Uma família de discípulos de Jesus
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Vozes do Calvário [Lc 23.33-47]

33 Quando chegaram ao lugar chamado Calvário, ali o crucificaram, bem como aos malfeitores, um à direita, outro à esquerda. 34 Contudo, Jesus dizia: Pai, perdoa-lhes, porque não sabem o que fazem. Então, repartindo as vestes dele, lançaram sortes. 35 O povo estava ali e a tudo observava. Também as autoridades zombavam e diziam: Salvou os outros; a si mesmo se salve, se é, de fato, o Cristo de Deus, o escolhido. 36 Igualmente os soldados o escarneciam e, aproximando-se, trouxeram-lhe vinagre, dizendo: 37 Se tu és o rei dos judeus, salva-te a ti mesmo. 38 Também sobre ele estava esta epígrafe [em letras gregas, romanas e hebraicas]: Este é o Rei dos Judeus. 39 Um dos malfeitores crucificados blasfemava contra ele, dizendo: Não és tu o Cristo? Salva-te a ti mesmo e a nós também. 40 Respondendo-lhe, porém, o outro, repreendeu-o, dizendo: Nem ao menos temes a Deus, estando sob igual sentença? 41 Nós, na verdade, com justiça, porque recebemos o castigo que os nossos atos merecem; mas este nenhum mal fez. 42 E acrescentou: Jesus, lembra-te de mim quando vieres no teu reino. 43 Jesus lhe respondeu: Em verdade te digo que hoje estarás comigo no paraíso. 44 Já era quase a hora sexta, e, escurecendo-se o sol, houve trevas sobre toda a terra até à hora nona. 45 E rasgou-se pelo meio o véu do santuário. 46 Então, Jesus clamou em alta voz: Pai, nas tuas mãos entrego o meu espírito! E, dito isto, expirou. 47 Vendo o centurião o que tinha acontecido, deu glória a Deus, dizendo: Verdadeiramente, este homem era justo. Lucas 23.33-47.

Sermão do Reverendo Gilberto Lima Franco. Pregado na Igreja Presbiteriana de São José do Rio Preto, no culto da manhã, em 29/03/2026.

Introdução

Hoje é o primeiro dia da Semana Santa, a semana da Páscoa. Este domingo, conhecido como Domingo de Ramos, recorda o dia em que o Senhor Jesus fez sua entrada em Jerusalém. Naquela época da Páscoa, Jerusalém era lugar de grande alegria para os judeus e de preocupação para os romanos. Milhares de devotos de todo o mundo chegavam à cidade santa com o coração repleto de entusiasmo e fervor nacionalista. A população de Jerusalém quase quadruplicava.

Era costume daquele tempo o povo estender mantos e ramos pelo caminho para dar boas-vindas a um rei. Assim o povo aclamou Jesus, tanto em palavras quanto em atos, gritando: “Hosana ao Filho de Davi!” — expressão que significa “salva-nos agora”.

Naquela multidão havia pelo menos três grupos: os judeus habitantes de Jerusalém, os peregrinos vindos de outras partes do mundo e, em especial destaque, os visitantes da Galileia e aqueles que haviam testemunhado a ressurreição de Lázaro.

Esta foi a única ocasião em todo o ministério do Senhor Jesus em que ele planejou e promoveu uma manifestação pública. Até então, advertia as pessoas para que não divulgassem quem ele era e evitava situações como esta. Mas Jesus assim procedeu por dois propósitos. Primeiro, porque estava obedecendo à palavra profética de Zacarias 9.9: “Eis aí te vem o teu Rei, justo e salvador, humilde, montado em jumento”. Segundo, porque desejava provocar os governantes e líderes judaicos a agirem. Eles haviam determinado não prender Jesus durante a festa da Páscoa, mas Deus tinha outros planos: a fim de que a Escritura se cumprisse, o Cordeiro de Deus deveria ser morto na Páscoa. Assim, a provocação desencadeou a prisão, o julgamento e a morte de Jesus.

A partir deste contexto, desejamos considerar o significativo tema: Vozes do Calvário. As vozes que ecoaram naquele monte revelam diferentes posturas diante do Cristo crucificado e nos desafiam a examinar a nossa própria postura diante dele.

A primeira delas é…

I. As vozes da blasfêmia e da zombaria

Os evangelhos registram com detalhes os fatos históricos que se desenrolaram num processo de decadência, humilhação e zombaria contra o Senhor Jesus, tanto em atos quanto em palavras.

