Uma família de discípulos de Jesus
Capa sermões em Deuteronômio 1024x1024

A palavra regula a vida [Dt 4.44-49]

44 Esta é a lei que Moisés propôs aos filhos de Israel. 45 São estes os testemunhos, e os estatutos, e os juízos que Moisés falou aos filhos de Israel, quando saíram do Egito, 46 além do Jordão, no vale defronte de Bete-Peor, na terra de Seom, rei dos amorreus, que habitava em Hesbom, a quem Moisés e os filhos de Israel feriram ao saírem do Egito, 47 e tomaram a sua terra em possessão, como também a terra de Ogue, rei de Basã, dois reis dos amorreus, que estavam além do Jordão, do lado do nascimento do sol; 48 desde Aroer, que está à borda do vale de Arnom, até ao monte Siom, que é Hermom, 49 e toda a Arabá, além do Jordão, do lado oriental, até ao mar da Arabá, pelas faldas de Pisga. Deuteronômio 4.44-49.

Sermão do Pastor Misael Batista do Nascimento. Pregado na Igreja Presbiteriana de São José do Rio Preto, no culto da noite, em 11/01/2026.

Introdução

Depois de 17 semanas e 21 encontros aprendendo sobre o primeiro sermão de Moisés em Deuteronômio, temos de parar para avaliar onde estamos e para onde vamos.

Nós passamos rapidamente pela introdução geral (Dt 1.1-5) e avançamos para o primeiro sermão de Moisés, que inicia em Deuteronômio 1.6 e prossegue até 4.40. Como vimos, o primeiro sermão contém uma revisão histórica concluída com uma exortação para que os israelitas caminhem com Deus, em devoção sincera.

Esta parte é seguida por um interlúdio, uma transição que inicia em 4.41 e termina em 4.49.

A primeira parte desta transição aborda o tema das cidades de refúgio, analisado no sermão anterior. Estamos agora na parte final da transição entre o primeiro e o segundo sermões de Moisés (Dt 4.44-49).

Este trecho oferece um cenário e uma introdução ao segundo sermão, que trata dos princípios e estipulações da aliança, começa em Deuteronômio 5.1 e prossegue até 26.19.

Resumindo, caminhamos bem até aqui e temos um bom, desafiador e, espero eu, agradável caminho pela frente.

Depois de destacar que Deus governa não apenas sobre a esfera religiosa, mas também sobre a vida civil (Dt 4.41-43), Moisés nos ajuda a entender que:

A partir das primeiras conquistas em Canaã, a palavra de Deus deve regular a vida.

Na passagem que lemos, notemos, primeiro, que [1] Deus equipa Israel com a palavra (v. 44-45). Além disso, [2] a palavra é dada quando Israel começa a vencer (v. 46-47). E [3] a obediência de Israel à palavra assegura boa terra (v. 48-49).

É assim que o texto inicia. Em primeiro lugar…

I. Deus equipa Israel com a palavra

Como lemos nos v. 44-45:

44 Esta é a lei que Moisés propôs aos filhos de Israel. 45 São estes os testemunhos, e os estatutos, e os juízos que Moisés falou aos filhos de Israel, quando saíram do Egito.

No v. 44 consta que Moisés “propôs” (hebr. śym; pron, syn-yudmem; “colocou”; “instalou”; “estabeleceu”; NAA e NVI: “apresentou”). No v. 45, Moisés “falou” (hebr. dbr; pron. dibe-r; “declarou”; NVI: “promulgou”) a palavra de Deus. Estas ações informam sobre Deus equipando Israel com a palavra.

Os termos usados para descrever a palavra são dignos de nota, pois o v. 44 inicia com “a lei” traduzindo a tô·rā(h), evocando a ideia de totalidade do “corpo da literatura mosaica, isto é, o Pentateuco”.[1]

O v. 45 traz vocábulos técnicos, vinculados a tratados de aliança: “Testemunhos” (ʿē·û; NVI: “mandamentos”; TEB: “exigências”) aponta para “detalhes dos requisitos da aliança”.[2]

A dupla “estatutos” (ḥǔq·qîmʹ; NVI: “decretos”; TEB: “leis”) e “juízos” (miš·pā·îmʹ; NVI: “ordenanças”; TEB: “costumes”) identifica estipulações contratuais,[3] como explicamos no sermão sobre Deuteronômio 4.1-8.

