11 Porquanto a graça de Deus se manifestou salvadora a todos os homens, 12 educando-nos para que, renegadas a impiedade e as paixões mundanas, vivamos, no presente século, sensata, justa e piedosamente, 13 aguardando a bendita esperança e a manifestação da glória do nosso grande Deus e Salvador Cristo Jesus, 14 o qual a si mesmo se deu por nós, a fim de remir-nos de toda iniquidade e purificar, para si mesmo, um povo exclusivamente seu, zeloso de boas obras. 15 Dize estas coisas; exorta e repreende também com toda a autoridade. Ninguém te despreze. Tito 2.11-15.
Sermão do Pastor Edmar Leandro. Pregado na Igreja Presbiteriana de São José do Rio Preto, no culto da noite, em 16/03/2026.
Introdução
O apóstolo Paulo e Tito estiveram juntos na ilha de Creta, a maior ilha do Mediterrâneo. Ali, Paulo pregou o evangelho, muitas pessoas se converteram a Cristo e nasceu uma comunidade cristã. Paulo precisava dar continuidade à sua missão e partiu, mas aquela comunidade não ficou desamparada: o jovem pastor Tito permaneceu ali, cuidando daqueles irmãos. Tito fora bem treinado e preparado pelo apóstolo e ficou para organizar a liderança da nova comunidade, incluindo a instituição de presbíteros (Tt 1.5).
Alguns anos após a partida de Paulo, ele ficou sabendo que Tito enfrentava dificuldades naquela igreja. Falsos mestres estavam entrando na comunidade e desviando os irmãos. Além disso, Creta era uma cidade extremamente imoral, idólatra e pervertida, e a igreja sofria muitas tentações. Diante desse cenário, o apóstolo escreveu esta carta para orientar Tito sobre como enfrentar os falsos mestres e, sobretudo, para mostrar que é possível vivermos plenamente a vida cristã, mesmo numa sociedade contaminada pelo pecado.
No capítulo 2, a partir do versículo 2, Paulo fala sobre as várias classes de pessoas — homens idosos, mulheres idosas, jovens e servos — mostrando que, em todas essas categorias, é possível viver plenamente a vida cristã. E essa vida cristã só é possível por causa da manifestação da graça de Deus. A conduta, o testemunho, a ética e o amor cristão — tudo o que somos e fazemos como cristãos — é possível por causa da manifestação da graça poderosa de Deus em nossa vida.
I. A graça de Deus salva o pecador
O versículo 11 declara:
Porquanto a graça de Deus se manifestou salvadora a todos os homens (v. 11).
Nós podemos viver plenamente a vida cristã nesta sociedade cheia de imoralidade, injustiça e idolatria porque a maravilhosa graça de Deus se manifestou. Ela se manifestou objetivamente por meio da vida, morte e ressurreição de Jesus Cristo, e também internamente, quando o Espírito Santo aplicou essa obra gloriosa em nosso coração. Como diz Tito 3.5: não por obras de justiça praticadas por nós, mas segundo a sua misericórdia, ele nos salvou pelo lavar regenerador e renovador do Espírito Santo.
O Senhor Jesus Cristo, mediante a sua obra redentora, transbordou a graça de Deus sobre todos os homens. Em Cristo Jesus, não apenas os judeus, mas também os gentios — árabes, romanos, gregos, índios —, por meio do arrependimento e da fé, pessoas espalhadas entre todos os povos são enxertadas no corpo do Senhor Jesus Cristo, como ramos na oliveira, recebem vida e produzem frutos.