O evangelista Lucas registra, no mesmo capítulo, que Herodes tratou Jesus com desprezo e o vestiu com um manto aparatoso, ridicularizando-o (Lc 23.11). Depois de ter sido açoitado pelos soldados romanos durante a noite, vestiram-no com um manto de púrpura avermelhada. Na zombaria, confeccionaram uma coroa de espinhos e a cravaram sobre sua cabeça. Em seguida, deram-lhe um caniço como cetro e fizeram reverências irônicas, dizendo: “Salve, o rei dos judeus!” Depois, fizeram o que súdito algum jamais faria a um rei: cuspiram nele e o espancaram com o próprio cetro. Jesus recebeu toda aquela humilhação sem resistir.

Conduzido ao Calvário, ali culminou a sua execução. E a partir do v. 35, lemos a intensificação explosiva de blasfêmias, insultos e zombarias:

O povo estava ali e a tudo observava. Também as autoridades zombavam e diziam: Salvou os outros; a si mesmo se salve, se é, de fato, o Cristo de Deus, o escolhido. Igualmente os soldados o escarneciam (v. 35-36a).

O escárnio de Jesus ocorreu na presença de milhares de pessoas de diversas línguas e idiomas. Os evangelistas Mateus e Marcos destacam que, no começo da crucificação, ambos os malfeitores também proferiram insultos contra Jesus. Mas apenas um deles persistiu na zombaria, juntando-se ao coro das autoridades judaicas, dos soldados e do povo.

Jesus nunca usou o seu poder em benefício próprio. Antes, recusou tudo quanto pudesse contribuir para uma utilização egoísta de seu poder divino. Ele poderia convocar uma legião de anjos para defendê-lo, aniquilar seus acusadores e tomar vingança dos seus inimigos. Tudo isso poderia fazer, mas sua humildade prevaleceu. Conforme as palavras de Paulo: “a si mesmo se esvaziou” (Fp 2.7). Os personagens da blasfêmia exigiam justamente aquilo que Jesus se recusava a fazer.

O tormento da crucificação era extremamente doloroso, mas ainda mais terrível para o Senhor Jesus era o tormento do insulto, da blasfêmia e das injúrias. E a tragédia se aprofundava quando diziam: “Desça da cruz e creiamos nele”. Ora, durante todo o seu ministério, Jesus havia manifestado seu poder de maneira insofismável: curou enfermos, purificou leprosos, deu vista a cegos, andou sobre o mar, acalmou a tempestade, multiplicou pães e peixes — e a tudo isso rejeitaram. Que outras provas desejariam, se tantas foram dadas e rejeitadas?

Eles tinham um conceito completamente errado do Senhor Jesus. Jesus jamais buscou agradar os homens para que cressem nele. Ele salvou os outros — curou, libertou, salvou tantos quantos o buscaram. Porém, Jesus não poderia salvar-se a si mesmo e, ao mesmo tempo, nos salvar. Ele estava na cruz voluntariamente. Decidiu por esse sofrimento antes que houvesse mundo. A cruz não foi um acidente. Jesus não foi para a cruz porque Judas o traiu, nem porque os judeus o entregaram, nem porque Pilatos o condenou. Jesus foi para a cruz por amor a nós. Se descesse da cruz, estaria obedecendo aos homens e desobedecendo ao Pai. Se Jesus descesse da cruz, nós estaríamos descendo ao inferno. Mas porque ele não desceu, nós podemos subir aos céus.

Os séculos têm atestado as provas da divindade do Senhor Jesus, e ainda os zombadores de hoje pedem um sinal. A incredulidade presente faz coro com os personagens blasfemos do Calvário.

Mas além das vozes da blasfêmia e da zombaria, encontramos também…

II. As vozes do arrependimento, da fé e da confissão

Outros personagens entram aqui em cena: um dos malfeitores crucificados ao lado de Jesus e o centurião.

1. A voz do arrependimento e da fé

Como vimos, este malfeitor a princípio fez coro com o outro e com a multidão para blasfemar contra Jesus. Mas ele se arrependeu. Revelou evidências nítidas e bem definidas de arrependimento:

Nem ao menos temes a Deus, estando sob igual sentença? Nós, na verdade, com justiça, porque recebemos o castigo que os nossos atos merecem; mas este nenhum mal fez (v. 40b-41).

Ele reconheceu em Jesus aquele que poderia oferecer-lhe o que mais necessitava: o perdão dos pecados. E clamou:

Jesus, lembra-te de mim quando vieres no teu reino (v. 42).

Ele acreditou que Jesus não seria aniquilado com a morte, mas que possuía um reino celestial. Este homem foi salvo inteiramente pela graça. Não a merecia e nada podia fazer para obter a salvação, mas apropriou-se da graça de Deus para a sua vida. Ele é símbolo de todos os que se arrependem e creem em Jesus, recebendo a graça da salvação. Ele é um tipo de todo cristão.

