13 Naquele mesmo dia, dois deles estavam de caminho para uma aldeia chamada Emaús, distante de Jerusalém sessenta estádios. 14 E iam conversando a respeito de todas as coisas sucedidas. 15 Aconteceu que, enquanto conversavam e discutiam, o próprio Jesus se aproximou e ia com eles. 16 Os seus olhos, porém, estavam como que impedidos de o reconhecer. 17 Então, lhes perguntou Jesus: Que é isso que vos preocupa e de que ides tratando à medida que caminhais? E eles pararam entristecidos. 18 Um, porém, chamado Cleópas, respondeu, dizendo: És o único, porventura, que, tendo estado em Jerusalém, ignoras as ocorrências destes últimos dias? 19 Ele lhes perguntou: Quais? E explicaram: O que aconteceu a Jesus, o Nazareno, que era varão profeta, poderoso em obras e palavras, diante de Deus e de todo o povo, 20 e como os principais sacerdotes e as nossas autoridades o entregaram para ser condenado à morte e o crucificaram. 21 Ora, nós esperávamos que fosse ele quem havia de redimir a Israel; mas, depois de tudo isto, é já este o terceiro dia desde que tais coisas sucederam. 22 É verdade também que algumas mulheres, das que estavam conosco, nos surpreenderam, tendo ido de madrugada ao túmulo; 23 e, não achando o corpo de Jesus, voltaram dizendo terem tido uma visão de anjos, os quais afirmam que ele vive. 24 De fato, alguns dos nossos foram ao sepulcro e verificaram a exatidão do que disseram as mulheres; mas não o viram. 25 Então, lhes disse Jesus: Ó néscios e tardos de coração para crer tudo o que os profetas disseram! 26 Porventura, não convinha que o Cristo padecesse e entrasse na sua glória? 27 E, começando por Moisés, discorrendo por todos os profetas, expunha-lhes o que a seu respeito constava em todas as Escrituras. 28 Quando se aproximavam da aldeia para onde iam, fez ele menção de passar adiante. 29 Mas eles o constrangeram, dizendo: Fica conosco, porque é tarde, e o dia já declina. E entrou para ficar com eles. 30 E aconteceu que, quando estavam à mesa, tomando ele o pão, abençoou-o e, tendo-o partido, lhes deu. 31 Então, se lhes abriram os olhos, e o reconheceram; mas ele desapareceu da presença deles. 32 E disseram um ao outro: Porventura, não nos ardia o coração, quando ele, pelo caminho, nos falava, quando nos expunha as Escrituras? 33 E, na mesma hora, levantando-se, voltaram para Jerusalém, onde acharam reunidos os onze e outros com eles, 34 os quais diziam: O Senhor ressuscitou e já apareceu a Simão. 35 Então, os dois contaram o que lhes acontecera no caminho e como fora por eles reconhecido no partir do pão. Lucas 24.13-35.
Sermão do Pastor Misael Batista do Nascimento. Pregado na Igreja Presbiteriana de São José do Rio Preto, no culto da manhã (Domingo de Páscoa), em 05/04/2026.
Introdução
A presença de Jesus ressurreto muda a nossa crença, muda o nosso coração e também muda o nosso propósito.
Lucas informa sobre isso de maneira muito tocante no final do seu evangelho. A partir de Lucas 24.13, temos um material exclusivo deste evangelista, não encontrado em nenhum outro evangelho. E é um material diferente do próprio conteúdo precedente de Lucas. Embora o Evangelho de Lucas sempre tenha sido considerado o mais grego dentre os quatro — escrito por um grego para destinatários de língua grega, normalmente gentios que precisavam conhecer as boas novas sobre Jesus Cristo — é interessante que especialmente aqui, a partir do versículo 13 até o 53, o texto contém quase cinquenta hebraísmos: expressões da língua hebraica que indicam, para alguns estudiosos, que Lucas faz uso de um material realmente muito distinto dos demais evangelistas.[1]
A passagem retrata algo que aconteceu entre o fim da tarde e o anoitecer do domingo da ressurreição. E nela encontramos três movimentos dignos da nossa atenção.
Em primeiro lugar, [1] discípulos desanimados, afastando-se de Jerusalém (v. 13-24). Em segundo lugar, [2] Jesus anima os discípulos com instrução e autorrevelação (v. 25-31). E, por fim, [3] discípulos iluminados e animados retornam a Jerusalém (v. 32-35).
