Uma família de discípulos de Jesus
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Três bons discernimentos sobre a Palavra de Deus [Dt 5.22-27]

22a Estas palavras falou o Senhor a toda a vossa congregação no monte, do meio do fogo, da nuvem e da escuridade, com grande voz, e nada acrescentou […].

22b […] Tendo-as escrito em duas tábuas de pedra, deu-mas a mim.

23 Sucedeu que, ouvindo a voz do meio das trevas, enquanto ardia o monte em fogo, vos achegastes a mim, todos os cabeças das vossas tribos e vossos anciãos, 24 e dissestes: Eis aqui o Senhor, nosso Deus, nos fez ver a sua glória e a sua grandeza, e ouvimos a sua voz do meio do fogo; hoje, vimos que Deus fala com o homem, e este permanece vivo. 25 Agora, pois, por que morreríamos? Pois este grande fogo nos consumiria; se ainda mais ouvíssemos a voz do Senhor, nosso Deus, morreríamos. 26 Porque quem há, de toda carne, que tenha ouvido a voz do Deus vivo falar do meio do fogo, como nós ouvimos, e permanecido vivo? 27 Chega-te, e ouve tudo o que disser o Senhor, nosso Deus; e tu nos dirás tudo o que te disser o Senhor, nosso Deus, e o ouviremos, e o cumpriremos. Deuteronômio 5.22-27.

Sermão do Pastor Misael Batista do Nascimento. Pregado na Igreja Presbiteriana de São José do Rio Preto, no culto da noite, conclusão de assembleia extraordinária, em 08/02/2026.

Introdução

Um dos livros mais populares do mundo é a Bíblia. De modo geral, as pessoas que amam livros, mesmo não sendo crentes, elogiam a Bíblia como obra literária de grande valor. Aliás, há estudiosos de fora da igreja que conhecem a Bíblia muito bem, podendo citar não apenas ensinos, mas também referências (onde determinada passagem pode ser encontrada, no Antigo ou Novo Testamentos). Apesar disso, nós corremos o risco de nos aproximar da Bíblia sem compreender adequadamente sua natureza.

Em Deuteronômio 5.22-27, Moisés prega seu segundo sermão para a nova geração de israelitas, à leste do Jordão, antes da conquista da Terra Prometida. Ele reafirma os dez mandamentos e deseja que seus ouvintes entendam algumas coisas sobre a palavra recém-recebida. O que Moisés diz nestes v. 22-27, acerca do Decálogo, é aplicável ao restante da Palavra de Deus.

Nesse ponto da história, a escrita da Bíblia está apenas começando. Demorará cerca de 1500 anos para a revelação divina ser completada e a Escritura finalizada.

Moisés é movido por uma convicção, de que:

Nós temos de pensar corretamente sobre a Palavra de Deus.

Por isso mesmo ele esclarece, desde já, que [1] a Palavra de Deus é fiel (v. 22a), [2] proposicional (v. 22b) e [3] temível (v. 23-27).

Vamos olhar junto para o primeiro ensino…

I. A Palavra de Deus é fiel

Eis o que Moisés diz no início do v. 22, sobre a Palavra de Deus:

22a Estas palavras falou o Senhor a toda a vossa congregação no monte, do meio do fogo, da nuvem e da escuridade, com grande voz, e nada acrescentou […].

A expressão “estas palavras” aponta para os dez mandamentos, mencionados nos v. 6-21.[1] Como dissemos nos sermões anteriores, Moisés reafirma “as dez palavras” da aliança (Decálogo; cf. Êx 34.28), registradas antes em Êxodo 20.1-17. O que ele diz sobre os dez mandamentos aplica-se ao restante das Escrituras, qual seja, eles provêm de Deus — “Estas palavras falou o Senhor”.

Tais palavras são dirigidas ao povo de Deus, no contexto do estabelecimento do pacto no Horebe, que é o Monte Sinai — “falou o Senhor a toda a vossa congregação no monte, do meio do fogo, da nuvem e da escuridade, com grande voz”.

Porque isso é assim, porque Deus as pronunciou, tais palavras são fiéis, dignas de toda nossa crença e confiança. Sua fidedignidade e suficiência são sublinhadas por esta sentença “e nada acrescentou.”

Nós temos de pensar corretamente sobre a Palavra de Deus. Se nós não pensarmos corretamente sobre a Palavra de Deus, podemos desconfiar dela, considerá-la meramente humana e indigna de nossa confiança.