Pessoal, direta e inquestionável foi a resposta do Senhor Jesus. O malfeitor suplica por uma bênção futura, mas Jesus responde:

Em verdade te digo que hoje estarás comigo no paraíso (v. 43).

“Paraíso”, no Antigo Testamento, designava um jardim ou floresta. No Novo Testamento, refere-se a um lugar de bem-aventurança, repouso e paz. Jesus manifesta aqui o seu ofício real, abrindo as portas do lar celestial para receber um pobre pecador.

2. A voz da confissão

Vendo o centurião o que tinha acontecido, deu glória a Deus, dizendo: Verdadeiramente, este homem era justo (v. 47).

Mateus acrescenta a variante: “Verdadeiramente, este era o Filho de Deus” (Mt 27.54). Aquele centurião, que guardava Jesus em seus últimos instantes, ficou profundamente impressionado ao ver como ele sofreu resignadamente, como um cordeiro. Viu o mundo escurecer ao redor, a terra tremer e a natureza protestar silenciosamente contra aquele ato iníquo de condenação. Diante de tudo isso, proferiu essas palavras eloquentes e comoventes.

A voz da confissão não se perdeu nas cercanias de Jerusalém. Ela ecoou por toda a Judeia, Galileia e Samaria, e ecoa até os dias de hoje. Judas, o traidor, foi o primeiro obrigado a fazê-la — ainda que de maneira condenável, tomado de remorso, clamou que havia derramado sangue inocente (Mt 27.4). Tomé, duvidando da ressurreição, fez a mesma confissão ao ver o Senhor ressurreto: “Senhor meu e Deus meu!” (Jo 20.28). Saulo, o perseguidor implacável, foi levado a confessá-lo no caminho de Damasco, quando prostrado clamou: “Quem és tu, Senhor?” e prosseguiu: “Que queres que eu faça?” (At 9.5-6).

A voz da confissão continua o seu caminho, alcançando pessoas como nós. A fogueira, a perseguição e a tortura não conseguiram fazer silenciar o evangelho, nem outrora, nem nos dias de hoje. O evangelho marcha proclamando e convocando o pecador ao arrependimento.

Mas além das vozes da blasfêmia e das vozes do arrependimento, da fé e da confissão, há uma voz no Calvário que é a mais extraordinária de todas…

III. A voz do perdão

Ela flui da primeira das sete frases de Cristo na cruz:

Contudo, Jesus dizia: Pai, perdoa-lhes, porque não sabem o que fazem (v. 34a).

Trata-se de uma oração em que o Senhor Jesus, falando ao Pai, não clama por alívio para sua dor, nem pede que a terra engula seus inimigos debochadores. Ele clama ao Pai por perdão para os seus executores.

É extraordinário pensar que alguém nas condições do Senhor Jesus — exaurido, após ter perdido tanto sangue, em extrema agonia, esgotado física, emocional e espiritualmente — não pediu nada para si. Ainda encontrou forças, do fundo da alma, para suportar todo o escárnio e interceder ao Pai por aqueles que o feriam e o faziam sofrer. É a voz do injuriado, pedindo perdão pelos injuriadores.

A ideia de perdão ao inimigo flui desde o Antigo Testamento e constitui o marco da fé cristã. Em Gênesis, encontramos o comovente episódio do encontro de José com seus irmãos, onde há a ministração do perdão. Em Provérbios 25.21, lemos a expressão que o apóstolo Paulo retomou em Romanos 12.20: “Se o teu inimigo tiver fome, dá-lhe de comer; se tiver sede, dá-lhe de beber”.

Mas o Senhor Jesus tomou esse princípio e fez dele o seu viver diário. Esse é um traço dominante do caráter do nosso Mestre e Senhor. Assim, em Mateus 6, ensinando os discípulos a orar, disse: “Perdoa-nos as nossas dívidas, assim como nós temos perdoado aos nossos devedores” (Mt 6.12). E acrescentou: “Porque, se perdoardes aos homens as suas ofensas, também vosso Pai celeste vos perdoará; se, porém, não perdoardes aos homens as suas ofensas, tampouco vosso Pai vos perdoará as vossas ofensas” (Mt 6.14-15).

Jesus não apenas colocou em prática o que havia ensinado, como também cumpriu a profecia de Isaías 53.12: “pelos transgressores intercedeu”. Seu ofício sacerdotal estava sendo demonstrado ao interceder por aqueles que o crucificavam. Tanto judeus quanto romanos não tinham ideia da enormidade dos seus pecados deliberados contra o Senhor Jesus.