Vejamos, em primeiro lugar…
I. Discípulos desanimados afastam-se de Jerusalém
Esse é um padrão em todos os evangelhos. A morte de Jesus trouxe impacto e abalo nos discípulos. Todos os evangelistas mostram isso: os discípulos perdidos após a morte do Senhor e a mensagem da ressurreição vindo restaurá-los e reestruturar sua fé e crença.
Dois discípulos decidem sair de Jerusalém e retornar para Emaús. É assim que começa o relato, no versículo 13:
Naquele mesmo dia, dois deles estavam de caminho para uma aldeia chamada Emaús, distante de Jerusalém sessenta estádios (v. 13).
Apenas um dos discípulos é identificado: Cleópas, mencionado no versículo 18.[2] Há todo um debate sobre quem foi o outro discípulo — inclusive a hipótese de que se tratasse da esposa de Cleópas —, mas são apenas tentativas de identificação sem sucesso. O importante para Lucas, mais do que identificar os discípulos, é mostrar o estado lastimável deles: suas crenças, seus corações e seu propósito, tudo misturado e confuso naquela hora.
A localização da aldeia de Emaús também é incerta. O que Lucas diz é que distava de Jerusalém sessenta estádios — cerca de 10 a 12 quilômetros, o equivalente a duas horas de caminhada.
É importante para Lucas destacar que eles saíram de Jerusalém. A partir do capítulo 9, Lucas apresenta Jesus sendo encaminhado pelo Pai e pelo Espírito Santo rumo a Jerusalém, onde tinha algo decisivo a cumprir. Mais adiante neste mesmo capítulo 24, Jesus dirá que os discípulos devem estar em Jerusalém, pois a partir dali começará o testemunho do evangelho. Em Atos 1.3-5, Lucas registra a instrução de que eles devem permanecer em Jerusalém para receber a promessa do Pai.
Estar em Jerusalém é fundamental neste momento. Jerusalém, de acordo com os Salmos, é o lugar da habitação de Deus. É o lugar do cumprimento do pacto que Deus fez com Davi. É o lugar onde o Espírito Santo será derramado (At 1.4-5,12-13; 2.1-4). É o ponto de partida do novo testemunho (Lc 24.47). É também o lugar onde os discípulos desfrutarão de comunhão, do partir do pão e da transformação de Deus (At 2.42-47).
Em suma, esses dois discípulos seguiam na direção errada. Precisavam retornar. Precisavam compreender a história incompleta e desfrutar da dádiva inteira que Deus tinha para eles. Mas isso exigia que Jesus ressurreto se manifestasse entre eles.
O versículo 14 registra que eles prosseguiam para longe de Jerusalém, conversando sobre o ocorrido. As coisas, porém, começam a mudar no versículo 15:
Aconteceu que, enquanto conversavam e discutiam, o próprio Jesus se aproximou e ia com eles (v. 15).
Mesmo assim, eles não souberam que era Jesus, pois os seus olhos “estavam como que impedidos de o reconhecer” (v. 16). O que Lucas destaca no versículo 17, porém, é que Jesus os encontra mergulhados em tristeza:
Então, lhes perguntou Jesus: Que é isso que vos preocupa e de que ides tratando à medida que caminhais? E eles pararam entristecidos (v. 17).
Jesus percebe o estado interior deles e interage com muita paciência e gentileza. O versículo 18 mostra não apenas abatimento, mas até certa irritação no coração de Cleópas:
Um, porém, chamado Cleópas, respondeu, dizendo: És o único, porventura, que, tendo estado em Jerusalém, ignoras as ocorrências destes últimos dias? (v. 18).
Jesus, com toda a paciência, pergunta: “Quais?” (v. 19a). A gentileza de Jesus aqui é digna da nossa atenção.
Daí os discípulos relatam o que houve em Jerusalém, nos versículos 19b-21. Jesus foi morto e eles estão frustrados com sua morte. Há alguns elementos muito interessantes nesta fala.
