7 Mas o que, para mim, era lucro, isto considerei perda por causa de Cristo. 8 Sim, deveras considero tudo como perda, por causa da sublimidade do conhecimento de Cristo Jesus, meu Senhor; por amor do qual perdi todas as coisas e as considero como refugo, para ganhar a Cristo 9 e ser achado nele, não tendo justiça própria, que procede de lei, senão a que é mediante a fé em Cristo, a justiça que procede de Deus, baseada na fé; 10 para o conhecer, e o poder da sua ressurreição, e a comunhão dos seus sofrimentos, conformando-me com ele na sua morte; 11 para, de algum modo, alcançar a ressurreição dentre os mortos. Filipenses 3.7-11.
Sermão do Rev. Guilherme Iamarino. Pregado na Igreja Presbiteriana de São José do Rio Preto, no culto da manhã, em 22/03/2026.
Introdução
T. S. Eliot, em seu célebre poema Os homens ocos, descreve a condição de pessoas que têm forma, mas não têm substância; que têm voz, mas não têm vigor; que se movimentam, mas aparentemente não andam em nenhuma direção. São gente funcional, que trabalha, que fala, que opina, mas que por dentro está vazia — empalhada.
C. S. Lewis, com a precisão de quem diagnostica uma fratura exposta na alma moderna, chama esse tipo de gente de “homens sem peito”. Em A abolição do homem, Lewis argumenta que a modernidade quer atingir diversos tipos de progresso na humanidade, mas acaba gerando homens castrados: desprezamos a moralidade e a virtude, e depois exigimos uns dos outros os mesmos comportamentos absolutos. Queremos criatividade, coragem, propósito e paixão, mas desprezamos tudo aquilo que sustenta essas coisas.
Esse diagnóstico conecta-se com a nossa geração atual. Somos uma geração com olhos distantes — não exatamente por desinteresse ou rebeldia, mas como se olhássemos para o mundo e para tudo o que ele alcançou e pensássemos: “Era isso mesmo? Era só isso?”. Uma geração inteira que tem informações em todos os lugares, grandes possibilidades, discursos e promessas, mas que possui uma dificuldade enorme de enxergar o que é o sonho verdadeiro. Talvez não nos falte inteligência ou senso crítico, mas sim um sonho pelo qual valha a pena viver.
Com o que você sonha? Qual é o sonho pelo qual vale a pena viver?
Em Filipenses 3.7-11, o apóstolo Paulo revela o sonho mais profundo do coração de um homem que foi totalmente transformado pela graça, pela realidade da ressurreição, pela redenção em Cristo Jesus. Aquele que antes era um homem vazio — assassino, legalista, do partido dos fariseus — mas que foi virado do avesso e encontrou uma forma de realmente sonhar de verdade.
Trata-se do sublime sonho por Cristo, o sonho cristão que enche o peito de vida. A exposição do texto nos mostra que:
[1] Esse sonho começa com o desejo pelo sublime conhecimento de Cristo Jesus (v. 7-8).
[2] Esse sonho passa por uma identidade recebida, não fabricada (v. 9).
[3] Esse sonho culmina com a esperança da ressurreição com Cristo (v. 10-11).
Vejamos, em primeiro lugar…
I. O desejo pelo sublime conhecimento de Cristo Jesus
Nos versículos 7 e 8, o apóstolo Paulo apresenta uma ideia central:
Mas o que, para mim, era lucro, isto considerei perda por causa de Cristo. Sim, deveras considero tudo como perda, por causa da sublimidade do conhecimento de Cristo Jesus, meu Senhor; por amor do qual perdi todas as coisas e as considero como refugo, para ganhar a Cristo (v. 7-8).
Quando o sonho é pelo sublime conhecimento de Cristo, todo o resto do mundo se transforma em algo oco — e é o coração que fica cheio.
Paulo está apresentando uma inversão contábil radical: o que antes entrava na coluna do ganho e da vantagem, agora entra na coluna da perda. Não se trata de várias perdas consecutivas, mas de um prejuízo colossal deliberado. A vantagem que ele tinha como mestre, como romano, como cidadão importante, pode virar um obstáculo — um degrau que vira tropeço, um peso que deve ser lançado ao mar para salvar a vida.