A intercessão do Senhor Jesus adiou o julgamento da nação por quase quarenta anos, dando-lhes oportunidade de arrependimento e salvação, conforme a resposta do apóstolo Pedro em Atos 3.17-19: “E agora, irmãos, eu sei que o fizestes por ignorância, como também as vossas autoridades. Mas Deus assim cumpriu o que dantes anunciara pela boca de todos os profetas: que o seu Cristo havia de padecer. Arrependei-vos, pois, e convertei-vos para serem cancelados os vossos pecados”.

O Pai sempre ouve o Filho, como afirmou Jesus em João 11.42. Podemos ter plena certeza de que essa oração foi ouvida pelo Pai. Na intercessão do nosso Senhor, temos mais uma comprovação do infinito amor de Jesus pelos pecadores. Jesus chorou pela Jerusalém incrédula, ouviu a súplica do malfeitor moribundo e, mesmo na cruz, achou tempo para orar em favor dos que o maltratavam. Jesus demonstrou um amor que excede a todo entendimento — o amor de João 3.16.

Finalmente, na intercessão do nosso Senhor encontramos o notável exemplo do espírito que deve reinar no coração de todo o seu povo: a prática do perdão. Assim como Jesus, somos desafiados a pagar o mal com o bem, a compensar a maldição com a bênção. Seguindo o exemplo do nosso Senhor, devemos orar por aqueles que nos ameaçam e nos perseguem. O orgulho do nosso coração enganoso frequentemente se rebela contra essa ideia, levando-nos a sermos mais inclinados à vingança.

Estêvão, um dos primeiros diáconos da igreja, nos instantes de sua morte, replicou aquilo que Jesus vivenciou. A Palavra de Deus registra em Atos 7.59-60: “E apedrejavam a Estêvão, que invocava e dizia: Senhor Jesus, recebe o meu espírito! Então, ajoelhando-se, clamou em alta voz: Senhor, não lhes imputes este pecado! Com estas palavras, adormeceu”.

Em nossos dias, quantos missionários pelo mundo afora estão sendo presos e esbofeteados — e, à semelhança do Senhor Jesus, procedem orando e clamando por perdão a favor de seus executores. Nós somos chamados a viver isso. O cristão que ora pelos seus inimigos manifesta a mentalidade que havia em Cristo e será abençoado.

Perdão para todos é o pedido do Senhor Jesus: para os soldados, se o quisessem; para Pilatos, se o pedisse; para os religiosos, se reconhecessem a sua pecaminosidade; para a multidão, se o desejasse. A oração do Senhor Jesus expressa um profundo amor e pede a Deus perdão pelos malfeitores.

O amor nos leva a perdoar. O perdão tem mão dupla: cura quem perdoa e quem se sente perdoado. Jesus subiu àquela cruz e perdoou, para testemunhar e cumprir o propósito do seu ensino sobre o perdão.

Conclusão

Ao descortinarmos esta semana da Páscoa, consideremos cuidadosamente estas vozes do Calvário.

[1] As vozes da blasfêmia e da zombaria, que desonraram a divindade do Senhor Jesus, Criador do universo. Essa voz continua a ecoar nos dias de hoje por meio de palavras, lábios, incredulidade e atitudes que procedem de modo semelhante aos blasfemadores do Calvário.

[2] As vozes do arrependimento, da fé e da confissão. Devemos ter cuidado com o arrependimento sem evidências. O malfeitor na última hora foi salvo, mas porque genuinamente se arrependeu. A voz da confissão do centurião é uma voz que deve fluir de cada coração, reconhecendo a Jesus e declarando, como ele: “Verdadeiramente, este era o Filho de Deus”.

[3] A voz do perdão. Através dos milênios, o ser humano construiu muitos altares e neles ofereceu sacrifícios em busca de absolver-se de seus pecados. Todavia, um só altar foi escolhido por Deus: o lugar conhecido como Gólgota, onde o Cordeiro de Deus entregou-se a si mesmo como sacrifício de uma vez para sempre. A voz do perdão de Jesus continua oferecendo perdão, salvação e vida eterna a todo aquele que nele crer.

A crucificação de Cristo ocorreu por causa do nosso pecado. Se não fosse o nosso pecado, Jesus não teria que morrer na cruz. E a primeira palavra que ele pronunciou naquele madeiro foi justamente a palavra do perdão. Nós somos chamados a recebê-lo e a vivê-lo, amando até mesmo os nossos inimigos.