Primeiro, Jesus é apresentado com distinção: “varão profeta, poderoso em obras e palavras, diante de Deus e de todo o povo” (v. 19). Esse é o modo judaico de apresentar uma figura distinta, um homem de Deus. Os discípulos entendem que Jesus é um servo de Deus, um profeta, poderoso naquilo que ensinou e fez. No entanto, em nenhum momento eles dizem “Jesus, o Messias” ou “Jesus, o Senhor”. Embora sua crença não estivesse inteiramente errada — de fato, Jesus é profeta —, ela ainda não estava solidificada; estava confusa.
Segundo, a condenação e a morte de Jesus são testificadas como fato: “os principais sacerdotes e as nossas autoridades o entregaram para ser condenado à morte e o crucificaram” (v. 20). É aquilo que confessamos no Credo Apostólico: padeceu sob Pôncio Pilatos, foi crucificado, morto.
Terceiro, a frustração deles é evidenciada: “Ora, nós esperávamos que fosse ele quem havia de redimir a Israel; mas, depois de tudo isto, é já este o terceiro dia desde que tais coisas sucederam” (v. 21). Eles aguardavam a redenção de Israel e entendiam que Cristo seria esse redentor, mas aquele “mas” no meio do versículo 21 carrega toda a sua frustração. Um estudioso anota que “mesmo que a estrela de Jesus subisse mais alto do que a de seus predecessores, sua morte e crucificação tornaram seu legado o mais amargo e derradeiro. Cleópas tem o início de um entendimento apropriado de Jesus — a cruz, a evidência para o sepulcro vazio e até mesmo uma possível relação com esses fatos e a redenção de Israel. Mas Cleópas permanece perplexo e deprimido”.[3]
Porém, o mais intrigante é o que consta nos versículos 22-24. Poderíamos imaginar que os discípulos estavam assim por não terem nenhuma informação sobre a ressurreição. Mas não é o caso:
É verdade também que algumas mulheres, das que estavam conosco, nos surpreenderam, tendo ido de madrugada ao túmulo; e, não achando o corpo de Jesus, voltaram dizendo terem tido uma visão de anjos, os quais afirmam que ele vive (v. 22-23).
Ou seja, eles não estão desinformados acerca da ressurreição. Ouviram o testemunho das mulheres e ficaram surpreendidos — mas ficar surpreendido não equivale a crer. Ficar espantado diante de um sinal ainda não significa que o coração crê.
E o versículo 24 torna isso ainda mais impressionante: “De fato, alguns dos nossos foram ao sepulcro e verificaram a exatidão do que disseram as mulheres; mas não o viram.” O fato foi verificado, o fato é exato. Contudo, eles terminam dizendo: “mas não o viram” — como se dissessem: “Será que é isso mesmo?”
Eis algo que devemos considerar: o que impede a fé não é a ausência de evidências. A fé não deixa de surgir por ser irracional ou por não poder ser demonstrada. Existe um impedimento no coração desses discípulos. Eles precisam de uma intervenção sobrenatural em suas almas para que possam crer. Eles sabem com a mente, mas não creem com o coração.
Lucas nos faz pensar: como temos essa questão da ressurreição de Jesus dentro da nossa alma? Será que apenas sabemos com a mente, mas ainda não cremos com o coração?
Jesus se aproxima e vai com eles, porque a presença de Jesus ressurreto é necessária para mudar a crença, o coração e o propósito deles.
Mas, em segundo lugar, vejamos que…
II. Jesus anima os discípulos com instrução e autorrevelação
Os versículos 25 a 31 trazem a instrução e a autorrevelação de Jesus.
1. Instrução
Os versículos 25 a 27 registram a instrução de Jesus:
Então, lhes disse Jesus: Ó néscios e tardos de coração para crer tudo o que os profetas disseram! Porventura, não convinha que o Cristo padecesse e entrasse na sua glória? E, começando por Moisés, discorrendo por todos os profetas, expunha-lhes o que a seu respeito constava em todas as Escrituras (v. 25-27).
Primeiro, os discípulos são repreendidos — não porque não creram no relato da ressurreição, mas porque não creem no que as Escrituras dizem, naquilo que os profetas anunciaram.