A graça de Deus alcança todos os homens, independentemente do gênero, da faixa etária ou da classe social. Não há distância geográfica nem barreira étnica que impeça a graça de Deus de alcançar e salvar o pecador mediante o evangelho de nosso Senhor Jesus Cristo. A graça de Deus não faz distinção entre o pobre e o rico, entre o escravo e o seu senhor, entre o jovem e o idoso. A graça de Deus salva os improváveis, os irrecuperáveis — como nós. Quando lemos a Sagrada Escritura, percebemos que a graça de Deus se manifestou na vida de uma mulher samaritana, de uma mulher cananeia, de um eunuco etíope, de um endemoniado gadareno. A graça de Deus se manifestou sobre a nossa vida. E é por isso que estamos aqui: porque fomos despertados, iluminados, regenerados e transformados pela maravilhosa graça de Deus.
É interessante notar o verbo que Paulo utiliza: a graça de Deus “se manifestou”. Esse verbo era utilizado naquela época para descrever a alvorada — o nascer do sol transpondo a linha do horizonte, o invisível tornando-se visível, dissipando as trevas e trazendo a maravilhosa luz. Como diz João 1.14: o Verbo se fez carne e habitou entre nós, cheio de graça e de verdade.
Os cretenses que faziam parte daquela igreja estavam imersos nas trevas do pecado, da condenação e da morte. Mas a luz da graça de Deus brilhou por meio do Senhor Jesus Cristo, como o sol da manhã que chega de forma repentina, dissipando as trevas e trazendo a luz da vida. Creta era uma ilha pervertida e imoral, mas a graça salvadora de Deus tornava possível uma vida obediente, justa e piedosa. Não importa a ilha na qual vivemos: mesmo neste mundo corrompido, é possível vivermos em santidade e justiça, porque a graça poderosa de Deus se manifestou como um sol forte em nosso coração.
II. A graça de Deus educa o cristão
A graça de Deus não apenas nos salva; ela também nos ensina. O versículo 12 declara:
Educando-nos para que, renegadas a impiedade e as paixões mundanas, vivamos, no presente século, sensata, justa e piedosamente (v. 12).
A manifestação da graça salvadora de Deus não é uma licença para vivermos como bem entendermos. Antes, a graça salvadora exerce uma função pedagógica na formação do nosso caráter. Ela não é apenas uma ideia abstrata teológica aprendida na classe de catecúmenos. A graça salvadora de Deus é uma força motriz que nos toma pela mão, que nos treina no caminho da santidade e nos leva a abandonar os velhos hábitos pecaminosos. A graça de Deus dispõe o nosso coração, reorienta os nossos desejos e nos ensina a dizer não à impiedade e às paixões mundanas, e sim para um viver sensato, justo e piedoso.
A graça de Deus é como aquela professora que segura a mão do seu aluno e o conduz nas primeiras palavras. É uma graça que ensina, conduz, repreende, guia, consola, admoesta, restringe e convence. É uma graça que inclina o nosso coração para uma vida de obediência.
1. Negativamente: renegar a impiedade e as paixões mundanas
O verbo “renegar” indica uma ruptura definitiva. Quando somos alcançados pela graça, necessariamente iremos renunciar, abandonar, romper com tudo aquilo que caracteriza o estilo de vida ímpio — o estilo de vida profano, imoral, injusto e desagradável a Deus. Além da impiedade, também renunciamos ao que Paulo chama de “paixões mundanas”: aqueles fortes desejos pelas coisas transitórias e pecaminosas deste mundo. A graça de Deus nos alcança e nos leva a romper de uma vez por todas com as paixões carnais, com os desejos desordenados por prazer, poder e possessão material. A graça nos abastece, nos satisfaz, nos preenche de tal forma que dizemos, com toda alegria e convicção, que temos tudo o que é necessário. Como disse Davi: a tua graça, Senhor, é melhor do que a própria vida.
2. Positivamente: viver sensata, justa e piedosamente
A graça também nos educa para uma vida sensata, justa e piedosa neste presente século. No aspecto pessoal, sensatez; no aspecto relacional, justiça; e no aspecto espiritual, piedade.
