Uma família de discípulos de Jesus
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Pagar para ver [Dt 4.25-31]

25 Quando, pois, gerardes filhos e filhos de filhos, e vos envelhecerdes na terra, e vos corromperdes, e fizerdes alguma imagem esculpida, semelhança de alguma coisa, e fizerdes mal aos olhos do Senhor, teu Deus, para o provocar à ira, 26 hoje, tomo por testemunhas contra vós outros o céu e a terra, que, com efeito, perecereis, imediatamente, da terra a qual, passado o Jordão, ides possuir; não prolongareis os vossos dias nela; antes, sereis de todo destruídos.

27 O Senhor vos espalhará entre os povos, e restareis poucos em número entre as gentes aonde o Senhor vos conduzirá. 28 Lá, servireis a deuses que são obra de mãos de homens, madeira e pedra, que não veem, nem ouvem, nem comem, nem cheiram.

29 De lá, buscarás ao Senhor, teu Deus, e o acharás, quando o buscares de todo o teu coração e de toda a tua alma. 30 Quando estiveres em angústia, e todas estas coisas te sobrevierem nos últimos dias, e te voltares para o Senhor, teu Deus, e lhe atenderes a voz, 31 então, o Senhor, teu Deus, não te desamparará, porquanto é Deus misericordioso, nem te destruirá, nem se esquecerá da aliança que jurou a teus pais. Deuteronômio 4.25-31.

Sermão do Pastor Misael Batista do Nascimento. Pregado na Igreja Presbiteriana de São José do Rio Preto, no culto da manhã, em 04/01/2026. Primeiro Domingo do ano.

Com Deus a gente caminha em confiança, obediência e esperança. Com Deus a gente nunca “paga para ver”.

Deus firma um pacto gracioso conosco (cf. v, 23). E nossa relação pactual com Deus se resume em crer/confiar e seguir/obedecer.

A gente usa a expressão “pagar para ver” quando duvida de algo que alguém diz ou promete. Por exemplo, “você diz que vai mudar, mas eu pago para ver”, significa “duvido que você mude”. Esta expressão pode ter uso nas interações humanas, mas é fatal na relação com Deus.

Aqui em Deuteronômio, Moisés está pregando um sermão para uma turma jovem, insistindo com eles: Creiam, confiem e sigam, obedeçam a Deus. Não brinquem com Deus; não brinquem com o pecado; não paguem para ver. Israel sempre se deu mal, quando “pagou para ver”, em sua relação com Deus.

Para preservar e orientar Israel, Moisés esclarece três condições pactuais: [1] Se vocês duvidarem de Deus, perderão a terra (v. 25-26). [2] Se vocês duvidarem de Deus, serão espalhados e enfraquecidos (v. 27-28) e [3] se vocês buscarem a Deus, serão por ele achados e ajudados (v. 29-31).

Vejamos a primeira condição pactual…

I. Se vocês duvidarem de Deus, perderão a terra

É o que consta a partir do v. 25. Agora Moisés deixa de falar sobre o passado e enfatiza o futuro. Deus antevê a passagem do tempo, o esfriamento da devoção e o surgimento de corrupção em Israel: “Quando, pois, gerardes filhos e filhos de filhos, e vos envelhecerdes na terra, e vos corromperdes” (v. 25a).

A evidência de corrupção (desdobrando o v. 16) é o acolhimento da idolatria: “e fizerdes alguma imagem esculpida, semelhança de alguma coisa” (v. 25b). Ora, tal prática configura descuido da alma (v. 15a), desobediência à instrução dos v. 15b-19 e seguir na vida não como “povo de herança” (v. 20) e sim como povo estranho à aliança. E isso desagrada a Deus e atrai sua ira sobre nós: “e fizerdes mal aos olhos do Senhor, teu Deus, para o provocar à ira” (v. 25c).

Com Deus a gente caminha em confiança, obediência e esperança. Com Deus a gente nunca “paga para ver”.