Se lemos os versículos anteriores (v. 4-6), encontramos os antecedentes do apóstolo: circuncidado ao oitavo dia, da linhagem de Israel, da tribo de Benjamim, hebreu de hebreus, fariseu quanto à lei, irrepreensível quanto à justiça legal. Todos esses estudos, diplomas e construções, Paulo os considera perda se não tiverem o preenchimento de Cristo Jesus. Onde há uma falsa estima nas coisas, Cristo não é conhecido.
Paulo atribui o conhecimento de Cristo como aquilo que o livra de um naufrágio existencial. Da mesma forma que os marinheiros muitas vezes têm de lançar pesos ao mar para preservar o barco, Paulo joga fora tudo o que não é Cristo — e está preparado a perder tudo o que possuía antes, do que ser privado de Cristo Jesus.
João Calvino traz uma lâmina cortante ao comentar esta passagem: Paulo se despojou não de suas obras, mas daquela equivocada confiança depositada nas obras com que se ensoberbecia. Quando tratamos da justiça da fé, não contendemos contra a substância das obras, e sim contra aquela qualidade com que os sofistas as investem, visto que afirmam que os homens são justificados por elas.[1]
Corações ocos são constantemente soberbos em suas realizações, na própria inteligência, em suas posições e cargos. São apegados a tudo em que conseguem colocar alguma espuma, empalhando todas as coisas — seja um prédio, uma tradição ou um passado. Homens sem peito falam de si mesmos como se estivessem acima de todos; diminuem e desprezam os outros; temem o futuro e as novidades; atribuem peso apenas ao que querem que seja pesado. No fundo, é gente oca: bonita por fora, mas vazia por dentro.
Onde quer que vejamos uma falsa estima da excelência pessoal, precisamos reconhecer que ali Cristo não é conhecido. Quando, porém, Cristo se manifesta, todas as glórias antigas se desvanecem e diminuem de valor. Sonho que não passa por Cristo Jesus vira uma tentativa de autojustificação disfarçada — é a pessoa tentando se salvar pelo currículo, pelo histórico, pela moral, pelo desempenho, pela tribo, pela estética ou pela própria experiência religiosa.
É por isso que Paulo afirma nesse trecho que tudo considera como refugo. Não é que o resto seja apenas um objeto de decoração inofensivo. É uma expressão intensa: tudo o que fazemos com as próprias obras será esterco; todo grito da nossa voz será oco; toda ação será fútil; todo desejo é vento, efêmero, vaidade. Sem o conhecimento de Cristo, nada é verdadeiramente alguma coisa. Sem Cristo como sublime, somos apenas mais um homem sem peito, mais alguém oco.
Da mesma forma que o nascer do sol apaga todas as estrelas, a comunhão com Cristo Jesus, o nosso Senhor, eclipsa o brilho de todas as coisas. A sublimidade do conhecimento de Cristo Jesus é que ele é o sentido pleno e único da história; é o único plenamente suficiente e plenamente seguro. Toda a nossa satisfação está em Jesus Cristo — e se ele nos dá satisfação, segurança e sentido, todo o resto perde a cor.
Em segundo lugar…
II. Uma identidade recebida, não fabricada
Paulo não termina com a perda contábil. Ele chega a um grande porto seguro do evangelho no versículo 9:
E ser achado nele, não tendo justiça própria, que procede de lei, senão a que é mediante a fé em Cristo, a justiça que procede de Deus, baseada na fé (v. 9).
Ser encontrado em Cristo é ter uma identidade recebida, e não fabricada. O evangelho é esse Deus que veio ao nosso encontro enquanto nós sequer imaginávamos que um ser tão soberano, tão infinito, tão majestosamente santo pudesse se aproximar de nós. Essa é a graça. Essa é a misericórdia de Deus em movimento — a misericórdia que constrange a nossa autossuficiência e transcende a nossa rebeldia. É Deus que nos encontra no nosso pior para nos tornar melhores nele, como ele e por ele.
