28 Ouvindo, pois, o Senhor as vossas palavras, quando me faláveis a mim, o Senhor me disse: Eu ouvi as palavras deste povo, as quais te disseram; em tudo falaram eles bem. 29 Quem dera que eles tivessem tal coração, que me temessem e guardassem em todo o tempo todos os meus mandamentos, para que bem lhes fosse a eles e a seus filhos, para sempre! 30 Vai, dize-lhes: Tornai-vos às vossas tendas. 31 Tu, porém, fica-te aqui comigo, e eu te direi todos os mandamentos, e estatutos, e juízos que tu lhes hás de ensinar que cumpram na terra que eu lhes darei para possuí-la. 32 Cuidareis em fazerdes como vos mandou o Senhor, vosso Deus; não vos desviareis, nem para a direita, nem para a esquerda. 33 Andareis em todo o caminho que vos manda o Senhor, vosso Deus, para que vivais, bem vos suceda, e prolongueis os dias na terra que haveis de possuir. Deuteronômio 5.28-33.
Sermão do Pastor Misael Batista do Nascimento. Pregado na Igreja Presbiteriana de São José do Rio Preto, no culto da noite, em 22/02/2026.
Introdução
A mensagem muito simples da Escritura para nós hoje é:
Deus deseja que vivamos.
Enquanto a idolatria e o pecado são identificados com a morte, Deus é identificado com a vida. Ele é o Deus vivo que cria, concede e mantém a vida, tanto biológica, quanto espiritual e eterna.
Em Deuteronômio, a compreensão e o desfrute corretos da vida dependem de ouvir e praticar a Palavra de Deus. A palavra orienta para a vida e, ao mesmo tempo, trazida para dentro de nós pelo poder do Espírito Santo, vivifica.
Moisés sabe disso muito bem. Daí sua preocupação em reforçar este ponto, para a nova geração que ouve sua mensagem proferida diante do Jordão, pouco antes da entrada na Terra Prometida.
Moisés documenta a resposta da geração antiga à revelação divina, no momento do estabelecimento do pacto, no Monte Horebe. Ele está batendo nesta mesma tecla histórica, desde o final do sermão anterior.
“Lembrem-se”, ele diz para os que estavam lá; e “saibam disso”, para os que não estavam. “Repassem isso em suas mentes e corações; não se esqueçam disso: A geração anterior acertou ao temer o Deus santo e se comprometer com ele. Mas a geração anterior não tinha coração para guardar os mandamentos de Deus; por isso, ela fracassou”.
Moisés repassa e insiste naquilo que informou em Deuteronômio 1.26-28. No fim das contas a geração antiga errou ao imaginar que Deus tinha para ela desejos de morte. Que tragédia!
Isso nos ajuda a compreender que uma das características da fé salvadora é saber que Deus tem desejos de paz e vida para todos os que o buscam honesta e fervorosamente, como lemos em Jeremias 29.11-13:
Eu é que sei que pensamentos tenho a vosso respeito, diz o Senhor; pensamentos de paz e não de mal, para vos dar o fim que desejais. Então, me invocareis, passareis a orar a mim, e eu vos ouvirei. Buscar-me-eis e me achareis quando me buscardes de todo o vosso coração.
Não é possível confiar em Deus como salvador, se pensamos nele como alguém que deseja nosso mal. Os eleitos de Deus o enxergam como “Pai propício”, como bem explicou Calvino.[1] Os rejeitados o verão sempre como aquele que para eles prepara a morte.
O diabo é o “ministro da morte”. Desde os Gênesis, ele dá “tudo de si” para nos prender na “masmorra da dúvida”, confundir e matar. Graças a Deus que Jesus é “o caminho, a verdade e a vida” (Jo 14.6). Por conta disso, como Martinho Lutero entendeu muito bem:
Se nos quisessem devorar demônios não contados,
Não nos iriam derrotar nem ver-nos assustados.
O príncipe do mal, com seu plano infernal,
Já condenado está: vencido cairá
Por uma só palavra.[2]
O mal se esforça e esperneia, mas ele não vencerá. Jesus é o vencedor. Nos termos da Sagrada Escritura, o mal sempre perde. Não significa que o mal seja fraco, e sim, que não é todo-poderoso. Somente Deus é criador todo-poderoso. Deus sempre vence o mal.
Moisés explica isso primeiro mencionando [1] a bênção do discernimento sobre a santidade de Deus (v. 28). Em seguida, apontando para [2] o problema do coração indisposto (v. 29) e, finalmente, destacando [3] o desafio da caminhada consistente com a fé (v. 30-33).
