do
v. 2 informam que ele, Deus, está dando a Terra a Israel e assegurando sua vitória: “te introduzir”, “tiver lançado” (v. 1) e “as tiver dado” (v. 2a).
As nações elencadas aqui são temíveis, “mais numerosas e […] poderosas” do que Israel (v. 1b)2 e o fato de Deus fornecer uma lista delas informa que não se trata de conquista imperial, ou seja, a ordem é limitada no tempo e no espaço. A geração atual de israelitas não pode agredir quem desejar e seus líderes futuros não devem usar esta instrução como precedente militar para atacar seus vizinhos. As sete nações são mencionadas, a fim de que Israel saiba:
2 Para Craigie, “essas sete nações seriam Estados relativamente pequenos, segundo os padrões de hoje, controlando áreas de terra geralmente centradas em torno de uma ou mais cidades fortificadas”; mesmo assim, eram maiores e mais fortes do que Israel. Ele esclarece ainda que “a implicação exata de todos os termos [os nomes das nações listados no v. 1] é incerta, em parte, por causa da antiguidade das referências e da obscuridade de alguns dos termos”; cf. CRAIGIE, P. C. Deuteronômio. São Paulo: Cultura Cristã, 2013, p. 174 (Comentários do Antigo Testamento). Merrill (op. cit., p. 197-199) fornece um apanhado da origem e destino destas nações, documentando que algumas delas são mencionadas na história bíblica até os tempos pós-exílicos. Keil e Delitzsch observam que “há sete deles [povos] mencionados aqui, como em Josué 3.10 e 24.11; por outro lado, há apenas seis em Deuteronômio 20.17, como em Êxodo 3.8,17; 23.23 e 33.2, sendo os girgaseus omitidos”; cf. KEIL,
C. F.; DELITZSCH, F. Commentary on the Old Testament. Peabody, MA: Hendrickson, 1996, v. 1, p. 887.
[…] as restrições e os limites de sua comissão […]. Eles […] não devem […] matar todos aqueles que cruzarem o seu caminho. Não, os seus ataques deveriam parar ali. A restrição dessa autorização para as nações […] indica claramente que isso não deveria ser utilizado como precedente em tempos futuros.3
Para entender isso melhor, é interessante cotejar a ordem para a guerra santa com a conduta de guerra revelada em Deuteronômio 20. Nós estudaremos Deuteronômio 20 em outro sermão, se Deus permitir. Por ora, basta saber que, de acordo com Deuteronômio 20.10-15, antes de atacar uma cidade, o exército de Israel tem de oferecer um acordo de paz. Somente se a proposta de paz não for aceita, é que Israel pode cercar a cidade e eliminar sua força militar (os homens), preservando os civis não combatentes (mulheres, crianças e rebanhos). Vejamos que há um código humanitário aqui.
A regra para a guerra santa é uma exceção à conduta de guerra geral. É uma execução de sentença divina, como lemos, ainda no v. 2b: “para as ferir” (na Bíblia hebraica, nkh; “golpear”; “bater”; “matar”) e ainda, “totalmente as destruirás” (e aqui encontramos ḥērem; “devotar a Deus para destruição completa” na ESV), ou como explica Merrill, um “anátema, uma política pela qual os inimigos do Senhor eram mortos pelo seu povo […] e todas as suas propriedades eram ou destruídas ou confiscadas pelo povo para seu próprio
3 HENRY, Matthew. Comentário bíblico Antigo Testamento: Gênesis a Deuteronômio. Edição completa. Rio de Janeiro: Casa Publicadora das Assembleias de Deus, 2010, v. 1, p. 581.
uso”.4 Guerra santa deve ser empreendida unicamente contra as nações listadas em Deuteronômio 7.1.
Isso tem de ser assim por três razões.