O que acontece quando “pagamos para ver”, ou seja, menosprezamos a instrução de Deus? O v. 26 contém uma palavra solene e digna de toda atenção.

26 Hoje, tomo por testemunhas contra vós outros o céu e a terra, que, com efeito, perecereis, imediatamente, da terra a qual, passado o Jordão, ides possuir; não prolongareis os vossos dias nela; antes, sereis de todo destruídos.

Percebeu que aqui Deus usa linguagem jurídica? Percebeu que o cenário aqui é de um Tribunal tendo Deus como Promotor e, ao mesmo tempo, Juiz, e o céu a e terra como testemunhas? E já está promulgada a sentença.

Caminhar com Deus em confiança, obediência e esperança é importante para que não pareçamos, para que nos fixemos na boa terra que ele nos dá. Para que tenhamos acesso à herança. Para que gozemos das bênçãos temporais e eternas da aliança. Se formos negligentes nisso, sofreremos consequências.

Se vocês duvidarem de Deus, perderão a terra — eis a primeira condição pactual explicada por Moisés. Mas não apenas isso.

Há uma segunda condição, qual seja…

II. Se vocês duvidarem de Deus, serão espalhados e enfraquecidos

O v. 27 menciona o espalhamento: “O Senhor vos espalhará entre os povos, e restareis poucos em número entre as gentes aonde o Senhor vos conduzirá”. E o v. 28 retrata o enfraquecimento de Israel, que se torna escravo dos ídolos que assumiu ou criou: “Lá, servireis a deuses que são obra de mãos de homens” (v. 28a). Se por um lado tais ídolos escravizam, por outro, são inúteis, uma vez que não passam de “madeira e pedra, que não veem, nem ouvem, nem comem, nem cheiram” (v. 28b).

Israel, tirado “da fornalha de ferro do Egito” para ser “povo de herança” do Senhor (v. 20), será pulverizado, apequenado, submetido a nova escravidão.

Caminhar com Deus em confiança, obediência e esperança é importante para que não sejamos enfraquecidos nem dominados por ídolos inúteis que nós mesmos insistimos em criar.

Se vocês duvidarem de Deus, serão espalhados e enfraquecidos — é a segunda condição da aliança, nesta passagem de Deuteronômio.

E agora conheçamos a terceira (e mui graciosa) condição da aliança…

III. Se vocês buscarem a Deus, serão por ele achados e ajudados

Se as condições anteriores relacionavam-se com desobediência pactual, esta última provê acerto e restauração, como se lê:

29 De lá, buscarás ao Senhor, teu Deus, e o acharás, quando o buscares de todo o teu coração e de toda a tua alma. 30 Quando estiveres em angústia, e todas estas coisas te sobrevierem nos últimos dias, e te voltares para o Senhor, teu Deus, e lhe atenderes a voz, 31 então, o Senhor, teu Deus, não te desamparará, porquanto é Deus misericordioso, nem te destruirá, nem se esquecerá da aliança que jurou a teus pais.

O v. 29 fala sobre uma busca de Deus, sincera e fervorosa: “De lá, buscarás ao Senhor, teu Deus, e o acharás, quando o buscares de todo o teu coração e de toda a tua alma” (v. 29).

Tal busca é feita “de lá” (v. 29a), ou seja, do fundo do pântano do desespero, depois de Israel teimar e perder a terra, e ser espalhado e enfraquecido e escravizado.

“De lá […] quando estiveres em angústia, e todas estas coisas te sobrevierem nos últimos dias” (v. 29a,30a).

“De lá” Deus poderá ser novamente desejado. E invocado. E buscado. E “lá” Deus será “achado” (aqui Deus anexa uma promessa à condição).

Mas não falamos aqui de qualquer tipo de busca. Moisés fala sobre buscar a Deus com todo o ser, em verdade e com intensidade.