Neste trecho de Deuteronômio, nós aprendemos, em primeiro lugar, que a Palavra de Deus é fiel.

Mas não apenas isso. Moisés afirma ainda, em segundo lugar, que…

II. A Palavra de Deus é proposicional

Pois ele declara no final do v. 22:

22b […] Tendo-as escrito em duas tábuas de pedra, deu-mas a mim.

Ao propor que a Palavra de Deus é proposicional, queremos dizer que ela é constituída de proposições escritas. Uma proposição é uma sentença que pode ser lida e estudada. Interpretada. Compreendida.

Deus não apenas proferiu sua palavra; ele fez questão de escrevê-la, como lemos: “Tendo-as escrito em duas tábuas de pedra”. Além de falar, Deus escreveu. E depois de Moisés pregar este sermão ele o escreveu de modo que hoje, 3500 anos depois, nós podemos ler e interpretar as palavras proferidas por Moisés.

Ainda que algumas passagens da Bíblia permitam diferentes interpretações e que algumas partes da Bíblia sejam mais complicadas do que outras, o ensino necessário e suficiente sobre salvação, santificação e consolação pode ser compreendido por qualquer leitor, independentemente da tradução bíblica utilizada (e aqui eu me refiro às traduções confiáveis), com o uso dos meios ordinários (o domínio da leitura e o uso de um bom dicionário) e a iluminação do Espírito Santo para entendimento espiritual.[2]

Os estudiosos reformados afirmam que esta possibilidade — de ler e entender a Bíblia — “é parte do milagre da Escritura, especialmente visto que a Escritura revela a Deus. Que ele, o infinito e eterno Deus, não está somente disposto a se revelar a nós, mas também o faz de forma clara e simples, é uma grande maravilha.”[3]

É por esta razão que tanto o judaísmo quanto o cristianismo são conhecidos como “Religiões do Livro”.

Há um sentido em que a fé cristã é oral, tem a ver com falar e ouvir (Rm 10.17). Sendo assim, louvamos a Deus por todos os investimentos em tecnologia que ajudem as pessoas a ouvir a Palavra de Deus.

No entanto, para que a fé crie raízes para as gerações seguintes, a leitura e a escrita são importantes. Isso explica porque, onde quer que o judaísmo e o cristianismo ganham corpo são criadas escolas e produzidas traduções da Bíblia. Deste modo cada geração pode ler, compreender e compartilhar a Palavra de Deus.

Ademais, reforçando o que consta no início do v. 22, a Palavra de Deus não é formulada por nós e sim dada a nós, daí a afirmação: “deu-mas a mim”.

Resumindo:

Nós temos de pensar corretamente sobre a Palavra de Deus. Se nós não pensarmos corretamente sobre a Palavra de Deus, podemos errar imaginando a fé cristã como esotérica, de orientação meramente subjetiva e mística.

A Palavra de Deus é proposicional.

E Moisés prossegue, ensinando, em terceiro lugar, que…

III. A Palavra de Deus é temível

É o que se depreende, a partir do v. 23:

23 Sucedeu que, ouvindo a voz do meio das trevas, enquanto ardia o monte em fogo, vos achegastes a mim, todos os cabeças das vossas tribos e vossos anciãos, 24 e dissestes:

Eis aqui o Senhor, nosso Deus, nos fez ver a sua glória e a sua grandeza, e ouvimos a sua voz do meio do fogo; hoje, vimos que Deus fala com o homem, e este permanece vivo.

25 Agora, pois, por que morreríamos? Pois este grande fogo nos consumiria; se ainda mais ouvíssemos a voz do Senhor, nosso Deus, morreríamos. 26 Porque quem há, de toda carne, que tenha ouvido a voz do Deus vivo falar do meio do fogo, como nós ouvimos, e permanecido vivo?

27 Chega-te, e ouve tudo o que disser o Senhor, nosso Deus; e tu nos dirás tudo o que te disser o Senhor, nosso Deus, e o ouviremos, e o cumpriremos.

Impressionados com a glória e grandeza de Deus, os “cabeças das tribos” e os “anciãos” expressam uma percepção acertada, de que o Senhor “fala com o homem, e este permanece vivo” (v. 24).