Em primeiro lugar, a graça nos conduz a uma conduta sensata. O homem natural, não alcançado pela graça, é impulsivo e descontrolado em suas paixões. Mas o homem educado pela graça é um homem sensato: equilibrado, moderado, comedido, sóbrio. Ele não se ira facilmente. Aqui está o segredo para bons relacionamentos na família: sensatez, moderação e equilíbrio são possíveis por causa da graça.
Em segundo lugar, na questão relacional, a graça nos conduz à justiça. A graça nos educa a agir com honestidade e integridade. Ela nos faz deixar cair as armaduras e viver uma vida transparente em nossos relacionamentos. Um cristão alcançado e educado pela graça dará um excelente testemunho em seu trabalho. Ele não passará despercebido; será notado, admirado e, talvez, criticado e até perseguido por causa da justiça.
Em terceiro lugar, a graça nos conduz a um viver piedoso. Piedade é devoção, humildade e temor reverente diante de Deus. A piedade se revela em nossa vida quando manifestamos aquele profundo desejo de servir, de amar e de adorar o Senhor Jesus Cristo, aquele desejo de conhecer mais o nosso Redentor.
Se nos sentimos cansados, frustrados ou decepcionados na vida espiritual, o caminho não é focar no bem que somos capazes de fazer por conta própria — isso só trará mais frustração. O caminho é focar na maravilhosa graça de Deus. É a graça que nos levanta, que nos educa, que nos fortalece. Somos totalmente dependentes da graça. A graça que nos salvou é a mesma que nos ensina e nos fortalece para uma vida sensata, justa e piedosa.
III. A graça de Deus nos traz esperança
O versículo 13 declara:
Aguardando a bendita esperança e a manifestação da glória do nosso grande Deus e Salvador Cristo Jesus (v. 13).
Nós vivemos entre duas manifestações. A manifestação da graça ocorreu na primeira vinda do Senhor Jesus Cristo, e assim fomos alcançados. A segunda manifestação ocorrerá no retorno de Jesus Cristo. Vivemos entre essas duas manifestações — a primeira e a segunda vinda — e a graça salvadora que nos alcançou produz em nós uma santa aspiração, um desejo real pela concretização dessa bendita promessa.
Assim como uma jovem aguarda o dia do seu casamento com grande desejo e alegria — o dia está marcado, o local reservado, os convites distribuídos —, e a certeza de que o dia chegará enche o seu coração de alegria, de modo que as lutas que antecedem o casamento se tornam pequenas e superáveis, assim também, quando o Senhor Jesus Cristo entra em nossa vida, nasce essa santa aspiração. Enfrentamos lutas nesta vida, mas há em nós um santo desejo pela bendita esperança e manifestação da glória do nosso grande Deus e Salvador Jesus Cristo.
Esta vida só faz sentido para aqueles que realmente aguardam a manifestação futura e gloriosa do Redentor. Se tirarmos a segunda vinda de Cristo e o estabelecimento do seu reino, não nos resta nada.
As pessoas têm muitas expectativas — um carro novo, uma casa nova, um trabalho novo, uma promoção. Mas há algo infinitamente superior. As atrações mais espetaculares e deslumbrantes deste mundo são como pó e cinza quando comparadas à manifestação do nosso Rei e Salvador Jesus Cristo, que virá entre as nuvens com poder e glória. Estaremos diante do ser mais belo, mais amável, mais glorioso, e a nossa alma ficará plenamente satisfeita com o prêmio que receberemos. Os melhores prazeres e deleites que este mundo pode oferecer são como remédio amargo quando comparados à alegria, ao prazer, ao deleite e à segurança que desfrutaremos em Cristo.
Essa bendita esperança não é uma mera possibilidade, mas uma certeza. Aguardamos o nascimento do sol da justiça. Ele chegará entre as nuvens com poder e glória. Como disse o apóstolo Paulo: se a nossa esperança em Cristo se limita apenas a esta vida, somos os mais infelizes de todos os homens (1Co 15.19).
