Uma família de discípulos de Jesus
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Deus nos tem abençoado [Ef 1.3-14]

3 Bendito o Deus e Pai de nosso Senhor Jesus Cristo, que nos tem abençoado com toda sorte de bênção espiritual nas regiões celestiais em Cristo, 4 assim como nos escolheu, nele, antes da fundação do mundo, para sermos santos e irrepreensíveis perante ele; 5 e em amor nos predestinou para ele, para a adoção de filhos, por meio de Jesus Cristo, segundo o beneplácito de sua vontade, 6 para louvor da glória de sua graça, que ele nos concedeu gratuitamente no Amado, 7 no qual temos a redenção, pelo seu sangue, a remissão dos pecados, segundo a riqueza da sua graça, 8 que Deus derramou abundantemente sobre nós em toda a sabedoria e prudência, 9 desvendando-nos o mistério da sua vontade, segundo o seu beneplácito que propusera em Cristo, 10 de fazer convergir nele, na dispensação da plenitude dos tempos, todas as coisas, tanto as do céu como as da terra. 11 Nele, digo, no qual fomos também feitos herança, predestinados segundo o propósito daquele que faz todas as coisas conforme o conselho da sua vontade, 12 a fim de sermos para louvor da sua glória, nós, os que de antemão esperamos em Cristo; 13 em quem também vós, depois que ouvistes a palavra da verdade, o evangelho da vossa salvação, tendo nele também crido, fostes selados com o Santo Espírito da promessa; 14 o qual é o penhor da nossa herança, até ao resgate da sua propriedade, em louvor da sua glória. Efésios 1.3-14.

Sermão do Rev. Robson. Pregado na Igreja Presbiteriana de São José do Rio Preto, no culto da manhã, em 12/04/2026.

Introdução

A carta aos Efésios foi escrita pelo apóstolo Paulo em um momento de luta pessoal. No capítulo 4, versículo 1, ele declara que estava em cadeias. E é nesse contexto de sofrimento e preocupação pastoral que o apóstolo toma a pena para fortalecer uma igreja à qual ele próprio havia se dedicado intensamente. Em Atos 19, lemos que Paulo pregou ousadamente por três meses na sinagoga de Éfeso e, depois disso, dedicou-se ao ensino naquela cidade por cerca de dois anos.

O trecho que meditamos hoje situa-se logo no início da carta, depois da saudação. Trata-se de uma passagem muito citada no ensino da doutrina reformada, especialmente sobre a eleição. Mas devemos olhar para este texto não apenas como um conceito teológico, e sim como o alicerce que o apóstolo estabelece para tudo o que será desenvolvido no restante da carta. Além da profundidade e da consistência doutrinária, o que encontramos aqui é o destaque da bondade de Deus, da sua grandeza, da sua bênção sobre o seu povo.

A mensagem central da passagem pode ser expressa assim:

Deus tem nos abençoado.

E o apóstolo nos conduz a reconhecer essa bênção em três movimentos:

[1] Deus nos tem abençoado na eleição, antes da fundação do mundo (v. 3-4).

[2] Deus nos tem abençoado na predestinação em e por meio de Jesus (v. 5-11).

[3] Deus nos tem abençoado para a santidade e louvor da sua glória (v. 12-14).

I. Deus nos tem abençoado na eleição, antes da fundação do mundo

Leiamos novamente os versículos 3 e 4:

Bendito o Deus e Pai de nosso Senhor Jesus Cristo, que nos tem abençoado com toda sorte de bênção espiritual nas regiões celestiais em Cristo, assim como nos escolheu, nele, antes da fundação do mundo, para sermos santos e irrepreensíveis perante ele (v. 3-4).

É possível reconhecer a bondade de Deus de muitas maneiras. Podemos reconhecer que Deus nos abençoa pelo simples fato de acordarmos em uma nova manhã. Podemos reconhecê-la quando estamos reunidos em família, quando desfrutamos de saúde ou quando recebemos um bom tratamento, quando temos o pão sobre a mesa. Nada disso é pouco. O próprio Senhor Jesus nos ensinou a orar pelo pão nosso de cada dia, e a Escritura nos orienta a apresentar todas as coisas a Deus em oração.

Mas o nível em que o apóstolo nos chama a contemplar a bênção de Deus, aqui, é outro. É um nível mais profundo, mais solene. Ele fala de toda sorte de bênção espiritual nas regiões celestiais em Cristo. Isso exige que os nossos olhos estejam voltados para uma realidade mais ampla, para o poder e o cuidado de Deus em escala muito maior. É como Paulo escreveu também aos Coríntios:

Não atentando nós nas coisas que se veem, mas nas que se não veem; porque as que se veem são temporais, e as que se não veem são eternas (2Co 4.18).