Elas ocupam a terra ilegalmente, pois esta foi dada originalmente a Abraão, para que, pelo cumprimento desta promessa, as nações sejam abençoadas (Gn 12.1-3,7; 13.17; 15.18-21). A jura divina foi atualizada para Isaque e Jacó, quatro séculos antes dos cananitas se estabelecerem ali (Gn 26.3; 28.13). Vale lembrar que o dono primário de Canaã é Deus, uma vez que “toda a terra” pertence ao SENHOR” (Êx 19.5). Olhando por esse ângulo, as nações cananitas são transgressoras.5
Estas nações atingiram o ápice de sua maldade. Ao ratificar a aliança com Abraão, Deus afirma que seus
4 MERRILL, op. cit., p. 196-197. De acordo com o mesmo autor (ibid., p. 199-200), o verbo utilizado aqui, heḥĕrîm, “significa ‘dedicar alguém ou algo ao Senhor por meio de seu extermínio’. Essa ação drástica era praticada como uma forma de juízo divino imediato sobre aqueles que desperdiçaram a graça ao continuarem pecando durante o seu período de graça (cf. Gn 15.16; Lv 18.24-30)”. Reafirmando o ponto, Copan e Flannagan insistem em que “a ordem de exterminar os cananeus era uma ordem isolada; isto é, não era a aplicação de uma regra geral relevante a todas as pessoas em toda a história. Antes, em uma campanha particular, a nação teocrática de Israel, em virtude de sua condição singular de aliança, foi autorizada a fazer uma exceção aos princípios gerais que governam a guerra”; cf. COPAN, Paul; FLANNAGAN, Matthew. Deus realmente ordenou o genocídio?: como compreender a justiça de Deus. São Paulo; Vida Nova, 2014, p. 75. Edição do Kindle.
5 De acordo com Merrill (op. cit., p. 196), as nações mencionadas no v. 2 “eram invasoras da terra da promessa”, e ainda, na p. 199, “eles eram transgressores aos olhos do Senhor, pois ele já havia prometido a Abraão que daria a terra a ele e seus descendentes”. Copan e Flannagan (op. cit., p. 76-80) argumentam com detalhes os motivos pelos quais a ocupação da terra pelos cananitas é ilegal. Frederico Lourenço anota que “o tema da relação de Israel com os povos que disputam o mesmo território põe em relevo os contornos dramáticos de uma tragédia antiquíssima”; cf. LOURENÇO, Frederico. Bíblia volume VI: Antigo Testamento: O Pentateuco. Lisboa: Quetzal Editores, 2025, p. 523.
descendentes ocuparão Canaã assim que se encher a “medida da iniquidade dos amorreus” (Gn 15.16).6 Deus foi paciente com estas nações ímpias. Elas deterioraram, apesar de Deus lhes dar corda durante quatro séculos.7 A lista de seus pecados pode ser conferida em Levítico 18.1-30.8 Os versículos 25-28 (de Lv 18) nos ajudam a ter uma ideia da gravidade da situação:
E a terra se contaminou; e eu visitei nela a sua iniquidade, e ela vomitou os seus moradores. Porém vós guardareis os meus estatutos e os meus juízos, e nenhuma destas abominações fareis, nem o natural, nem o estrangeiro que peregrina entre vós; porque todas estas abominações fizeram os homens desta terra que nela estavam antes de vós; e a terra se contaminou. Não suceda que a terra vos vomite, havendo-a vós contaminado, como vomitou o povo que nela estava antes de vós (Lv 18.25-28; grifos nossos).
6 Cf. NASCIMENTO, Misael Batista. O início da guerra santa: exposição de Deuteronômio 2.26-37. Disponível em:
7 Como pondera Goldingay, “Deus não está simplesmente sendo arbitrário. O Senhor lhes tem dado corda por séculos, e, por fim, eles mesmos se enforcaram, agindo de maneiras abomináveis (o sacrifício infantil é uma das práticas citadas na Torá). Assim, esses povos devem ser banidos do território que ocupam, como Caim foi banido de sua terra”; cf. GOLDINGAY, John.
Números e Deuteronômio. Rio de Janeiro: Thomas Nelson Brasil, 2021, p. 178 (Pentateuco para todos). Edição do Kindle.