A partir daí, Jesus os instrui. O significado de toda a instrução das Escrituras e dos profetas é muito simples: primeiro tem de vir o padecimento, depois é que vem a glória. “Porventura, não convinha que o Cristo padecesse e entrasse na sua glória?” (v. 26). “Convinha” significa literalmente “era necessário que fosse assim”. A redenção não podia ser realizada de outra forma. A ira de Deus, a santidade de Deus, exige que o pecador morra. Era necessário aplacar essa ira. Era necessário oferecer um sacrifício expiatório e substitutivo na cruz. Era necessário que Jesus Cristo, como último Adão, perfeito em obediência, se entregasse e vencesse a morte. Assim como pelo primeiro homem entrou a morte, pelo Cristo, o último Adão, a morte é vencida e a humanidade é resgatada plenamente (cf. 1Co 15.21-22,45).
Esse padrão — primeiro o padecimento, depois a glória — era completamente contrário às expectativas messiânicas do século I. Comunidades como a de Qumran (dos essênios), por exemplo, possuíam muitos escritos que falavam sobre um Messias sobrenatural, superpoderososo, que viria com poder e glória para derrotar os romanos, expulsar os invasores e estabelecer o reino. Não era muito diferente daquilo que se ensinava em algumas sinagogas daquele tempo.[4]
Jesus corrige essa expectativa. E o que convém ao Cristo convém também aos discípulos. Em Marcos 8.34, Jesus afirma que é necessário que cada um negue a si mesmo, tome a sua cruz e o siga. Esse é o caminho para a glória.
No versículo 27, lemos algo precioso: “começando por Moisés, discorrendo por todos os profetas, expunha-lhes o que a seu respeito constava em todas as Escrituras”. Jesus apresenta aquilo que os teólogos chamam de perspectiva histórico-redentora das Escrituras: do primeiro ao último livro da Bíblia, tudo fala sobre a redenção. Desde Gênesis até os profetas, Cristo é apontado. Jesus está presente em todas as Escrituras — em Gênesis, Êxodo, Levítico, Números, Deuteronômio, nos livros históricos, poéticos e proféticos. Não existe ruptura entre o Antigo e o Novo Testamentos; o que existe é uma progressão. Todas as Escrituras falam sobre a redenção e tudo aponta para Cristo. Daí a necessidade da leitura, do estudo e da exposição cristocêntrica das Escrituras.
2. Autorrevelação
Nos versículos 28 a 31, temos a autorrevelação de Jesus:
Quando se aproximavam da aldeia para onde iam, fez ele menção de passar adiante. Mas eles o constrangeram, dizendo: Fica conosco, porque é tarde, e o dia já declina. E entrou para ficar com eles. E aconteceu que, quando estavam à mesa, tomando ele o pão, abençoou-o e, tendo-o partido, lhes deu. Então, se lhes abriram os olhos, e o reconheceram; mas ele desapareceu da presença deles (v. 28-31).
Lucas registra três ocasiões em que Jesus parte o pão no seu evangelho. Na primeira, quando alimenta os cinco mil (Lc 9.16), Jesus traz satisfação. Na segunda, quando celebra a Páscoa (Lc 22.19), Jesus evoca lembrança: “Fazei isto em memória de mim”. Agora, nesta terceira vez, Jesus traz revelação.
A revelação é acentuada pelo versículo 31: “se lhes abriram os olhos, e o reconheceram”. Todas as vezes em que Lucas usa o verbo “abrir” no seu evangelho e em Atos, ele descreve alguém recebendo revelação — o ser humano como figura passiva diante da ação reveladora de Deus. Não é o homem que busca e cava a revelação; é Deus que graciosamente decide revelar-se ao homem. Se Cristo não decidisse revelar-se, os discípulos permaneceriam desanimados e tontos naquele dia.
O texto também registra que “ele desapareceu da presença deles” (v. 31b). O corpo ressurreto de Jesus é distinto de todos os outros corpos que ressuscitaram antes dele no relato bíblico.[5] Não se trata de um corpo ressuscitado da perspectiva terrena, mas de um novo corpo espiritual que participa das dimensões de espaço e tempo — Jesus come com os discípulos, pode ser tocado e exibe cicatrizes — mas que ao mesmo tempo supera essas dimensões: está aqui, depois não está; aparece numa sala trancada dizendo “Paz seja convosco” (Jo 20.19,26).
Jesus precisou ministrar desse modo aos discípulos no caminho de Emaús. Eles careciam de iluminação e, com ela, de correção de crença e de consolação.