Essa linguagem de pertencimento é totalmente cristã. É uma linguagem de união que se assemelha a um eco de Cântico dos Cânticos: “Eu sou do meu amado, e o meu amado é meu” (Ct 6.3). Nós não somos meros peões na história de Deus, nem pontos espalhados no universo, nem gente que é pó de estrela em seus átomos ou fruto de uma aleatoriedade cósmica. Existe uma ordenança cósmica que nos faz filhos de Deus e nos confere uma identidade. Até mesmo nós, que estávamos perdidos como ovelhas sem pastor, fomos encontrados e resgatados por Cristo Jesus.
Em Cristo temos um lugar de habitação, e esse lugar tem um destino. Nele temos plena satisfação nesta vida e para a eternidade; temos uma verdade que nos traz estabilidade; temos uma vida que nos dá satisfação e um caminho que nos dá propósito e sentido.
Essa é a cirurgia do evangelho: tirar-nos a justiça própria e nos colocar como recebidos por Cristo. Não há maneira de ser recebido por Cristo a não ser que tiremos a roupa da justiça pessoal. Nossa própria justiça, nosso próprio desejo, nossa própria interpretação de todas as coisas é de fato a rebeldia que nos afasta de Cristo Jesus. Nada é tão danoso para a nossa vida quanto a nossa ideia de justiça e paz, porque, se tivéssemos de ser salvos pela nossa ideia do que é melhor, seríamos excluídos de Cristo Jesus.
O maior impedimento para a nossa comunhão com Cristo Jesus não são os nossos pecados escandalosos. O maior impedimento é a nossa justiça apresentável como moeda diante de Deus. Ninguém consegue comprar a própria redenção. Ninguém consegue justificar-se a si mesmo. Essa é a distinção do evangelho. Paulo sabe que as obras têm sua importância, mas sabe também que todas as nossas atividades são consideradas como trapos de imundícia (Is 64.6). O conteúdo do evangelho não é o que nós podemos fazer por Deus, mas o que Deus fez por nós em Cristo Jesus. É Deus quem declara justo, por causa de Cristo.
Em terceiro lugar…
III. A esperança da ressurreição com Cristo
É a vida plena, verdadeira, recebida por Cristo Jesus que desperta o sonho do apóstolo Paulo nos versículos 10-11:
Para o conhecer, e o poder da sua ressurreição, e a comunhão dos seus sofrimentos, conformando-me com ele na sua morte; para, de algum modo, alcançar a ressurreição dentre os mortos (v. 10-11).
Paulo não quer apenas um conhecimento teórico; ele quer um conhecimento experimentado. Ele sabe que conhecer a Cristo implica muito mais do que uma porção de informações, livros teológicos e conceitos. A fé verdadeira não é uma fé vazia nem indistinta dos seus comportamentos. Conhecer a Cristo inclui encarnar a eficácia da sua morte e ressurreição em nossa vida.
1. O poder da ressurreição
Conhecer a Cristo também é conhecer o seu poder sobre a vida. Esse poder, como o apóstolo Paulo indica em 2Coríntios 5.18-20, nos dá um ministério a cumprir: o ministério da reconciliação. A consciência da eficácia da ressurreição em nós nos torna proclamadores: “Eu cri, por isto falei” (2Co 4.13).
Na proposta do apóstolo Paulo, conhecer a Cristo é o único modo de conhecer as cores verdadeiras do mundo — o único modo de enxergar as dimensões verdadeiras desta realidade e experimentar a profundidade do tempo e do espaço, aproveitando esta vida ao máximo que ela tem a oferecer. O poder da ressurreição é o combustível para os passos no tempo presente. Esse mesmo poder que Deus demonstrou no evento supremo da ressurreição está à nossa disposição: ele assegura a nossa justificação (Rm 4.25), opera em nós a vida nova e culmina na ressurreição do corpo.
2. A comunhão dos sofrimentos
Há, contudo, um caminho que frequentemente nos faz recuar. Pois só ressuscita aquele que morreu. Uma vez que Cristo ressuscitou e nos ressuscitará junto com ele, devemos saber que podemos segui-lo não apenas em sua ressurreição, mas também em sua morte e em seus sofrimentos.