Para nós tal declaração pode aparecer até óbvia e banal, porque nossa geração pensa em Deus como uma espécie de Papai Noel de shopping, a quem nos achegamos para receber cafuné e pedir presentes. Alguns cânticos contemporâneos erram ao exagerar a dose no sentimentalismo e sugerir que estar na presença de Deus é uma delícia que pode ser desfrutada sem mediação de Cristo, como se Deus fosse um ser ordinário; como se Deus pudesse ser visto e ouvido por qualquer um, de qualquer maneira, em qualquer ocasião. Nós precisamos nos lembrar das palavras do Hino 51, que informam sobre a glória de Cristo:

Nem anjos lá do céu o podem suportar;

Perante o místico esplendor abaixam seu olhar.[4]

Nós estamos longe da experiência sensorial, psicológica e espiritual destes líderes e anciãos que se dirigem a Moisés. Falta a nós a experiência assustadora e estonteante de enxergar “nuvem” e “escuridade”, e ouvir a voz trovejante de Deus “do meio das trevas” no “monte em fogo” (v. 23). Sendo assim, para aqueles anciãos de Israel, o fato de ouvir a fala de Deus e permanecer vivo constitui graça inaudita. Pois a Palavra de Deus é temível.

E isso se desdobra na percepção seguinte, que não é contraditória e sim, complementar. Estes pastores de Israel sabem que não dão conta da revelação divina sem um mediador (v. 25-26). Séculos depois, Isaías é perturbado com a visão de Deus assentado em um trono sublime; o profeta se vê prestes a ser fulminado e é socorrido por graça purificadora de Deus (Is 6.1-7). Somente depois disso ele pode ouvir e responder à Palavra de Deus (Is 6.8).

Em Deuteronômio 5.27, o povo admite sua incapacidade e pede a Moisés que ouça o que Deus tem a dizer e depois transmita a ele, ao povo, as palavras proferidas por Deus. Para não soar terrível a Israel, a Palavra de Deus precisa ser mediada.

Nós temos de pensar corretamente sobre a Bíblia, como palavra solene e temível. Se não fizermos isso, corremos risco de imaginá-la como apenas um livro cheio de boas histórias e sugestões que não instilam temor, nem respeito.

De acordo com esta passagem de Deuteronômio, a Palavra de Deus é temível.

Dito isto, podemos começas a concluir…

Conclusão

Recapitulando que, em Deuteronômio 5.22-27, aprendemos que [1] a Palavra de Deus é fiel, [2] proposicional e [3] temível.

A Bíblia é um dos livros mais populares do mundo. Ainda assim, nem todos admitem que temos de nos aproximar dela compreendendo adequadamente sua natureza.

Nós temos de pensar corretamente sobre a Palavra de Deus. E depois de compreender o que ela é, amá-la e crer e viver com base nela.

[1] Tem de ser assim pelo que ela é, ou seja, palavra de Deus dirigida a nós. Proveniente dele. Dada na medida certa, sem necessidade de acrescentar nada, para nossa salvação, santificação e consolação.

Estas palavras de Moisés batem de frente com o liberalismo teológico. O liberalismo teológico sustenta as ideias do pós-iluminismo sustentada a partir do séc. XVIII por teólogos, filósofos e estudiosos europeus.[5] J. I. Packer[6] defende que o liberalismo teológico caracteriza-se por:

[1] Adaptação da substância da fé ao Naturalismo.

[2] Ceticismo a respeito do sobrenaturalismo e aversão em aceitar ou considerar qualquer coisa como certa simplesmente porque a Bíblia ou a igreja assim o afirma.

[3] A visão da Bíblia como registro apenas humano e passível de falha.

[4] A ideia de que Deus age [principalmente] por meio dos desenvolvimentos culturais, filosóficos, sociológicos, morais e estéticos da humanidade tendo Jesus como pioneiro e modelo religioso, em vez de salvador divino.

[5] Uma visão excessivamente otimista da capacidade da humanidade civilizada de perceber Deus e de produzir uma teologia natural.

E finalmente, [6] a negação de que a Queda trouxe culpa, impureza e impotência espiritual sobre a humanidade.

Será que entendemos o quanto esta doutrina — da Bíblia como Palavra de Deus está sendo combatida?

Hoje já quem duvide que a linguagem possa de fato transmitir verdades a respeito de coisas transcendentes. […] Encontramos hoje esse ceticismo também na comunidade cristã, pois alguns duvidam que Deus, de fato, tenha falado na Bíblia e por meio dela, comunicando à humanidade verdades a respeito de si mesmo.[7]

Onde o liberalismo foi aceito a fé cristã bíblica morreu e as pessoas foram cooptadas por liberalismo moral. Os corações e, por conseguinte, os lugares de adoração foram esvaziados da fé viva. A Bíblia passou a ser considerada na mesma categoria dos mitos e fábulas das demais religiões.