Vejamos, em primeiro lugar…
I. A bênção do discernimento sobre a santidade de Deus
28 Ouvindo, pois, o Senhor as vossas palavras, quando me faláveis a mim, o Senhor me disse: Eu ouvi as palavras deste povo, as quais te disseram; em tudo falaram eles bem.
No sermão anterior, olhando para os versículos precedentes, explicamos o pedido do povo a Moisés, para que ele atuasse como mediador, ouvindo a Deus diretamente e transmitindo a mensagem divina aos israelitas.
Agora lemos o próprio parecer de Deus sobre aquela consulta. Deus entende que os israelitas pediram bem. O discernimento deles, acerca da majestade e santidade divinas, foi correto. Em outras palavras, eles pareciam bem encaminhados com relação ao culto, pois, como explica John Frame:
“Temor e tremor” nas Escrituras é adoração, a reação comum de um ser humano à presença de Deus. É essa presença divina conosco e em nós que nos motiva a sermos responsáveis. Na presença do grande Rei, não ousamos rejeitar seus mandamentos.[3]
Tal percepção — da grandeza, da majestade, das perfeições e da pureza de Deus — é, em si mesma, uma bênção, pois o tolo ou ímpio não teme ao Senhor, como lemos em Salmos 36.1: “Há no coração do ímpio a voz da transgressão; não há temor de Deus diante de seus olhos”.
É importante temer a Deus, porque:
Deus deseja que vivamos. Sem o temor a Deus, mergulhamos em morte desde agora e para sempre.
Saber que Deus existe, que Deus é vivo, que Deus é pessoal e que Deus é majestoso e santo, e que ele recompensa aqueles que o buscam… Isso, nos termos de Hebreus 11.6, é o início da fé que agrada a Deus.
Ouvindo este sermão de Moisés, a nova geração precisa estar certa de que Deus é majestoso e santo.
Os que negam a existência de Deus ou o imaginam pequeno e tolerante com a injustiça, devem rever sua crença e rota.
Deus informa a Moisés que a geração anterior compreendeu isso muito bem. Ela desfrutou da bênção do discernimento sobre a santidade de Deus.
Mas não apenas isso. Em segundo lugar, a fala de Moisés ressalta…
II. O problema do coração indisposto
Pois Deus afirma, em seguida…
29 Quem dera que eles tivessem tal coração, que me temessem e guardassem em todo o tempo todos os meus mandamentos, para que bem lhes fosse a eles e a seus filhos, para sempre!
Quer dizer, eles pensaram corretamente, mas viveram o oposto. Isso porque o pensamento deles não correspondeu ao coração deles. É possível “falar bem” sobre Deus e as coisas da fé, e ainda assim, ter o coração descolado da fala, avesso a Deus e a seus mandamentos.
Dentre as diversas verdades destacadas no livro de Deuteronômio, uma delas (que nos deixa desconcertados e amuados), é a de que replicamos Adão e Eva em Gênesis 3.7-8; insistimos em produzir vestes de justiça própria enquanto nos escondemos de Deus.
O v. 29 inicia com uma expressão idiomática que encapsula um profundo desejo de Deus — “Quem dera!”. O propósito de Deus tem a ver com o nosso interior, como segue: “Quem dera eles tivessem tal coração, que me temessem e guardassem em todo o tempo todos os meus mandamentos”. Deus anseia por respeito e consideração.
É terrível para nós conviver com alguém que não nos leva a sério, nem demonstra afeto prático! Graças a Deus, cada vez mais as pessoas denunciam relacionamentos abusivos, nos quais o ser humano é forçado a viver com outro que o desconsidera, e que existe unicamente em função de si, sem espaço para o amor conforme a aliança que escolhe amar e se entrega para sempre, fiel e completamente ao seu amado.
Na última palestra do acampamento de 2026, expondo o pensamento de Rebeca McLaughlin, eu afirmei que é impossível esconder-se de Deus que conhece não apenas nossas ações, mas também nossos pensamentos e sentimentos mais íntimos.[4] Deus olhou para o coração da primeira geração de israelitas e concluiu: “eles não me respeitam de fato; eles não gostam de minhas instruções de fato”. Lamentável. Trágico.
O ponto aqui é: por que respeitar a Deus é importante? Por que guardar os mandamentos de Deus é importante? Não é que Deus, para existir ou se satisfazer, dependa de nosso respeito ou obediência. Deus existe por si mesmo e se satisfaz consigo mesmo, na comunhão perfeita da Trindade Bendita.