Resumindo, Deus equipa Israel não apenas com recursos materiais e militares. Mais do que isso ele concede um pacote de recursos motivadores, orientadores e transformadores — sua palavra em diferentes configurações. Isso tem de ser assim porque:

A partir das primeiras conquistas em Canaã, a palavra de Deus deve regular a vida.

Daí este primeiro ponto. Deus equipa Israel com a palavra.

Em segundo lugar, notemos que…

II. A palavra é dada a Israel que começa a vencer

E podemos conferir isso nos v. 46-47:

46 Além do Jordão, no vale defronte de Bete-Peor, na terra de Seom, rei dos amorreus, que habitava em Hesbom, a quem Moisés e os filhos de Israel feriram ao saírem do Egito, 47 e tomaram a sua terra em possessão, como também a terra de Ogue, rei de Basã, dois reis dos amorreus, que estavam além do Jordão, do lado do nascimento do sol.

Moisés menciona os dois reis amorreus fortemente armados, ferozes e gigantescos, vencidos pela nova geração de israelitas (cf. 2.26—3.11). Deus acompanhou seu povo nas batalhas. Deus lutou por seu povo. Os reis inimigos foram vencidos e a terra deles conquistada e distribuída. É a esta geração que começa a vencer, que Deus dá a sua palavra. Isso não é acidental. Pelo contrário, cumpre um propósito. Como temos dito:

A partir das primeiras conquistas em Canaã, a palavra de Deus deve regular a vida. E a palavra deve regular a vida para assegurar continuidade nos triunfos.

Ora, a geração anterior foi envergonhada em batalha, nada conquistou da terra e desperdiçou a própria vida exatamente porque não creu, nem obedeceu à palavra de Deus (Dt 1.26-46). Não foi sem razão que Moisés concluiu seu primeiro sermão em Deuteronômio enfatizando, além dos feitos, os preceitos de Deus e convocando os novos crentes a admirar a singularidade do Senhor e a devotar-se a ele de todo coração (Dt 4.1-40).

A palavra é dada a Israel que começa a vencer.

E isso se entrelaça com o que vem a seguir, ou seja, em terceiro lugar…

III. A obediência à palavra assegura boa terra à Israel

É o que consta nos v. 48-49:

48 Desde Aroer, que está à borda do vale de Arnom, até ao monte Siom,[4] que é Hermom, 49 e toda a Arabá, além do Jordão, do lado oriental, até ao mar da Arabá, pelas faldas de Pisga.

A finalidade destes versos é ratificar a ideia de que os novos israelitas conquistaram terra boa e ampla para suprir as necessidades das tribos de Rúben, Gade e meia tribo de Manassés (Dt 3.12-17).

Isso deveria, primeiro, instilar neles gratidão a Deus, pois foi o Senhor quem deu as terras a eles (Dt 3.18). Segundo, motivá-los a prosseguir com a conquista, visando as terras a oeste do Jordão (Dt 3.20). Para isso, eles tinham de prestar atenção na palavra atualizada de Deus — “a lei”, “os testemunhos”, “os estatutos, e os juízos” encaminhados por Deus na “proposta” e “fala” de Moisés (v. 44,45).

O princípio aqui não é complicado: A partir das primeiras conquistas em Canaã, a palavra de Deus deve regular a vida. Porque a nova geração creu e obedeceu, Deus a conduziu em triunfo. Mas para continuar vencendo, era preciso prosseguir acreditando e correspondendo aos termos da aliança escrita na palavra de Deus.

A obediência à palavra assegura boa terra à Israel.

Começando a concluir…

Conclusão

Recapitulemos afirmando que em Deuteronômio 4.44-49, [1] Deus equipa Israel com a palavra. [2] A palavra é dada quando Israel começa a vencer. E [3] a obediência de Israel à palavra assegura [um início de desfrute da] boa terra. Mas o que Deuteronômio 4.44-49 tem a ver conosco?

Prezado leitor, a palavra de Deus deve regular nossa vida também.