8 Copan e Flannagan (op. cit., p. 82-83) detalham que “a passagem [Lv 18] registra incesto, adultério, bestialidade, prostituição ritual e atos homossexuais; e, mais significativamente, Deuteronômio 12.29-31 destaca o sacrifício de crianças como especialmente detestável. Encontramos uma censura repetida contra o sacrifício ritualístico de crianças nos Profetas, nos Salmos e nos livros históricos”.
Levítico 18 apresenta duas ideias que soam esquisitas,
(1) a de que os atos maus do homem contaminam o lugar onde ele habita; e (2) a de que há um limite de contaminação suportável, ou seja, se o homem ultrapassa este limite, ele é “vomitado” da terra.
Pior, o estado espiritual destas nações é definitivo, pois no v. 10 somos informados de que elas “odeiam” o SENHOR. Somos inclinados a estranhar isso, especialmente se comparamos tais instruções com o dito de Jesus em Mateus 5.43-48, orientando-nos a amar nossos inimigos. Goldingay resolve a questão esclarecendo que “Agostinho comenta que Jesus nos instrui a amar os nossos inimigos, mas não diz para amarmos os inimigos de Deus”.9 Os cananeus se opõem à própria existência da vida e são a antítese de tudo o que é sagrado.
É preciso assegurar a redenção. Vejamos que tais nações podem conduzir Israel à destruição: “Pois elas fariam desviar teus filhos de mim, para que servissem a outros deuses; e a ira do SENHOR se acenderia contra vós outros e depressa vos destruiria” (v. 4). Isso não é blefe (cf. Dt 6.14-15). Se Israel for destruído não tomará posse da terra, não haverá descendência piedosa de Abraão, não nascerá Jesus, não haverá redenção e a bênção divina não alcançará as nações da terra. É nesse sentido que Jesus afirma para a mulher samaritana, em João 4.22: “Vós adorais o que não conheceis;
9 GOLDINGAY, op. cit., p. 177. O modo bíblico de lidar com os inimigos de Deus pode ser conferido em Salmos 139.21-22: “Não aborreço eu, SENHOR, os que te aborrecem? E não abomino os que contra ti se levantam? Aborreço-os com ódio consumado; para mim são inimigos de fato”.
nós adoramos o que conhecemos, porque a salvação vem dos judeus”. Sem os judeus em Canaã, não haveria salvação!
Resumindo, para conquistar a Terra Prometida, Israel deve lutar a guerra santa.
Em segundo lugar, a passagem destaca ainda que…
Israel precisa se afastar das nações e práticas perversas
Como lemos a partir da parte final do v. 2:
2b Não farás com elas aliança, nem terás piedade delas. 3 Nem contrairás matrimônio com os filhos dessas nações; não darás tuas filhas a seus filhos, nem tomarás suas filhas para teus filhos; 4 pois elas fariam desviar teus filhos de mim, para que servissem a outros deuses; e a ira do SENHOR se acenderia contra vós outros e depressa vos destruiria. 5 Porém assim lhes fareis: derribareis os seus altares, quebrareis as suas colunas, cortareis os seus postes-ídolos e queimareis as suas imagens de escultura.
A sentença de destruição não equivale a eliminação total das nações. Haverá sobreviventes e, a partir deles, tentações que
Israel deve vencer.10 Como lidar com o desafio do dia seguinte? Como conviver com os sobreviventes cananeus?
O estabelecimento vitalício e abençoado em Canaã exige três providências de separação (distinção e afastamento) entre Israel e as fontes de perversidade.