O fato é Deus almeja respeito e obediência porque o que ele recomenda é para o nosso bem. Quando o obedecemos, fincamos as estacas de nossa própria tenda. Quando o respeitamos, funcionamos da melhor maneira possível, para o melhor resultado possível, ou seja, obtemos o nosso melhor desempenho. A paz de Deus enche nosso coração e o riso a nossa boca e nossos cônjuges, filhos netos, irmãos e amigos agradecem por isso. Não é sem razão que lemos, no fim do v. 29, “para que bem lhes fosse a eles e a seus filhos, para sempre!”
É por essa razão que não parece exagerado ver, no início do v. 29, um suspiro divino: “Quem dera!” e constatar como é terrível o problema do coração indisposto!
Deus deseja que vivamos, mas é preciso vencer a indisposição de nosso coração para que o bem suceda a nós e a nossos filhos, para sempre.
Isso nos encaminha, em terceiro lugar, para…
III. O desafio da caminhada consistente com a fé
Daí as palavras dos v. 30-33. Primeiro, os crentes devem ir para casa e aguardar as instruções divinas, dadas a Moisés (v. 30-31):
30 Vai, dize-lhes: Tornai-vos às vossas tendas. 31 Tu, porém, fica-te aqui comigo, e eu te direi todos os mandamentos, e estatutos, e juízos que tu lhes hás de ensinar que cumpram na terra que eu lhes darei para possuí-la.
Moisés é o ministro da Palavra e do testemunho de Deus. Cabe a ele ouvir O que Deus diz e, a partir de então, dedicar-se ao ensino fiel.
Se você não entendia bem as atribuições de um pastor ou missionário, basta olhar para Deuteronômio 5.31. Se você não entendia bem suas responsabilidades como cristão e como testemunha de Jesus neste mundo, por favor, confira Deuteronômio 5.31. Prestar atenção no que Deus diz em sua Palavra. Passar isso adiante, compartilhar isso, com fidelidade. A igreja não precisa “inventar moda”. A incumbência da igreja é reportar exatamente aquilo que está escrito na Bíblia, de modo fiel.
Eu sei que você que me ouve, gosta de novidades. Corre para os últimos lançamentos do seu canal de streaming. Acessa com interesse todas as publicações sobre o desfile de uma escola de samba falida que, no último carnaval, sugeriu que famílias cristãs não passam de “alimento em conserva”. Não se sinta mal por isso; eu também procedo assim. Sou atraído por novidades. Nós nos identificamos um com o outro porque nossos corações procedem da mesma Queda de Adão. A solução para nosso mal é o ensino da Palavra de Deus como lemos no final do v. 31. Temos de aprender para praticar: “tu lhes hás de ensinar que cumpram na terra que eu lhes darei para possuí-la”.
Em suma, nós somos desafiados à caminhada consistente com a fé. Porque caminhar conforme teorias é muito fácil. Karl Marx propôs esse sistema em que as diferentes classes sociais seriam extintas e a riqueza seria distribuída a todos igualitariamente. No entanto, ele teorizou isso desfrutando dos benefícios da burguesia. Líderes de seitas pregam que os crentes devem negar a si mesmos e devotar tudo a Deus. Eles apenas não avisam que, no fundo, eles se consideram Deus e se devotam ao desfrute de prazeres para seu próprio deleite egoísta. Nós também, dizemos que não se pode roubas, mas torcemos por Robin Hood e talvez consideremos que não há problema em levar “vantagem desonesta” em uma coisa que para nós, pareça pequena.
Vamos olhar de perto para os v. 32-33, admitindo sua verdade, atualidade e solenidade:
32 Cuidareis em fazerdes como vos mandou o Senhor, vosso Deus; não vos desviareis, nem para a direita, nem para a esquerda. 33 Andareis em todo o caminho que vos manda o Senhor, vosso Deus, para que vivais, bem vos suceda, e prolongueis os dias na terra que haveis de possuir.
Estes versículos falam sobre obediência radical. Total. Completa. Perfeita. Você entende isso? Cuidar em fazer como Deus nos mandou. Sem qualquer desvio, o mínimo que seja. Seguir tudo. Andar em todo caminho prescrito pelo Senhor. Todos os dias. Sem falhar. Tem de ser assim para que “bem vos suceda, e prolongueis os dias na terra que haveis de possuir” (v. 33).
Repetindo, o desafio é o de ser consistente na caminhada da vida e de fé. Graças a Deus, nós não fomos abandonados. Não fomos deixados cegos, em uma terra sem lei. Deus nos criou e nos programou. E Deus nos convoca a viver conforme esta programação espiritual e moral dada por ele para o nosso bem.
Deus deseja que vivamos, mas para isso temos de dar cada passo de modo consistente com a fé conforme revelada na Bíblia. Somente assim viveremos bem na terra que Deus nos deu.