Nesta transição crucial de Deuteronômio, Deus equipa seu povo. Ele nos concede sua palavra hoje, dando-nos não apenas ordens, mas os recursos necessários para a vida. A Palavra é dada no momento em que as vitórias começam, para que o sucesso não nos suba à cabeça, mas nos mantenhamos focados nele. A obediência à Palavra é o que garante o desfrute da boa terra, transformando conquistas temporárias em herança permanente.

[1] Prestemos atenção: Nós temos de avaliar nosso equipamento. No dia a dia, será que temos buscado na Palavra os “testemunhos, estatutos e juízos” para guiar nossas decisões? Deus já nos deu o “pacote de recursos”. O desafio para nós é usá-lo. Precisamos parar de tentar lutar as batalhas confiados em nossa própria pretensa sabedoria. Deixemos que a Bíblia regule nossa vida — planos, finanças e escolhas —, desde agora e para sempre.

[2] Ademais, tenhamos cuidado com as primeiras vitórias. Talvez vivamos um tempo de conquistas — quem sabe um novo emprego, uma porta aberta, um problema resolvido. Lembremo-nos de Israel: a Palavra veio quando eles começaram a vencer Seom e Ogue. O momento do triunfo é o momento mais perigoso para negligenciar a Deus. Não deixemos que a bênção nos afaste do abençoador.

[3] É vital para nós que escolhamos a perseverança, não apenas a conquista. A geração anterior conquistou liberdade por pouco tempo depois da saída do Egito, mas morreu no deserto porque não creu na Palavra. A nova geração está sendo chamada a algo maior: possuir a terra e nela permanecer. A obediência é o que separa o desfrute de benefícios por um breve tempo da vida cristã frutífera e com propósito.

[4] Finalmente, para que a palavra regule a vida, Cristo deve habitar e nós. Como lemos em João 15.4-5:

4 Permanecei em mim, e eu permanecerei em vós. Como não pode o ramo produzir fruto de si mesmo, se não permanecer na videira, assim, nem vós o podeis dar, se não permanecerdes em mim. 5 Eu sou a videira, vós, os ramos. Quem permanece em mim, e eu, nele, esse dá muito fruto; porque sem mim nada podeis fazer (grifo nosso).

Sem Jesus nós não conseguimos viver segundo a Palavra. Aliás — e esta é a boa notícia — Jesus é o Verbo, ele próprio é a Palavra encarnada que reconfigura nossa fé e vida. Não deixemos de invocá-lo hoje mesmo. Não tenhamos vergonha de nos identificar como discípulos de Jesus, como cristãos!

Saiba você que a Palavra de Deus não é um fardo para carregar, é o mapa para nos guiar e a força para nos sustentar. Ela regula a vida porque Deus deseja que você não apenas chegue ao destino, mas que saiba viver nele. A diferença entre o deserto que consome e a Canaã que floresce não está no tamanho dos gigantes que você enfrenta, mas na sua fidelidade à Palavra que o equipa. Não apenas ouça a Lei; deixe que ela governe o seu coração. Quando a Palavra regula a vida, a vitória deixa de ser um evento e passa a ser nosso endereço permanente.

Vamos orar sobre isso.


Notas

[1] MERRILL, Eugene H. Deuteronômio. São Paulo: Vida Nova, 2025, p. 143 (Comentário exegético).

[2] MERRILL, op. cit., p. 144.

[3] Ibid., loc. cit.

[4] A Bíblia de Genebra informa que “o nome ‘Siom’ não é atestado e nenhuma outra passagem”; cf. A BÍBLIA DE ESTUDO DE GENEBRA. 3ª ed. [BEG3]. São Paulo: Barueri: Cultura Cristã; Sociedade Bíblica do Brasil, 2023, p. 308. Craigie traduz como “Siriom”, o nome sidônio (fenício) do monte Hermom (Dt 3.9). Ele sugere que, no texto original, “leitura seria, provavelmente, śrn” e “que a base para a leitura inicial errada provavelmente seria que śryn não era uma palavra hebraica, mas proveniente de um dialeto cananita, o sidônio”; cf. CRAIGIE, P. C. Deuteronômio. São Paulo: Cultura Cristã, 2013, p. 144 (Comentários do Antigo Testamento).