IV. A graça de Deus nos dá nova identidade e possibilita boas obras
O versículo 14 declara:
O qual a si mesmo se deu por nós, a fim de remir-nos de toda iniquidade e purificar, para si mesmo, um povo exclusivamente seu, zeloso de boas obras (v. 14).
O pecador não regenerado é escravo do pecado. Pode até pensar que é livre, mas na realidade o pecado é o senhor que controla e domina a sua vida. Porém, quando a maravilhosa graça de Deus é aplicada em nosso coração pela obra do Espírito Santo, a nossa dívida é quitada, a justiça perfeita do Pai é satisfeita e o poder do pecado é quebrado. Estamos livres, libertos por causa da manifestação da graça. Se o nosso Senhor Jesus Cristo não tivesse morrido na cruz do Calvário, estaríamos completamente perdidos, destinados ao inferno. Mas o texto diz que ele se entregou por nós com três propósitos.
1. Remir-nos de toda iniquidade
Éramos escravos do pecado, mas pela graça fomos remidos. A graça nos alcançou, a dívida foi paga, toda iniquidade foi perdoada e fomos resgatados. Como declaram os anciãos em Apocalipse 5.9: “Digno és de tomar o livro e de abrir os seus selos, porque foste morto e com o teu sangue compraste para Deus os que procedem de toda tribo, língua, povo e nação.” Jesus se entregou para nos remir de toda iniquidade.
2. Purificar para si mesmo um povo
O pecado nos torna sujos e imundos moralmente. Mas o sangue de Jesus Cristo é o alvejante mais poderoso que existe, pois remove as manchas mais profundas do pecado que estão entranhadas em nossa alma. Jesus Cristo não nos concedeu apenas uma nova vida no tempo presente e um novo futuro; ele também redimiu o nosso passado. Ele nos dá um novo passado, um novo presente e um novo futuro. Olhamos para o passado e não carregamos mais traumas, porque sabemos que o sangue de Jesus nos purifica de toda iniquidade. Estamos lavados.
3. Um povo zeloso de boas obras
Quando a graça transforma a nossa vida, as obras da carne são substituídas pelo maravilhoso fruto do Espírito. As boas obras que realizamos, Deus as possibilita pela sua graça. Não as fazemos por obrigação nem para receber algo de Deus. Realizamos essas boas obras e somos um povo zeloso de boas obras porque esse é o resultado de um coração alcançado pela graça. O trabalho, as boas obras e o viver o evangelho são expressão de amor e devoção a Deus.
Conclusão
Quem somos nós? Somos o povo de Deus, o povo exclusivo de Deus. Esta igreja é propriedade exclusiva do Senhor Jesus Cristo. Não pertencemos a nós mesmos; pertencemos a Cristo, porque Jesus Cristo comprou cada um de nós por meio do seu precioso sangue. Estamos eternamente seguros. A salvação é uma obra da graça que nos liberta da punição do pecado e nos torna filhos. Não precisamos impressionar a Deus para conquistar a sua atenção; ele nos amou primeiro. Já fez uma aliança, já nos salvou. Somos dele. O que fazemos é em resposta ao seu amor.
Em síntese: [1] a graça de Deus nos salva — ela se manifesta como um sol forte, dissipando as trevas do pecado e nos alcançando com a salvação; [2] a graça nos educa — ela nos ensina a renegar a impiedade e as paixões mundanas e nos conduz a um viver sensato, justo e piedoso; [3] a graça nos traz esperança — vivemos entre a primeira e a segunda vinda de Cristo, aguardando a bendita esperança da manifestação da sua glória; e [4] a graça nos dá uma nova identidade e possibilita boas obras — fomos remidos, purificados e constituídos como povo exclusivo de Deus, zeloso de boas obras.
Porquanto a graça de Deus se manifestou salvadora a todos os homens (v. 11).
Somos uma igreja salva pela graça, que está sendo santificada pela graça, que aspira o retorno do Senhor Jesus Cristo pela graça, e em breve — muito em breve — a plenitude de tudo o que é bom virá sobre todos nós, pela graça.