É para essa realidade que nossos olhos são chamados a mirar. E o texto prossegue apresentando a doutrina da eleição como a própria forma dessa bênção: assim como nos escolheu, nele, antes da fundação do mundo. Fica claro aqui que a escolha não depende em nada daquilo que poderíamos fazer, mas somente de Cristo. E essa escolha tem propósito: para sermos santos e irrepreensíveis perante ele. Ou seja, a bênção produz resultado. A obra de Deus que nos alcança na eleição tem como fruto santidade, transformação de vida.

João Calvino, comentando esta passagem, afirma que Paulo declara aqui que não há nenhum outro fundamento da nossa salvação que não a livre bondade de Deus, e que não devemos procurar em nenhum outro lugar a razão pela qual ele escolhe uma pessoa e deixa outra. Convém que nos conservemos contentes com a sua absoluta vontade, propósito e decreto imutável. Quem for além disso, por menor que seja o passo, tropeçará e cairá em grande abismo. Sempre que formos procurar a causa de nossa salvação, aprendamos a atribuí-la totalmente a Deus.

Porque Deus é eterno e imutável, o seu plano existe em todos os seus elementos de forma perfeita e imutável, desde a eternidade. É nesse nível, então, da bondade de Deus em sua eleição, que somos chamados a reconhecer, antes de qualquer outra coisa:

Deus tem nos abençoado.

Esse reconhecimento profundo serve de base para o que o apóstolo vai desenvolver em seguida. Em segundo lugar…

II. Deus nos tem abençoado na predestinação em e por meio de Jesus

Jesus é, nesta passagem, o fundamento da eleição, o fundamento da igreja, e é um fundamento eterno. Mas, ao mesmo tempo em que o apóstolo eleva nossos olhos para a eternidade, ele traz esse foco para o presente. A igreja não deveria apenas contemplar a grandeza de Deus de modo abstrato, sem aplicá-la à sua caminhada. Por isso, o texto prossegue nos versículos 5 a 11:

E em amor nos predestinou para ele, para a adoção de filhos, por meio de Jesus Cristo, segundo o beneplácito de sua vontade, para louvor da glória de sua graça, que ele nos concedeu gratuitamente no Amado, no qual temos a redenção, pelo seu sangue, a remissão dos pecados, segundo a riqueza da sua graça, que Deus derramou abundantemente sobre nós em toda a sabedoria e prudência, desvendando-nos o mistério da sua vontade, segundo o seu beneplácito que propusera em Cristo, de fazer convergir nele, na dispensação da plenitude dos tempos, todas as coisas, tanto as do céu como as da terra. Nele, digo, no qual fomos também feitos herança, predestinados segundo o propósito daquele que faz todas as coisas conforme o conselho da sua vontade (v. 5-11).

Em Cristo, portanto, temos o desfrute de pertencer à família de Deus. Somos filhos por adoção, por meio do unigênito, eternamente gerado. E tudo isso segundo o beneplácito da sua vontade — ou seja, segundo essa vontade boa, excelente e perfeita de Deus. Aquilo que foi decidido na eternidade é agora trazido para o presente. Não é algo abstrato: é algo a ser desfrutado. E não é condicionado às nossas boas obras, pois a nossa eleição, realizada na eternidade, encontra o seu clímax histórico na obra de Jesus Cristo na cruz e na sua ressurreição.

Deus determina os fins e também os meios. O Deus que elege é o mesmo que atrai o seu povo para si, capacitando-o a responder com fé a essa graça. E o texto sublinha essa riqueza da graça: riqueza que se manifesta no sangue de Cristo, na remissão dos pecados, na sabedoria e prudência que Deus derramou abundantemente sobre nós. A graça reina. Mas uma graça reinante à parte da justiça não seria apenas mentirosa — seria absurda. Toda essa riqueza está ligada a uma justiça perfeita, cumprida na obra de Cristo.

E há mais. O versículo 10 fala do propósito de fazer convergir nele, na dispensação da plenitude dos tempos, todas as coisas, tanto as do céu como as da terra. Em outras palavras, a bênção que Deus planejou antes da fundação do mundo é executada em Cristo, e é nele que toda a história converge. Fazer parte disso, no tempo presente, é um privilégio indizível.

Essa verdade quebra qualquer sentimento de descontentamento. Em um tempo marcado pelas redes sociais, especialistas apontam que existe uma grande insatisfação gerada pela comparação. As pessoas sabem demais da vida umas das outras, e quase sempre olham para a grama do vizinho achando-a mais verde. A palavra de Deus, porém, nos chama a erguer os olhos e contemplar a grandeza da obra de Deus que tem nos abençoado na eleição antes da fundação do mundo, e isso em e por meio de Cristo. Isso transforma o nosso coração e a nossa perspectiva.