Vejamos como Deuteronômio ecoa nos profetas, pois em Jeremias 29.13 nós lemos: “Buscar-me-eis e me achareis quando me buscardes de todo o vosso coração”.

No v. 30b, isso equivale a “te voltares para o Senhor, teu Deus, e lhe atenderes a voz”.

Buscar com arrependimento e intenção de retornar a caminhada da aliança. Deixar de vez de pagar para ver. Retomar o crer/confiar e o seguir/obedecer.

E no v. 31, Deus anexa mais promessas à condição: “então, o Senhor, teu Deus, não te desamparará, […] nem te destruirá”.

E por que ele procede assim? O que o move a amparar e restaurar? Será que Deus fica deslumbrado pelo desempenho excelente do povo? Será que Israel se torna impecável? A resposta do texto é: Deus ampara e restaura Israel “somente pela graça”. Deus trata com misericórdia. Deus se lembra da aliança, como lemos ainda no v. 31: “porquanto é Deus misericordioso, […] nem se esquecerá da aliança que jurou a teus pais”.

Caminhar com Deus em confiança, obediência e esperança é importante. E quando falhamos na confiança ou pecamos, se o buscarmos da maneira por ele estabelecida, ele nos escuta. Se deixa encontrar, nos ajuda e restaura por pura graça.

Se vocês buscarem a Deus de verdade, serão por ele achados e ajudados — é a terceira condição da aliança, nesta passagem de Deuteronômio.

E aqui começamos a concluir, primeiramente repassando o ensino, ou seja…

A aliança para a nova geração de Israelitas tinha três condições: Primeira: [1] Se vocês duvidarem de Deus, perderão a terra. Segunda: [2] Se vocês duvidarem de Deus, serão espalhados e enfraquecidos e terceira: [3] se vocês buscarem a Deus, serão por ele achados e ajudados.

O que Deuteronômio 4.25-31 tem a ver conosco?

Nós também somos convocados a caminhar com Deus em confiança, obediência e esperança.

[1] Porque nesta vida, nós precisamos avançar. E como temos aprendido em Deuteronômio, desconfiança e desobediência a Deus nos forçam a andar em círculos, atrasando ou impedindo nosso acesso a bênçãos pactuais muito preciosas.

[2] Ademais, pensando neste ano agora iniciado, é preciso admitir que precisamos de graça, direção e recursos de Deus para percorrê-lo. Os ídolos são ineficazes; pode até parecer que eles funcionam, mas não: “não veem, nem ouvem, nem comem, nem cheiram” (v. 28).

Por outro lado, nossa vida pede mais vida. E mais vida só é encontrada em Deus e nas coisas de Deus. O ídolo é ladrão; o ídolo rouba a vida, mas Jesus disse, em João 10.10: “O ladrão vem somente para roubar, matar e destruir; eu vim para que tenham vida e a tenham em abundância”. Além disso, Jesus também afirmou, em Mateus 6.33: “Buscai, pois, em primeiro lugar, o seu reino e a sua justiça, e todas estas coisas vos serão acrescentadas”.

Ao invés de insistir em duvidar de Deus pagando para ver, vale a pena crer que Deus pagou o resgate por nossos pecados com o sangue de Jesus, a fim de que possamos ver — aqui e agora — sua salvação.

Deus Pai enviou Jesus que foi erguido em uma cruz, para que enxergássemos seu amor encarnado. Deus enviou seu Filho unigênito, Jesus, e agora podemos olhar para ele e ser salvos.

Porque Deus enviou Jesus, mediador da nova aliança, neste Domingo de Epifania nós podemos também acolher Jesus como nosso Rei e consagrar a ele nosso “ouro”, nossa “mirra” e nosso “incenso” — tudo o que somos e temos. E salvos pela graça, podemos cantar o hino “Ofertório” (NC nº 60):

De ti vivemos nós, Senhor, e em ti nos alegramos;

Na comunhão do puro amor que em Cristo desfrutamos.

Vamos orar sobre isso.