Moisés apresenta o desafio da caminhada consistente com a fé.
Dito isto, podemos concluir…
Conclusão
Recapitulando que, em Deuteronômio 5.28-33, Moisés discorre sobre [1] a bênção do discernimento sobre a santidade de Deus, [2] o problema do coração indisposto e [3] o desafio da caminhada consistente com a fé. A mensagem muito simples aqui é:
Deus deseja que vivamos.
Esta passagem nos exorta a refletir sobre como nossa obediência a Deus não é apenas um mandamento, mas um ajuste da alma para uma vida plena. Em tempos de dificuldades, sabemos que obedecer a Deus nos traz paz e direção, mesmo quando não entendemos os desafios à nossa frente.
Deus deseja que vivamos em obediência, pois isso não só traz bênçãos para nossas vidas, mas também nos alinha com seu propósito eterno. A obediência a Deus é uma resposta ao seu amor e um componente essencial de nossa fé, mostrando que seguir seus caminhos nos leva a uma vida abençoada.
[1] Sendo assim, coisa boa é saber que Deus é majestoso e santo. E temer a Deus, por conta disso. Isso requer abandonar a ideia de que Deus cabe em nosso bolso. Deus é maior do que nós. E Deus age em nós e sobre nós como quer. Ele não se encaixa a nós. Somos nós que nos ajustamos a ele. É preciso reconhecer que Deus é majestoso e santo, porque:
Deus deseja que vivamos.
[2] Pelo menos tinha de ser assim, mas não é. Porque nosso coração, por conta da Queda, é indisposto a Deus. Teimoso de dar dó. Nós teimamos porque não o respeitamos o suficiente. Amamos a autossuficiência e independência. Optamos por “independência e morte”, ao invés de vida satisfeita e dependente dele.
Precisamos nos arrepender disso. Clamar a Deus para que nos ajude. Que visite nossa alma com graça. Que ele nos dê arrependimento e fé. Transformação e vida. Temos de nos arrepender e colocar nossa fé unicamente nele, porque:
Deus deseja que vivamos.
[3] Finalmente, a vida obediente a Deus em tudo aponta para Jesus Cristo, que obedeceu ao Pai até a morte na cruz (Fp 2.8). Jesus é nosso modelo de disposição de seguir a vontade divina até o fim. Ele é o cumprimento total das leis e mandamentos.
Ele mostra que a verdadeira liberdade vem de viver sob a vontade de Deus salvos por ele, purificados por ele, transformados por ele e unidos a ele.
Deus deseja que vivamos, mas para isso temos de crer em Jesus, ser habitados por Jesus e conduzidos no discipulado de Jesus. Só assim viveremos bem na terra que Deus nos deu (aqui e no reino consumado).
Jesus está aqui. Jesus venceu a morte e nos convida a crer nele, para que vivamos a aliança proposta em Deuteronômio. E assim tenhamos vida que começa aqui e prossegue, eternamente na Canaã de Deus! Vamos orar sobre isso.
Notas
[1] CALVINO, João. As institutas. 3ª ed. São Paulo: Cultura Cristã, 2022, II.XVII.5, p. 793. Edição do Kindle: “De onde se conclui não só que por intermédio de Cristo nos foi outorgada a salvação, mas ainda que, por sua graça, o Pai nos é agora propício. Pois, não há dúvida de que nele plenamente se cumpre o que Deus declara, figurativamente, por intermédio de Isaías [37.35]: ‘Farei isto por mim e por Davi, meu servo’, do que a melhor testemunha é o Apóstolo, quando diz: ‘Perdoados são vossos pecados por amor de seu nome’ [1Jo 2.12]”. Grifo nosso.
[2] LUTERO, Martinho; VON HAFE, J. E. “Hino 155 Castelo forte”. In: MARRA, Cláudio. (Org.). Novo cântico. 16ª ed. Reimp. 2017. São Paulo: Cultura Cristã, 2013. ePub.
[3] FRAME, John. Teologia sistemática. São Paulo: Cultura Cristã, 2019, v. 2, p. 155.
[4] “O cristianismo funciona como um holofote. De um lado, nos confronta com um Deus que sabe o que pensamos. Ele conhece nosso coração e nosso fingimento, nossas palavras e nossas atitudes. Os aspectos que trabalhamos tão arduamente para esconder são expostos diante dele, e a única pessoa com o direito de julgar dispõe de todas as provas”; cf. MCLAUGHLIN, Rebecca. Cristianismo à prova. Rio de Janeiro: Thomas Nelson Brasil, 2024, p. 314. Edição do Kindle.