Paulo não está vendendo um programa de aperfeiçoamento espiritual. Conhecer a Cristo também implica caminhar com ele nos lugares em que ninguém aplaude. Ele chama isso de “comunhão dos seus sofrimentos”. Comunhão não é sofrer sozinho, nem aguentar calado. É sofrer com Cristo. O sofrimento deixa de ser apenas um acidente triste no caminho e passa a ser um lugar em que o próprio Cristo nos encontra. Não é apenas que os nossos sonhos bons contam com a presença de Cristo — até os nossos piores sofrimentos serão encontrados nele. Quando sofremos, temos nesses sofrimentos a garantia de “um peso de glória eterno” (2Co 4.17), porque até nos piores dias não seremos abandonados.
Quando sofremos sem Cristo, podemos nos tornar cínicos, com olhos distantes e o coração anestesiado, como homens ocos. Ou então nos tornamos idólatras, tentando nos agarrar a qualquer outro sonho para além de Cristo. Entre o cinismo e a idolatria, Cristo Jesus nos convida a sofrer não sem ele, mas com ele. E o sofrimento com Cristo produz em nós um novo coração, que nos faz outro tipo de gente: gente com peito — gente que vai chorar, mas não vai se quebrar; que vai perder, mas não vai se perder; que sangra, mas não vira pedra.
3. A conformidade com a morte de Cristo
Paulo não está falando apenas de sofrimento externo — perseguições, prisão, perdas. Ele fala também daquele sofrimento silencioso interior: a guerra diária contra o nosso próprio ego, a mortificação do velho homem. A cruz não mata apenas os pecados escandalosos; ela mata também o nosso eu como centro do universo. É essa descentralização do eu que produz a verdadeira liberdade.
Paulo diz: “Eu não quero apenas um Cristo que me dê coisas. Eu quero um Cristo que me faça novo — e de novo”. Tem muita coisa que chamamos de sonho, mas que no fundo é idolatria maquiada: o sonho de ser admirado, de nunca mais sofrer, de provar que estamos certos, de finalmente ser alguém. Cristo pega todos esses sonhos e os crucifica. Não porque nos odeia, mas porque nos ama demais para nos deixar virar homens empalhados — bonitos por fora, mas sem vida.
A cruz não é Deus dizendo: “Pague o que você fez”. A cruz é Deus dizendo: “Eu paguei; agora venha viver”. Morrer para aquilo que nos mata, morrer para a ilusão de que a nossa identidade está no nosso desempenho — esse é o convite da cruz, o convite do evangelho, a consequência da ressurreição.
A ressurreição não é um mero detalhe na doutrina cristã. É o norte do nosso coração. É a certeza de que a história não termina no cemitério. É a convicção de que a vida não é um ciclo de dopamina e distração. É um grito contra o vazio do mundo. É a certeza de que existe um futuro, de que existe eternidade, de que existe vitória — e ela tem um nome: Cristo Jesus.
Conclusão
Em Filipenses 3.7-11, o apóstolo Paulo nos apresenta o sublime sonho por Cristo: [1] um sonho que começa com o desejo pelo sublime conhecimento de Cristo Jesus, [2] que passa por uma identidade recebida, não fabricada, e [3] que culmina com a esperança da ressurreição com Cristo.
Talvez muita gente esteja cansada de seus sonhos — sonhos que são grandes até a primeira vez que se perde tudo; lindos até a primeira crise; que prometem plenitude, mas entregam uma vida exausta, cheia de estresse e esgotamento. Paulo aponta para um sonho que aguenta tudo: o Cristo ressurreto e a ressurreição com ele. Um sonho tão grande, um conhecimento tão sublime, que faz todos os outros sonhos menores voltarem aos seus devidos lugares — não como deuses competindo pelo nosso coração, mas como instrumentos.
É assim que o peito se enche de verdade: não com orgulho, mas com esperança; não com performance, mas com graça; não com ilusão, mas com ressurreição. O sonho cristão não é um currículo. O sonho cristão não é algo que fabricamos. O sonho cristão não é o nosso passado. O sonho cristão termina na ressurreição.
Notas
[1] Cf. CALVINO, João. Comentário de Filipenses 3.8. Calvino argumenta que Paulo “se despojou não das obras, mas daquela confiança equivocada depositada nas obras, com a qual se ensoberbecia”. Cf. versão digital em: bibliaplus.org.