32 Agora, pois, pergunta aos tempos passados, que te precederam, desde o dia em que Deus criou o homem sobre a terra, desde uma extremidade do céu até à outra, se sucedeu jamais coisa tamanha como esta ou se se ouviu coisa como esta; 33 ou se algum povo ouviu falar a voz de algum deus do meio do fogo, como tu a ouviste, ficando vivo; 34 ou se um deus intentou ir tomar para si um povo do meio de outro povo, com provas, e com sinais, e com milagres, e com peleja, e com mão poderosa, e com braço estendido, e com grandes espantos, segundo tudo quanto o Senhor, vosso Deus, vos fez no Egito, aos vossos olhos. 35 A ti te foi mostrado para que soubesses que o Senhor é Deus; nenhum outro há, senão ele. 36 Dos céus te fez ouvir a sua voz, para te ensinar, e sobre a terra te mostrou o seu grande fogo, e do meio do fogo ouviste as suas palavras. 37 Porquanto amou teus pais, e escolheu a sua descendência depois deles, e te tirou do Egito, ele mesmo presente e com a sua grande força, 38 para lançar de diante de ti nações maiores e mais poderosas do que tu, para te introduzir na sua terra e ta dar por herança, como hoje se vê. 39 Por isso, hoje, saberás e refletirás no teu coração que só o Senhor é Deus em cima no céu e embaixo na terra; nenhum outro há. 40 Guarda, pois, os seus estatutos e os seus mandamentos que te ordeno hoje, para que te vá bem a ti e a teus filhos depois de ti e para que prolongues os dias na terra que o Senhor, teu Deus, te dá para todo o sempre. Deuteronômio 4.32-40.
Sermão do Pastor Misael Batista do Nascimento. Pregado na Igreja Presbiteriana de São José do Rio Preto, no culto da noite, em 04/01/2026.
Introdução
Se você pudesse viajar no tempo, voltando até o dia em que o primeiro homem pisou na terra, ou se pudesse percorrer o universo de uma extremidade à outra do céu, o que você esperaria encontrar?
Moisés faz exatamente esse desafio ao povo de Israel em Deuteronômio 4.32. Ele não está apenas fazendo uma pergunta retórica; ele está lançando um desafio investigativo: “Houve jamais algo tão grandioso como isso?”. Ele quer que o povo olhe para a história e para o horizonte e perceba que eles não estão lidando com uma divindade comum, mas com um Deus que é absolutamente singular.
Moisés destaca que nenhum outro povo jamais ouviu a voz de Deus falando do meio do fogo e permaneceu vivo. Nenhum outro “deus” jamais ousou arrancar uma nação de dentro de outra com mão poderosa e braço estendido. A singularidade de Deus não é apenas um conceito teológico abstrato; é uma realidade baseada em fatos que o povo viu com os próprios olhos.
Por que isso é tão importante para nós hoje? Porque a singularidade de Deus é o que dá base à nossa salvação, santificação e consolação. Se Deus é único, ele não pode ser apenas mais uma prioridade em nossa lista. Ele deve ser o centro absoluto de nossas vidas. Como celebramos na Epifania, essa singularidade de Deus se manifestou plenamente em Jesus Cristo, que nos resgatou não apenas do Egito, mas das garras do pecado e de Satanás.
Imagine que você está em uma galeria repleta de cópias e esboços, mas, de repente, se depara com a obra original e autêntica do mestre. Toda a sua atenção é capturada; as cópias perdem o brilho. Estudar a singularidade de Deus é como deixar de olhar para as cópias sem vida deste mundo para contemplar o único e verdadeiro Autor da vida.
Nesta mensagem, baseados no texto de Deuteronômio 4.32-40, refletimos sobre por que o Senhor é incomparável, observando três verdades fundamentais: [1] O agir de Deus é único: seus feitos na história não têm paralelo (v. 32-34). [2] O ser de Deus é único: sua natureza, seu amor e sua eleição nos revelam quem ele é (v. 35-38). [3] A devoção a Deus deve ser única: se ele é o único Deus em cima no céu e embaixo na terra, nossa resposta a ele deve ser de entrega total e exclusiva (v. 39-40).
Vamos descobrir como essa visão de um Deus singular pode transformar nossa maneira de pensar e de viver.
Em primeiro lugar, Moisés afirma que…
I. O agir de Deus é único
Ou seja, seus feitos na história não têm paralelo.