Precisamos avançar para a conclusão do relato, afirmando, em terceiro lugar, que…
III. Discípulos iluminados e animados retornam a Jerusalém
Graças a Deus, o relato não termina no desânimo. A narrativa conclui nos versículos 32 a 35:
E disseram um ao outro: Porventura, não nos ardia o coração, quando ele, pelo caminho, nos falava, quando nos expunha as Escrituras? E, na mesma hora, levantando-se, voltaram para Jerusalém, onde acharam reunidos os onze e outros com eles, os quais diziam: O Senhor ressuscitou e já apareceu a Simão. Então, os dois contaram o que lhes acontecera no caminho e como fora por eles reconhecido no partir do pão (v. 32-35).
Os discípulos tinham ouvido os relatos matutinos sobre a ressurreição, mas até aquele ponto ninguém entre eles afirmava tê-lo visto. Agora, chegando a Jerusalém, ficam sabendo que o próprio Pedro já viu o Senhor ressurreto (v. 34). E unem ao testemunho de Pedro o seu próprio relato: encontraram-se com Jesus no caminho e o reconheceram no momento em que ele partiu o pão (v. 35).
Chama atenção o fato de que, diante da exposição das Escrituras, o coração deles ardeu e a mente deles foi acesa (v. 32). A crença deles foi corrigida. Com a crença corrigida, eles retornam a Jerusalém e se unem ao coro de testemunhas da ressurreição, indicando que o coração deles foi animado e o propósito deles foi reconsiderado. Já não andam com as baratas tontas, saindo da cidade, desanimados e sem rumo. Pelo contrário, unem-se às testemunhas de Cristo com novo propósito.
E tudo isso é assim porque a presença de Jesus ressurreto muda a nossa crença, o nosso coração e o nosso propósito.
Certamente, após esse episódio, eles tiveram o privilégio de conviver com o Senhor ressurreto durante quarenta dias (At 1.3-4), desfrutando de uma espécie de curso de imersão teológica, no qual Jesus lhes ensinou as verdades sobre o reino de Deus. E prosseguiram como testemunhas audazes dele pelo resto da vida (At 1.8).[6]
Dito isto, podemos concluir…
Conclusão
Em Lucas 24.13-35, encontramos [1] discípulos desanimados afastando-se de Jerusalém, [2] Jesus animando os discípulos com instrução e autorrevelação e [3] discípulos iluminados e animados retornando a Jerusalém. A grande mensagem é:
A presença de Jesus ressurreto muda a nossa crença, o nosso coração e o nosso propósito.
O que isso tem a ver conosco?
A grande questão é que, por conta da nossa fragilidade e também da nossa maldade — ou seja, por conta do pecado que habita em nós —, nós somos de modo geral inclinados a ter a crença confundida. Não estamos falando aqui de pagãos alheios às Escrituras, mas de discípulos que conheciam as Escrituras Sagradas e que provavelmente haviam acompanhado o ministério de Jesus durante três anos. Mesmo assim, ainda estavam confusos em suas crenças. Nós somos inclinados não apenas a ter crenças confundidas, mas também a desanimar na alma. E quando se perde o foco do chamado, quando se deixa de estar onde se deve estar e de fazer o que se deve fazer, isso sinaliza o quanto estamos confusos e perdemos o rumo — e daí nos afastamos tristes e tontos, como esses discípulos a caminho de Emaús.
Um estudioso sugere: “O lamento sucinto de Cleópas resume o sentimento dos cristãos ao longo das eras que concluem que, quando Deus não cumpre as esperanças deles, toda a esperança está perdida”.[7] “Nós esperávamos que fosse ele quem havia de redimir a Israel, mas já faz três dias que ele morreu.” Sentimo-nos frustrados. Mas louvado seja o Senhor, porque a presença de Jesus ressurreto muda a nossa crença, o nosso coração e o nosso propósito.
A partir daí, podemos fazer cinco afirmações:
[1] Porque Jesus ressuscitou, podemos dar meia-volta e retornar para Jerusalém. Podemos retornar ao lugar onde Deus deseja que estejamos, o lugar da bênção dele. Podemos retornar para a fé, para a comunhão dos irmãos que deixamos para trás. Podemos permanecer em Jerusalém, onde a graça e o poder de Deus nos encontram. Esse é um grande chamado para nós que somos crentes. E é um chamado precioso para aquele que até agora não se declarou cristão ou convertido — o chamado para ir ao lugar da bênção de Deus e receber seu favor, seu poder, sua graça que atende às nossas necessidades mais profundas.