Israel não deve firmar aliança com estes povos ímpios, nem tratá-los com brandura: “não farás com elas aliança, nem terás piedade delas” (v. 2b). “Qualquer tipo de tratado seria comprometedor e poderia levar ao desastre”.11
Israel não pode misturar-se a elas por meio de casamento (v. 3-4). Essa determinação radical faz lembrar de Gênesis 6.2 (a união entre “os filhos de Deus” e “as filhas dos homens” gerou deterioração) e ecoa no fracasso de Salomão (que se entregou a crime e idolatria, influenciado por suas esposas pagãs; cf. 1Rs 11.5-8). A norma é ainda evocada nas ações inflexíveis de Esdras e Neemias, que anularam os casamentos mistos dos israelitas, depois do retorno do exílio (Ed 9.1-15; 10.1-44; Ne 13.23-29). Se isso não bastasse, Paulo reafirma a instrução, em 2Coríntios 6.14, de modo que, “aquele que, ao escolher o seu cônjuge, não se mantém pelo menos dentro dos limites de uma profissão justificável da religião, não pode se assegurar de que terá uma ajuda adequada”.12 O risco apontado aqui é o de erosão da própria
10 Thompson pondera que as instruções dos v. 2b-5 sugerem que “presumivelmente nem todo o inimigo era morto durante a guerra santa”; cf. THOMPSON, J. A. Deuteronômio: Introdução e comentário. Reimp. 2017. São Paulo: Vida Nova, 1982, p. 124 (Série cultura bíblica).
11 CRAIGIE, op. cit., p. 174.
12 HENRY, op. cit., p. 582.
identidade do povo de Deus. A proibição destes casamentos opera como vacina contra a assimilação.
Israel deve “destruir sistematicamente o ‘mobiliário’ religioso físico de seus inimigos, indicando, assim, completa falta de reconhecimento de seus deuses”.13 Não cabe pensar em preservar o valor histórico destes altares. Os redutos de idolatria apelam aos sentidos e afetam a mente e o comportamento. Os “postes-ídolos”, mencionados no v. 5 (na ARA), aparecem na FL como “bosques”, seguidos da observação de que a palavra grega usada na Septuaginta (alsos), “designa […] recintos arborizados onde se praticavam cultos religiosos […]. A palavra hebraica correspondente é ʾǎšē·rā(h), deusa na religião cananeia”.14 Os rituais dali são idólatras e orgiásticos. A curiosidade pela estética ou pelos rituais envolventes fatalmente reacenderá a falsa adoração. Tais “relíquias de idolatria”15 têm de ser eliminadas, seja “por indignação santa”,16 seja “para evitar a sua influência”17 (voltaremos a isso quando considerarmos os v. 25-26).
Resumindo, para não se deixar influenciar, Israel precisa se afastar das nações e práticas perversas.
A razão para tudo isso é apresentada a seguir. Em terceiro lugar…
13 CRAIGIE, op. cit., loc. cit.
14 LOURENÇO, op. cit., p. 523.
15 HENRY, op. cit., loc. cit.
16 Ibid., loc. cit.
17 Ibidem.
Israel tem de identificar-se como povo santo e escolhido
Qual a justificativa para Deus exigir tanto de Israel? O que poderia sustentar a disciplina da nova geração de israelitas?
O alicerce disso tudo é o fato de Israel ser povo santo e escolhido: “Porque tu és povo santo ao SENHOR, teu Deus […]” (v. 6a). Para alguns, “santo” quer dizer “bom”, “ético” ou “pacífico”. “Santo” também pode ser entendido como “espiritual além da medida”, mas o adjetivo “santo” (qā·ḏôš), na Bíblia hebraica, carrega o sentido de ser “colocado à parte” ou “separado para Deus”. Ele “qualifica aquilo que é […] admitido no âmbito do sagrado” e “distinto do que é comum ou profano”.18 Para os antigos, a palavra “santo” se refere ao tipo de vida para o qual os crentes são escolhidos, ou seja, “a vida no campo de batalha”; o título santo é uma marca que indica “de que lado” nós estamos.19 As nações de Canaã são separadas pelo SENHOR para destruição (v. 1-2). Os israelitas são separados pelo SENHOR para o próprio Senhor (v. 6). Israel é posicionado ao lado de Deus, oposto aos inimigos de Deus.