O coração de Moisés se eleva quando medita sobre a ação de Deus no resgate de Israel do Egito. Empolgadíssimo, Moisés pergunta retoricamente “se sucedeu jamais coisa tamanha como esta ou se se ouviu coisa como esta” (v. 32). Como explica Craigie:
A questão não tem limites cronológicos: Pergunte agora “desde o dia em que Deus criou o homem sobre a terra”. Também não há limites geográficos: “desde uma extremidade do céu até a outra.”[1]
A resposta óbvia à pergunta de Moisés é “nunca aconteceu algo assim, com nenhum povo; a voz de Deus nunca foi ouvida assim, por nenhum povo”. Deus falou a Israel do meio do fogo — de modo grandioso e assombroso —, mas o povo não morreu (v. 33). Deus decidiu tomar Israel para si, arrancando os israelitas das garras do Egito e fez isso “com provas, e com sinais, e com milagres, e com peleja, e com mão poderosa, e com braço estendido, e com grandes espantos” (v. 34a). Deus agiu valorosamente no Egito, diante dos olhos do povo de Israel — “segundo tudo quanto o Senhor, vosso Deus, vos fez no Egito, aos vossos olhos” (v. 34b).
Os pretensos outros deuses não conseguem fazer isso, pois não passam de ídolos. Não há Deus que realize grandes e portentosos feitos, como o Deus de Israel.
As obras e o ser de Deus são singulares (diferenciados e únicos).
Moisés entende que o agir de Deus é único.
Isso é assim porque, de acordo com Moisés, em segundo lugar…
II. O ser de Deus é único
Sua natureza, seu amor e sua eleição nos revelam quem ele é. É o que se destaca a partir do v. 35. Deus agiu deste modo para revelar-se como Deus singular. “A ti te foi mostrado para que soubesses que o Senhor é Deus; nenhum outro há, senão ele”. Deus quer que Israel saiba disso: Ele é único. Não há outros deuses. Somente o Senhor é Deus.
Ele é Deus que deseja se dar a conhecer — se revelar —; Deus que deseja que aprendamos dele: “Dos céus te fez ouvir a sua voz, para te ensinar, e sobre a terra te mostrou o seu grande fogo, e do meio do fogo ouviste as suas palavras” (v. 36).
Ele é Deus que ama, que escolhe (elege), que liberta, que caminha com seu povo demonstrando grande força: “Porquanto amou teus pais, e escolheu a sua descendência depois deles, e te tirou do Egito, ele mesmo presente e com a sua grande força” (v. 37).
Ele faz tudo isso para assegurar a seu povo [1] triunfo e [2] herança: “para lançar de diante de ti nações maiores e mais poderosas do que tu, para te introduzir na sua terra e ta dar por herança, como hoje se vê” (v. 38).
As obras e o ser de Deus são singulares (diferenciados e únicos). Isso importa porque é do agir de Deus e do ser de Deus que defluem nossa salvação, santificação e consolação. Nosso senso de valor e identidade, nosso lugar e missão no mundo.
Moisés entende que o ser de Deus é único.
Por conta destas constatações, Moisés insiste em que…
III. A devoção a Deus deve ser única
Pois se ele é o único Deus em cima no céu e embaixo na terra, nossa resposta a ele deve ser de entrega total e exclusiva. E devoção começa com o ato de pensar biblicamente, a fim de estabelecer um centro na alma. Exercitar a mente a mover-se em torno deste eixo, enunciado no v. 39: “Por isso, hoje, saberás e refletirás no teu coração que só o Senhor é Deus em cima no céu e embaixo na terra; nenhum outro há”. É preciso saber disso. É preciso refletir sobre isso.
Moisés nos convoca a uma devoção teocêntrica. Nossos problemas deixam de ser o centro. Nossas preocupações saem do centro. Nós mesmos, ou seja, nossos amores, sonhos e desejos, tudo isso é retirado do centro. As outras devoções saem do centro e se subordinam, todas elas, ao novo centro. Todas as coisas agora funcionam a partir do monoteísmo da aliança: “[…] só o Senhor é Deus em cima no céu e embaixo na terra; nenhum outro há” (v. 39b).
É a maneira de Moisés de afirmar o que Jesus atualiza na oração-padrão: “Pai nosso, que estás nos céus, santificado seja o teu nome; venha o teu reino; faça-se a tua vontade, assim na terra como no céu” (Mt 6.9-10).