[2] Nós continuamos precisando de instrução e autorrevelação de Jesus. É fundamental que, antes de um culto, de uma aula de escola dominical, de uma reunião de grupo pequeno ou de qualquer outro momento em que a Palavra será exposta, oremos dizendo: “Senhor Jesus, eu preciso que o Senhor mesmo me instrua, que o Senhor mesmo se revele a mim nessa palavra que eu vou ouvir.” Precisamos aprender a orar sobre isso, para que possamos sair de cada encontro com a Palavra dizendo: “Deus falou comigo”. Precisamos ler e estudar as Escrituras tendo Jesus como centro de cada livro, pedindo o tempo todo: “Senhor, fala comigo; que eu tenha um encontro contigo na tua Palavra”.
[3] Precisamos assumir a trilha do discipulado. Primeiro padecer, depois desfrutar da glória. Era necessário que o Cristo primeiro padecesse e depois fosse glorificado. Esse é o caminho dele e é o caminho do discipulado. Nossos pais puritanos transformaram isso num lema: “Aquele que padece conquista”.[8] Vivemos hoje uma cultura religiosa que quer retirar o padecimento da equação, oferecendo apenas promessas de vitória e conforto material. Isso nada tem a ver com o cristianismo bíblico. Aquele que padece conquista — primeiro o padecimento, depois a glória.
[4] É fundamental que nos tornemos adoradores de Jesus. Precisamos ser encontrados por Jesus na Palavra e nos sacramentos, porque Jesus providenciou instrução — a Palavra — e depois partiu o pão, revelando-se de modo sacramental.
[5] Temos de assumir nosso lugar como testemunhas de Jesus ressurreto. Os discípulos que antes diziam: “Ouvimos dizer que ele ressuscitou, mas ninguém o viu”, agora chegam a Jerusalém e declaram: “Nós nos encontramos com ele. Ele caminhou conosco, expôs as Escrituras e partiu o pão diante de nós. Ele ressuscitou!” Eles se juntaram ao coro das testemunhas de Jesus ressurreto.
A presença de Jesus ressurreto mudou a crença deles, o coração deles e o propósito deles. Que Deus, por sua graça e poder, de fato mude a nossa crença, o nosso coração e os nossos planos nesta manhã de Páscoa.
Notas
[1] Sobre os hebraísmos presentes em Lucas 24.13-53, cf. MARSHALL, I. Howard. The Gospel of Luke: A Commentary on the Greek Text. Grand Rapids: Eerdmans, 1978, p. 891-892 (NIGTC).
[2] Hegésipo, citado por Eusébio de Cesareia, identifica um certo Clopas como irmão de José, o pai adotivo de Jesus; cf. EUSÉBIO DE CESAREIA. História eclesiástica, III.XI. Há também a hipótese de que Cleópas tenha se tornado líder na igreja primitiva na virada do primeiro para o segundo século, embora isso não possa ser confirmado com certeza.
[3] Cf. BOCK, Darrell L. Luke. Grand Rapids: Baker, 1996, v. 2, p. 1912-1913 (Baker Exegetical Commentary on the New Testament).
[4] Sobre as expectativas messiânicas em Qumran e no judaísmo do Segundo Templo, cf. COLLINS, John J. The Scepter and the Star: Messianism in Light of the Dead Sea Scrolls. 2nd ed. Grand Rapids: Eerdmans, 2010.
[5] Tanto no Antigo Testamento (ressurreições por meio de Elias e Eliseu), quanto no Novo Testamento (ressurreições realizadas por Jesus, e depois por Pedro e Paulo), pessoas foram ressuscitadas dentro do relato bíblico, mas todas elas voltaram a morrer. A ressurreição de Jesus é distinta: seu corpo ressurreto é um novo corpo espiritual e glorificado, como Paulo argumenta em 1Coríntios 15.42-49.
[6] Atos 1.3 registra que, durante quarenta dias, Jesus apareceu aos discípulos, “falando das coisas concernentes ao reino de Deus”.
[7] Cf. BOCK, op. cit., p. 1917.
[8] Lema comumente atribuído à tradição puritana, que sintetiza a convicção de que o caminho da glória passa necessariamente pelo sofrimento e pela perseverança.