18 MCCOMISKEY, Thomas. E. “qā·ḏôš”. In: HARRIS, R. Laird; ARCHER JR.,
Gleason L.; WALTKE, Bruce K. Dicionário internacional de teologia do Antigo Testamento. São Paulo: Vida Nova, 1998, #1990b, p. 1323. Discordo respeitosamente de Goldingay (op. cit., p. 178), quando defende que “quando o Antigo Testamento fala sobre santidade, o faz com referência à condição ou posição do povo, não à sua ética ou espiritualidade”. A lista de tarefas que precede o v. 6 informa que a eleição e santidade de Israel ensejam ações cheias de implicações éticas e espirituais solenes, profundas e inflexíveis.
19 PETERSON, Eugene H. Corra com os cavalos: para quem busca uma vida de excelência. Viçosa: Ultimato; Niterói: Textus, 2003, p. 47.
A santidade de Israel é assegurada pela eleição divina. Israel é santo porque “o SENHOR, teu Deus, te escolheu” (v. 6b).20 Os termos desta escolha de Deus serão desenvolvidos na exposição sobre Deuteronômio 7.7-11. Por ora basta saber que isso é assim para que Deus constitua “o seu povo próprio, de todos os povos que há sobre a terra” (v. 6c). Calvino argumenta que podemos entender “seu próprio povo” como “algo precioso e desejável”,21 daí a NVI: “o seu tesouro pessoal”. Israel é eleito para ser distinguido, diferente dos outros povos. A compreensão desta distinção é necessária para os israelitas darem conta da conquista. Israel tem de identificar-se como povo santo e escolhido.
Recapitulando, [1] Israel deve lutar a guerra santa; [2] afastar-se das nações e práticas perversas e [3] identificar-se como povo santo e escolhido.
Agora temos de verificar o que isso tudo tem a ver conosco.
Conclusão
Como um texto tão duro chega até nós? Somos chamados a admitir que Deus executa juízo pessoal e coletivo, uma ideia indigesta para nossa cultura. Os cristãos antigos expressavam, sem dificuldade, que “Deus castiga” aqui e na
20 O verbo “escolher” traduz bā·ḥǎrʹ; lit., Deus “elegeu”.
21 CALVINO, João. Commentaries on the four last books of Moses arranged in the form of a harmony. Bellingham, WA: Logos Bible Software, 2010, v. 1, p.
355. Calvino se refere ao termo seḡǔl·lā(h), na Bíblia hebraica.
eternidade. A Escritura informa que Deus pune com juízo temporal e também com juízo eterno.22
Outra ideia impopular é a de pessoas, instituições e nações funcionarem como executores do juízo de Deus. Isso acontece aqui, em Deuteronômio 7.23
Meredith Kline pontua corretamente que:
Há pessoas que se escandalizam com a ordem dada por Deus a Israel de exterminar cananeus, como se representasse ética subcristã. Na realidade, essas pessoas se escandalizam diante da teologia e religião da Bíblia como um todo.24
Em outras palavras, quem se escandaliza com as ordens de Deus, em Deuteronômio 7, está, de fato, mascarando sua rejeição da teologia bíblica como um todo. A teologia bíblica defende a premissa de um juízo final. Se você rejeita o microcosmo do juízo em Canaã, no fundo está rejeitando a
22 O juízo temporal é uma intervenção corretiva ou punitiva de Deus, dentro da história humana (cf. Dt 7.1-2). O juízo eterno é proferido no julgamento de todo indivíduo, logo depois de sua morte e da humanidade, no ajuizamento diante do grande trono, depois do retorno de Cristo e ressurreição dos mortos (Lc 16.22-23; Dn 12.1-3; Ap 20.11-15).
23 Tempos depois, Assíria e a Babilônia são instrumentos do castigo divino contra Israel e Judá. No Novo Testamento, a autoridade pode agir como “ministro de Deus, vingador, para castigar o que pratica o mal” (Rm 13.4). Para Goldingay (op. cit., p. 178-179), “preferimos a ideia de um Deus amoroso e misericordioso em detrimento da ideia de um Deus severo com as pessoas. No entanto, Jesus não considera ter amor como característica definidora, incompatível com o envio de trilhões de pessoas para o inferno”.