Hoje nós devemos afirmar, à uma, que cremos na Palavra de Deus que é fiel.

Nós temos de pensar corretamente sobre a Palavra de Deus. E depois de compreender o que ela é, amá-la e crer e viver com base nela.

[2] É preciso proceder assim, porque ela possui início, meio e fim. É suprarracional (está além de nossa razão em diversos aspectos), mas nunca irracional. É constituída de termos e expressões que podem ser lidas, estudadas, interpretadas.

Com a ajuda do Espírito Santo, nós podemos compreender o necessário para sermos salvos, santificados e consolados. Para “entrarmos em Canaã” e prevalecermos lá.

A geração do tempo de Moisés precisa acreditar nisso e nós também. Vale a pena ler, estudar, meditar/memorizar e praticar a Palavra de Deus.

Nós temos de pensar corretamente sobre a Palavra de Deus. E depois de compreender o que ela é, amá-la e crer e viver com base nela.

[3] Temos de fazer isso tendo-a como solene e temível. Não é sem razão que Deus fala, em Isaías 66.2:

Porque a minha mão fez todas estas coisas, e todas vieram a existir, diz o Senhor, mas o homem para quem olharei é este: o aflito e abatido de espírito e que treme da minha palavra (grifos nossos).

A NVI traduz o mesmo versículo, assim:

A este eu estimo: ao humilde e contrito de espírito, que treme diante da minha palavra.

Não dá para viver neste mundo desconsiderando a Palavra de Deus.

[4] Mas para que isso seja assim, temos de desfrutar da Palavra que chega até nós por meio de Jesus, o Mediador da aliança. Para que a Palavra não soe terrível para nós, informando-nos apenas sobre nossa culpa e condenação, Jesus tem de se colocar entre nós e a ira de Deus. Nós precisamos agora mesmo da mediação. Sem a mediação de Jesus, a Palavra só diz “você está condenado”. Com a mediação de Jesus, a Palavra diz “você é amado e está perdoado”.

Sim, os anciãos estavam certos. Quando Deus fala conosco, algo acontece. A partir de então somos instruídos, avisados e convidados. Por graça somente, nós podemos confiar em Jesus e agradecer a ele por seu papel de mediador e intercessor em nossas vidas. Por graça somente, mesmo quando a voz de Deus é temida, sua mensagem através de Jesus deve ser abraçada, pois Jesus nos oferece vida e nova direção.

Aproveitemos esta oportunidade preciosa, de reafirmar nossa fé e dedicação a Cristo. Que no discipulado de Jesus nós amemos a Palavra, creiamos na Palavra, e vivamos baseados nela.

Vamos orar sobre isso.


Notas

[1] MERRILL, Eugene H. Deuteronômio. São Paulo: Vida Nova, 2025, p. 171 (Comentário exegético).

[2] Barrett explica que a clareza da Escritura não significa que não há passagens bíblicas de difícil compreensão, ou que todos a entenderão, nem que todos estarão de acordo sobre como interpretar a Bíblia, muito menos que cada texto deva ser isolado numa ilha hermenêutica; cf. BARRETT, Matthew. Somente a Escritura. São Paulo: Cultura Cristã, 2022, p. 307-316.

[3] HANKO, Ronald. “A perspicuidade da Escritura”. In: Monergismo. Disponível em: . Acesso em: 06 fev. 2026.

[4] BIDGES, M.; THRING, G.; COSTA, J. “Hino 51 Adoração ao Cordeiro vencedor”. In: MARRA, Cláudio. (Org.). Novo cântico. 16ª ed. Reimp. 2017. São Paulo: Cultura Cristã, 2013. ePub.

[5] O Dr. Packer identifica, como proponentes do liberalismo teológico, “Schleiermacher e Ritschl em teologia, Kant e Hegel em filosofia, Strauss e Julius Wellhausen em estudos bíblicos”; cf. PACKER, J. I. “Liberalismo e conservadorismo em teologia”. In: FERGUSON, Sinclair B. (Org.). Novo dicionário de teologia. São Paulo: Hagnos, 2011. Logos software.

[6] PACKER, op. cit., loc. cit.

[7] BARRETT, op. cit., p. 317.