A vida é formatada a partir deste novo centro da alma, nos termos do v. 40:
Guarda, pois, os seus estatutos e os seus mandamentos que te ordeno hoje, para que te vá bem a ti e a teus filhos depois de ti e para que prolongues os dias na terra que o Senhor, teu Deus, te dá para todo o sempre.
A vida com Deus nos termos da aliança é vida. Nossa vida precisa de mais vida. A vida viva é a da aliança, desenhada nos “estatutos” e “mandamentos” que Deus dá para nosso bem — “para que te vá bem”. Para que nossos filhos se deem bem — “e a teus filhos depois de ti”. Para que tenhamos vida aqui e agora, preparando-nos para a culminação desta vida lá e depois — “para que prolongues os dias na terra que o Senhor, teu Deus, te dá para todo o sempre”.
Não nos esqueçamos. As obras de Deus são especiais demais. Deus é singular, excepcional, maravilhoso demais. Por isso mesmo, temos de responder a ele crendo, ouvindo e obedecendo, pensando e vivendo neste mundo nos termos dele, porque, afinal de contas, ele é rei no andar de cima, nos céus e aqui, no andar debaixo, na terra e em nós: “só o Senhor é Deus em cima no céu e embaixo na terra; nenhum outro há” (v. 39).
A devoção ao Deus único, de acordo com Moisés, deve ser diferenciada, total, única.
É assim que Moisés prossegue para o final de seu primeiro sermão, registrado neste livro de Deuteronômio.
Conclusão
Entendendo que aqui Moisés afirma que [1] o agir de Deus é único; [2] o ser de Deus é único e [3] a devoção a Deus deve ser única…
[1] Nós deveríamos atualizar o exercício proposto por Moisés nos v. 32-34, com o devido enquadramento do calendário litúrgico cristão, pois hoje celebramos a Epifania do Senhor, a ocasião em que os magos se prostraram diante de Jesus e dedicaram a ele seus presentes — ouro, incenso e mirra (Mt 2.11).
Por conta disso, hoje nos lembramos de que Cristo veio ao mundo. Dedicou sua vida a fazer o bem. Morreu por nossos pecados. Ressuscitou para nossa redenção eterna. Subiu aos céus. Assentou-se à direita de Deus Pai e junto com ele, enviou o Espírito Santo. Intercede por nós como Sacerdote celestial e voltará para julgar os vivos e os mortos.
Entendamos que, por meio de Jesus, Deus nos arranca das garras de Satanás e do pecado, no poder do Espírito Santo, “com provas, e com sinais, e com milagres, e com peleja, e com mão poderosa, e com braço estendido, e com grandes espantos” (v. 34a).
Saibamos que, por meio de Jesus, Deus fala conosco hoje não a partir do fogo e sim na palavra que convida, em Mateus 11.28-30:
28 Vinde a mim, todos os que estais cansados e sobrecarregados, e eu vos aliviarei. 29 Tomai sobre vós o meu jugo e aprendei de mim, porque sou manso e humilde de coração; e achareis descanso para a vossa alma. 30 Porque o meu jugo é suave, e o meu fardo é leve.
Guardemos no coração que, em Jesus, Deus nos ama. Deus nos escolhe. Deus nos liberta. Deus caminha conosco demonstrando grande força. E Deus nos assegura herança.
Sendo assim, prestemos atenção na pergunta retórica de Deuteronômio 4.32-33, como lemos na Tradução Ecumênica da Bíblia:
Interroga, pois, os dias do princípio, anteriores a ti, desde o dia em que Deus criou a humanidade sobre a terra, interroga de lado a outro do universo: algo tão grandioso aconteceu? Ouviu-se falar de algo semelhante? Aconteceu a algum povo escutar, como tu, a voz de Deus falando […] e permanecer vivo?
Os pretensos outros deuses não conseguem fazer isso. Eles não passam de ídolos. Não há Deus que realize grandes e portentosos feitos como o Deus de Israel, por meio de Jesus.
Ora, a este Deus, vamos nos devotar com todas as nossas forças! A ele vamos nos dar de corpo e alma. E nos comprometer com a nova aliança. Receber vida e assumir compromisso de guardar suas instruções. Como gente dele, que se senta com ele à mesa. Para o nosso bem. Para o bem de nossos filhos e netos. Para viver bem nesta terra que o Senhor, nosso Deus, nos dá para todo o sempre.
Vamos orar sobre isso.
Notas
[1] CRAIGIE, P. C. Deuteronômio. São Paulo: Cultura Cristã, 2013, p. 139 (Comentários do Antigo Testamento).