A doutrina da eleição, portanto, não é uma doutrina fria, congelante ou paralisante. Muito pelo contrário: é uma doutrina que apresenta a Cristo e que faz ferver em nós o reconhecimento da bênção de Deus sobre nossas vidas.

Deus tem nos abençoado.

Isso nos conduz, em terceiro lugar, para…

III. Deus nos tem abençoado para a santidade e louvor da sua glória

O trecho final da passagem apresenta o propósito prático de toda essa bênção:

A fim de sermos para louvor da sua glória, nós, os que de antemão esperamos em Cristo; em quem também vós, depois que ouvistes a palavra da verdade, o evangelho da vossa salvação, tendo nele também crido, fostes selados com o Santo Espírito da promessa; o qual é o penhor da nossa herança, até ao resgate da sua propriedade, em louvor da sua glória (v. 12-14).

Note-se como o apóstolo volta à ideia do versículo 4: fomos escolhidos para sermos santos e irrepreensíveis perante ele. E agora, no versículo 12, Paulo afirma que tudo isso é a fim de sermos para louvor da sua glória. Essa é a finalidade última: a santidade do povo de Deus e a glória do próprio Deus.

É fundamental perceber que o apóstolo não está propondo uma meritocracia religiosa. Se Paulo falasse das responsabilidades da igreja sem antes estabelecer o fundamento da obra redentora de Cristo na soberania de Deus, o que ele diria poderia soar como legalismo ou como um convite à justiça própria. Mas não é assim. Primeiro vem a obra redentora de Cristo; depois, como fruto inevitável desse reconhecimento, vem a santidade, a vida testemunhal para o louvor da glória de Deus.

E o versículo 13 introduz o Espírito Santo como aquele que sela essa obra: depois que ouvistes a palavra da verdade, o evangelho da vossa salvação, tendo nele também crido, fostes selados com o Santo Espírito da promessa. Veja a riqueza trinitariana desta passagem: o Pai nos abençoa no Filho, executa o seu plano em Cristo e sela a obra pelo Espírito Santo. É obra do Deus Triúno do princípio ao fim. A salvação é obra de Deus. É somente sob a direção do Espírito Santo que tomamos posse de Cristo e de todos os seus benefícios.

O Espírito Santo é o grande comunicador do evangelho, usando como instrumento pessoas comuns como nós — mas a obra é dele. Quando o evangelho é fielmente proclamado, é o Espírito quem o envia como dardo flamejante aos corações dos que foram preparados por Deus.

E o versículo 14 acrescenta a garantia: o Espírito é o penhor da nossa herança, até o resgate da sua propriedade, em louvor da sua glória. Ele mesmo é a garantia dessa herança. E que herança é essa? O resgate total e completo na consumação de todas as coisas.

Os efésios viviam em uma cidade contaminada pelo religiosismo idólatra, um polo de adoração à deusa Diana. Eles precisavam ser alimentados com essa verdade profunda antes de ouvir qualquer coisa a respeito das responsabilidades práticas da vida cristã. E é exatamente isso que o apóstolo faz.

Deus tem nos abençoado — com propósito, com a responsabilidade da santidade, para devotar a ele todo louvor e toda a glória.

Conclusão

Recapitulando, em Efésios 1.3-14 o apóstolo Paulo nos chama a reconhecer que [1] Deus nos tem abençoado na eleição, antes da fundação do mundo; [2] Deus nos tem abençoado na predestinação em e por meio de Jesus; e [3] Deus nos tem abençoado para a santidade e louvor da sua glória.

Essa verdade deveria encher o nosso coração de alegria e motivação. Não importa a situação ou o contexto pelo qual estejamos passando, é precioso sabermos que, na grandeza da obra de Deus, fomos abençoados na eleição antes da fundação do mundo, e isso em e por meio de Cristo. Essa certeza transforma a nossa perspectiva sobre tudo.

Mas essa bênção vem acompanhada de propósito e responsabilidade: a santidade e o louvor da glória de Deus. Não se trata de mérito humano, mas do fruto inevitável da graça, produzido em nós pelo poder do evangelho e pela ação do Espírito Santo. Como nos ensina a Escritura, é a santificação sem a qual ninguém verá o Senhor (Hb 12.14).

Que, reconhecendo essa bênção, nós possamos estar verdadeiramente satisfeitos em Deus, sabendo que ele tem nos abençoado. E que essa certeza produza em nós vida santa, para a honra e glória do seu nome.