24 KLINE, Meredith G. “Deuteronômio”. In: PFEIFFER, Charles F. Comentário bíblico Moody. São Paulo: Editora Batista regular, 2010, v. 1, Gênesis a Malaquias, p. 231.
ideia de que o universo possui uma balança moral que será zerada de forma drástica.
Isso deve alertar os que vivem neste mundo como se não houvesse juízo ou castigo divino. O momento para crença em Deus e arrependimento, para conversão é hoje. Movidos por pura graça, busquemos reconciliação com Deus, por meio de Jesus, na dependência do Espírito Santo.
Isso deve também animar os famintos e sedentos de justiça, que recitam e oram Salmos 104.35: “Desapareçam da terra os pecadores, e já não subsistam os perversos. Bendize, ó minha alma, ao SENHOR! Aleluia!”. Como Jesus promete em Mateus 5.6, os dias dos injustos e da aparente prevalência da injustiça estão contados; “os que têm fome e sede de justiça […] serão fartos”.
A passagem também refuta o pacifismo idealista. Há um sentido em que viver exige lutar.
Goldingay reflete que nossa geração parece guiada pela “convicção de que as nações deveriam ser capazes de chegar a uma união e eliminar as guerras”,25 mas isso é impossível, pois Jesus declara, em Mateus 24.6, que sempre ouviremos “falar de guerras e rumores de guerras” e, de fato, “a história recente confirma essa previsão”.26 Cristãos podem sim, ver-se inseridos em guerras. O ideal pacifista não é bíblico nem realista.
25 GOLDINGAY, op. cit., p. 177.
26 Cf. ibid., p. 178.
Mesmo que a gente não goste disso, a realidade da luta nos marca por dentro. Nós até cumprimentamos uns aos outros perguntando: “e aí, como vai a luta?” Às vezes nós temos de batalhar em várias frentes, simultaneamente. E sempre há nações guerreando contra as outras. Foi assim desde a Queda e isso não mudará até a volta de Jesus.
Ao invés de estranharmos as lutas, devemos enfrentá-las com fé e dependência de Deus, certos de sua soberania sobre cada uma delas.
O texto nos ajuda a entender que estamos inseridos na luta cristã.27 A guerra santa de Israel foi pontual, irrepetível, mas há uma guerra hoje, em outro campo de batalha, contra os nossos próprios pecados. Em vez de destruir cananeus, temos de mortificar nossas próprias falhas, como recomenda Matthew Henry:
[…] nós devemos lidar com as nossas luxúrias que estão contra a nossa alma; Deus as entregou em nossas mãos, de acordo com aquela promessa: O pecado não terá domínio sobre vós, a não ser por vossos próprios erros. Que não façamos, então alianças com pessoas iníquas, nem com o pecado. Não demonstremos tolerância ao pecado, mas mortifiquemos e crucifiquemos todo pecado, destruindo-o totalmente.28
27 NASCIMENTO, Misael Batista. A luta cristã. São Paulo: Cultura Cristã, 2022,
p. 26-27.
28 HENRY, op. cit., p. 581.
Supliquemos a Deus que nos purifique, santifique e capacite com o poder do Espírito Santo, para a luta cristã.
Finalmente, Deuteronômio nos anima a nos devotar a Deus como povo santo e escolhido. Pertencer a Deus enseja o repúdio ativo de tudo o que contraria a sua vontade, sem assinar tratados de paz com as falhas diárias. A santidade continua exigindo quebra de altares, mas agora no coração.
Seria possível essa devoção completa, neste tempo de lealdades fraturadas, de algoritmos, bolhas de opinião e telas? A ideia de se entregar inteiramente, sem concessões, desafia a fragmentação de hoje.
Quais seriam os equivalentes modernos às alianças corruptas, às uniões que conduzem à assimilação e aos altares cananeus? Que Deus nos preserve de toda distração e confusão. E nos ajude a resistir à idolatria circundante. Que sejamos distanciados de tudo o que é oposto a Deus. Que repudiemos o que contraria a Palavra de Deus. Que eliminemos tudo o que coloca nossa devoção em risco. Que o Senhor nos livre de um coração dividido.
Vamos orar sobre isso.